*“Viagem à provincia de São Paulo e Resumo das viagens ao Brasil, provincia Cisplatina e missões do Paraguai”. Auguste de Saint-Hilaire (1779-1853) 1940, segunda-feira
leiro de Malta, NICOLÁU DE VILLEGAGNON, fundaram um estabelecimento na baía do Rio de Janeiro (15). Em vez de oprimir os indígenas, VILLEGAGNON tratava-os com muita justiça e generosidade (16). Os belicosos tamoios, que ocupavam toda a região situada entre Rio de Janeiro e São Vicente, tornaram-se seus poderosos e úteis aliados. Os portugueses, a princípio, deram pouca atenção aos empreendimentos dêsses perigosos vizinhos; mas NÓBREGA abriu-lhes, enfim, os olhos, e a côrte de Lisboa ordenou ao governador MEM DE SÁ que expulsasse os recém-vindos. Os colonos portugueses queriam contemporizar; NÓBREGA repeliu com fervor seus tímidos conselhos; a guerra foi resolvida. Os jesuítas convenceram os habitantes de São Vicente a tomar parte na mesma e levaram víveres a MEM DE SÁ, bem como canoas e um grande número de brancos, de mamalucos e de indígenas, todos acostumados a guerrear contra os tupinambás e tamoios, amigos dos franceses. Êstes foram derrotados, suas fortificações foram arrasadas, e a tropa portuguesa, levando os canhões do inimigo, retirou-se para Santos, onde o incansável NÓBREGA havia preparado socorros para os feridos e víveres para todos. MEM DE SÁ acompanhou sua tropa até Santos. Os jesuítas aproveitaram-se de sua presença ali, para se livrarem duma perigosa vizinhança. Expuseram ao governador que a vila de Santo André, construída no limite das florestas e das montanhas, achava-se constantemente exposta aos ataques dos selvagens, ao passo que São Paulo, situada em ponto alto, numa região descoberta, pouco tinha a temer de suas agressões. MEM DE SÁ ordenou a destruição de Santo André. São Paulo foi elevada a vila no ano de 1560, sob o nome de São Paulo de Piratininga, e os padres da companhia de Jesus para ali transferiram o colégio que haviam fundado no litoral (17). Uma tempestade se formava, entretanto, (15) O verídico e judicioso LÉRY, que fazia parte dessa expedição, cujos pormenores descreveu, denomina a região a que aportaram os seus patrícios — “1. ª terre du Brésil” também chamada “Amérique”; mas dois autores muito menos recomendáveis deram à região o nome de France Antarctique. Relatando essa particularidade, SOUTHEY insurge-se com azedume contra a arrogância comum aos franceses (Hist. I, 273), olvidado de que, antes mesmo de terem fundado o menor estabelecimento na costa da América setentrional, seus compatriotas tinham já consagrado o nome de Virgínia (ROBERTSON, Virginie, 25), ridiculamente emprestado de uma qualidade de que se orgulhava sua rainha. Os crimes e os defeitos de que uma nação acusa outra nação, podem, quase sempre, ser encontrados nos anais da acusadora. Em vez de reciprocamente se censurarem, tôdas elas deveriam trabalhar para evitar e corrigir as faltas de que são, igualmente, culpadas. (16) MEM DE SÁ, Litt. in PIZARRO, Mem. hist. I, 14. (17) Os erros do padre CHARLEVOIX sôbre os primórdios da vila de São Paulo (Hist. do Paraguai, I, 307-9), erros repetidos por uma infinidade de compiladores, foram devidamente refutados por FREI GASPAR DA MADRE DE DEUS (Mem. S. Vicente, 119 e segs. ); sendo, assim, inútil repisar o assunto. Todavia, devo observar que[p. 27] sôbre a capitania de São Vicente. Os tamoios tinham sido derrotados com os seus aliados, os franceses, mas não haviam sido exterminados. Exasperado com as injustiças dos portugueses e com suas caçadas aos indígenas, para escravizá-lo, resolveram vingar-se, atacando a colônia de MARTIM AFONSO. Uns, depois de escalar as montanhas, espalharam-se pela planície de Piratininga; outros, com o auxílio de suas compridas canoas, que podiam transportar até 150 guerreiros, fizeram irrupções no litoral, devastando as plantações dos colonos cujas casas destruíram e cujos escravos arrebataram. Tais sucessos atraíram para seu lado tribus, que, a princípio, tinham permanecido neutras e um considerável corpo de indígenas aliados atacou a vila de São Paulo. O terror apoderou-se logo de todos os habitantes; mas ANCHIETA retemperou-lhes a coragem, com suas prédicas. Transformado por alguns instantes em homem de guerra, êle, que sempre fôra homem de paz (18), adotou sábias medidas para a defesa da vila, pôs TEBYRIÇÁ à frente dos indígenas fiéis, e os atacantes foram vigorosamente rechaçados. A vila de São Paulo mal tinha escapado dêsse perigo, quando perdeu seu mais generoso defensor, MARTIM AFONSO TEBYRIÇÁ. Conquanto oriundo de uma raça justamente censurada pela extrema inconstância, êsse nobre chefe nunca cessara de ser o protetor e amigo dos portugueses, sobretudo dos padres jesuítas. Depois de recomendar à sua mulher e seus filhos que jamais se afastassem dos princípios da justiça a êles ensinados, morreu com sentimentos cristãos, sendo sido chorado