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Jornal “Diário da Noite”/SP
Saponga: adeus de 5 minutos
10 de jan. de 1969, sexta-feira
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Dona Plautilia não quer ver ninguem. Toda a angustia que vinha sentindo desde novembro do ano passado transformou-se agora num desacredito total pela humanidade e por isso mesmo, isolou-se de tudo. Sua fuga é um estado de choque, de apatismo e crises de choro. Não recebe e nem fala com ninguem. Está assim desde ontem pela manhã, quando leu nos jornais que seu filho, Carlos Eduardo da Silva, estava morto, fuzilado que fôra pelas armas do Esquadrão da Morte. Para ela, não foi Saponga quem morreu. Foi, isto sim, um menino que ainda precisava dos seus cuidados e que, para ela, jamais deixou de ser o engraxate loiro e sardento do Mercado Municipal de Sorocaba.

TV & JORNAIS

A rua Hermelindo Matarazzo, em Sorocaba, é bastante conhecida, por seu tamanho, idade e importancia, já que corta todo um lado da cidade, ligando-se ao centro, por um viaduto. Nessa rua, no numero 1. 231, moram a mãe, padrasto e irmãos de Carlos Eduardo. E´ uma casa simples, pintada de um branco descorado e com área envidraçada, em forma de arco, tomando quase que toda a frente da moradia. Um corredor lateral vai até o fim do terreno, onde existe um quarto, construído depois da casa e ligado a ela por uma pequena porta. O muro é branco também. Todos nas imediações conhecem e gostam de dona Plautilia e "seu" Vicente. Moram ali há muito tempo, mais de 30 anos. O padrasto de Saponga é sapateiro e já fez serviços quase que para a vizinhança toda.

E quando num televisor de uma das casas ali perto entrou no ar um programa noticioso, foram chamar "seu" Vicente. E´ que se noticiava a morte de "Saponga", o famigerado bandido que o Esquadrão da Morte caçava insistentemente. Ele ouviu tudo em silencio e voltou para casa. Não sabia se comunicava à esposa o que acabava de ouvir, pois sabia que estaria apenas fazendo com que sofresse uma noite mais.

“Não, se um vai passar a noite sem conseguir dormir, que seja eu. Não é justo fazer com que ela passe uma noite de cão. Vou deixá-la descansar bem e amanhã, quando estiver trabalhando, vejo como contarei a ela que o Carlinhos foi assassinado”. Vicente Agilope é alto e gordo; uma barba de dois dias cobre-lhe o rosto de olheiras profundas, onde se nota muito desanimo e abatimento. Passou a noite toda acordado, pensando na maneira de contar a Plautilia que o Carlos fôra morto. Mas não foi preciso. Logo cedo, ao apanhar os jornais na porta de casa, leu em todas as manchetes que Saponga fôra fuzilado. E desde então teve seguidas crises de choro. Entrou em estado de choque e foi preciso que chamassem medicos para fazê-la recuperar-se dos prolongados desmaios. E não apenas ela ficou assim. Uma sobrinha que mora no Rio de Janeiro e está passando ferias na casa de Vicente tambem teve crises nervosas e a manhã inteira a casa afundou-se em desespero. Não era esse o fim que dona Plautilia queria para seu filho. Concordava que o prendessem e o mantivessem detido até pagar todos seus erros, mas não conseguia entender, por segundos que fosse, a razão para mata-lo. "Não precisa fazer nada disso; ele errou muito, é verdade. Prende e pronto. Mas matar, para que, meu Deus?"

O DESESPERO

Quando começou a caçada a "Saponga", depois da morte do investigador Paré, dona Plautilia foi perdendo peso, a ponto da mulher bonita e forte, que nem aparentava seus 45 anos, transformar-se numa pessoa abatida, magra, sem vontade para nada. Em menos de três meses perdeu quase 30 quilos.

Passava muito do seu tempo a rezar na igreja catolica de Sorocaba, pois era crente fervorosa e nesse estagio do sofrimento, só pode mesmo se afirmar na religião. Agora, seu filho, o Carlinhos, morreu, nada mais lhe interessa. Não quer comer nem levantar da cama. "Não interessa mais nada, agora", diz ela.

O PADRASTO, O QUE ACHA

"Pronto. Mataram o rapaz e fim!Até agora seu fiquei quieto, mas depois dessa nem sei o que faço. Já estou cansado de tudo e a minha paciencia está se esgotando; sou capaz de fazer nem sei o que. Tanto fizeram que acabaram por matar o Carlos, um rapaz que aqui em casa sempre foi muito respeitador, muito decente. Lá fora, é verdade que ele tinha uma porção de erros. Mas matar, essa não!" Depois dos momentos de ira, abaixa a cabeça como se fosse chorar. Dos 10 filhos que criou, o único a lhe dar dor-de-cabeça foi Carlos Eduardo. "Esse menino, desde cedo, não quis se submeter a nenhuma norma. Sempre achou que a vida dele era a mais importante e valia ser vivida dentro dos moldes que ele mesmo criara. Os outros, esses estão muito bem. Um se formou em contabilidade, outros estão bem colocados em firmas comerciais. Apenas o Carlos é que saiu assim. Mas o que ele fez não justificava o fuzilamento".

Vicente está revoltado. Sabe que Carlos Eduardo tinha dois homicídios para responder, além de diversos assaltos a mão armada. Mas até agora se lhe apresente tremenda injustiça o que fizeram com Carlos, que para ele sempre foi um menino que tinha muitas coisas boas.

LOLA, A AMANTE

Lola é uma moça morena e gorda, de rosto bonito. Durante ano e meio foi amante de Carlos Eduardo, dividindo com Nair o bem-querer de Saponga. Ontem, ela foi ao Instituto Médico Legal, tentar ver mais uma vez o corpo do homem de quem ela gostou. Um delegado de Polícia que estava no IML, entretanto, enxotou-a dali, com recomendações para não falar nada a ninguém, especialmente a repórteres. Mesmo assim Lola contou como foram as últimas 48 horas de Saponga, como o conhecera e como vivera com ele.

"Faz um ano e meio que nós nos conhecemos; tudo começou quando eu fui visitar um antigo amigo meu, na Casa de Detenção. Esse meu conhecido era amigo de Saponga e nós travamos conhecimento dentro dos muros da cadeia. Nem quatro meses depois, o Saponga fugiu e foi me procurar e a gente então começou a viver juntos. Nem sempre e nem todo o dia ele me procurava, mas tinha vezes que ele passava semanas inteiras comigo. E se na rua ele era valente, era perigoso, como dizem os policiais, dentro de casa era um homem compreensivo e bom, que nunca me deu um tapa sequer. Apesar dele fazer muitas coisas, quase sempre estava sem dinheiro. Eu mesmo muitas vezes cheguei a emprestar algum para ele. E com relação aos casos dele com a Polícia, vou dizer o que ele me contou, especialmente no caso do Davi Paré. Antes disso, ele matou aqueles dois e desapareceu uma porção de tempo.

Quando voltou, me contou como tinha sido a história com o Paré, bem diferente daquilo que a Polícia e os jornais contaram. Segundo o Carlos, a história foi assim: "Eram uma 23 horas mais ou menos e êle estava na casa de uma amiga, a Nair, lá em Americanópolis, quando Paré, um outro agente e um "dedo-duro" chegaram para prende-lo. Bateram na porta, mandaram que êle saísse e por um vão da janela êle conseguiu ver que era o Paré quem estava chamando, enquanto que o "dedo-duro" e o outro investigador ficavam dentro da perua, todos de arma na mão.

"Sai daí, Saponga!Sai para morrer". — Lola tem medo da Polícia e acredita que irão prendê-lo pelo que está falando. "Aí — Lola continua — o Saponga disse que não saía, que não era besta. Mas enquanto falava isso, ia ganhando o parapeito de uma das janelas do fundo e saindo por detrás da casa, acercou-se do Paré e chamou êle pelo nome: Paré!Quando o homem se virou, ambos atiraram. Pelo menos foi isso que êle me contou. Nem sei se é verdade ou não. O que eu sei, é que estou com muito medo de entrar em cana, isso sim. ". HOJE, O ENTERROOntem um irmão de Saponga veio para São Paulo tratar da liberação do corpo. Chegou ao IML antes das 17 horas, o corpo não pôde ser liberado embora desde cedo já tivesse sido autopsiado. Pretendem levá-lo para Sorocaba, onde será velado na capela do cemiterio municipal. Sua mãe o verá apenas por 5 minutos. Vicente quer evitar um contato prolongado de mãe e filho, "porque senão ela também acaba morrendo e aí, a desgraça é muito maior". Texto: Pedro Scucuglia.

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Direto ao ano:





Cassius Marcellus Clay Jr.
1942-2016
Cássius Clay é nome de escravo, não o escolhi, não o quero. Sou Muhammad Ali, um nome livre.

Fonte: ERRO!

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Dúvidas, críticas ou sugestões: Adriano César Koboyama