amargamente, por tôda a colônia (19), que ainda aguardava novos reforços seus contra os tamoios. Êstes eram muito belicosos e alimentavam implacável ódio contra os portugueses (20), para que renunciassem a seus projetos de vingança pela derrota sofrida diante de São Paulo. Ligaram-se, assim, a um grande número de outros indígenas, e a colônia de São Vicente ficaria arrasada, se não fôsse a dedicação heróica de NÓBREGA e de ANCHIETA. Êsses homens generosos resolveram procurar os tamoioso último dêsses escritores, levado pelo seu patriotismo, exagerou algumas vêzes suas apreciações (como CHARLEVOIX as suas) quando vê os paulistas, impiedosos perseguidores e matadores dos indígenas — "Êsses vassalos zelosos, em vez de se oporem à conversão do gentio, foram o instrumento escolhido pelo próprio Deus para fazer ingressar no seio da Igreja a maior parte dêsses milhões de almas que nossos paulistas obrigaram a abandonar seus costumes bárbaros". O historiador da viagem do almirante ANSON é ainda mais inexato do que CHARLEVOIX, quando fala da origem da vila de São Paulo, assim se exprimindo: — "Diz-se que os paulistas são descendentes dos portugueses que deixaram o norte do Brasil, quando os holandeses invadiram essa parte do país" (RICHARD WALTER, Voyage round the World, 52). (18) PEREIRA DA SILVA, Plutarco Bras. I, 44. (19) JOSÉ DE ANCHIETA, Lit. in Rev. trim. II, 544. VASCONCELOS, Cron. I, II, 260. (20) HANS STADT, Hist. Amer. in TERNAUX-COMPANS, Voyages, Relations. [p. 28] DA MADRE DE DEUS e a trinta e dois por MANOEL AYRES DO CAZAL, não se podendo acoimar nem um, nem outro de exagêro ou parcialidade (43). Os padres da companhia de Jesús, vendo que na região onde estavam estabelecidos os seus neófitos, não podiam os mesmos escapar a seus bárbaros inimigos, reuniram os homens, as mulheres e as crianças que restavam de seus primeiros redutos, decidindo-os, embora a muito custo, a se expatriarem sempre conduzindo-os para a região entre o Paraná e o Uruguai, no ponto em que êsses dois grandes rios se aproximam um do outro (44). Alí, sem dúvida, os neófitos estariam poderosamente protegidos pela natureza, contra as investidas dos paulistas. Os jesuítas, porém, que conheciam a intrepidez dêstes e a sua paixão pela caça aos indígenas, quiseram se prevenir ainda com outros meios de proteção. Seu provincial enviou DIAZ TANO a Roma e RUIZ DE MONTOYA a Madrí. Cada um dêsses religiosos, uma vez na Europa, pintou com as côres mais sombrias a dolorosa situação dos indígenas convertidos, conseguindo, sem grandes esforços, inspirar compaixão aos que os escutavam. O rei da Espanha declarou os indígenas dos redutos vassalos imediatos da coroa; proibiu que fossem submetidos a certos trabalhos, autorizou os jesuítas a lhes fornecer armas de fogo e renovou os decretos já expedidos a favor dos mesmos, dando liberdade aos que tinham sido reduzidos à escravidão. DIAZ TANO foi tão bem acolhido em Roma, como MONTOYA o foi em Madrí. O papa URBANO VIII cumulou-o de favores, bem como a seus caros protegidos e aos seus companheiros de catequese; e, cheio de indignação, expediu um breve pelo qual ameaçava de castigos e cóleras divinas os ímpios que atentassem contra a liberdade dos indígenas, quer dos convertidos, quer dos infiéis. O padre TANO, portador dêsse breve papal, embarcou em Lisboa com destino a Buenos Aires; mas ventos contrários obrigaram-no a fazer escala pelo Rio de Janeiro. Apenas chegado ao Rio, o breve do(43) Posso invocar aquí o testemunho de CAZAL (Corografia, I, 223), e com mais razão o de GASPAR DA MADRE DE DEUS (Mem. 120), mas não citarei, por muito exagerada, a carta de D. PEDRO ESTEVAM D´AVILA, governador do Rio da Prata, escrita ao rei da Espanha, datada de 12 de Outubro de 1637, na qual o missivista diz, depois de ter feito a necessária verificação, que os paulistas haviam arrebatado, dos redutos, mais de 60. 000 indivíduos, de 1628 a 1630. (44) CHARLEVOIX (Hist. Paraguai, I, 367-445); SOUTHEY, Hist. II, 309-315); WARDEN (Brésil, I, 419). GASPAR DA MADRE DE DEUS (Mem. S. Vicente, 127) reconhece que a narrativa de CHARLEVOIX sôbre as incursões dos paulistas no Paraguai é exata, muito mais exata do que certos relatos portugueses; mas desculpa êsses homens aventureiros, pelo encorajamento que lhes advinha do próprio govêrno. É verdade que, dí-lo D. GASPAR, os próprios jesuítas tiranizaram indígenas no Maranhão e no Pará, provando isso que os paulistas não foram os únicos culpados; mas isso não prova, absolutamente, que êles não tenham sido culpados das selvagerias que cometiam contra os pobres indígenas. Gaspar da Madre de Deus reconhece que a narrativa de Charlevoix sobre as incursões paulistas no Paraguai é exata, muito mais exata do que certos relatos portugueses. [p. 40] sumo pontífice foi lido, alí, na igreja dos jesuítas. Não se cogitara de que vários habitantes do Rio de Janeiro mantinham íntimas relações com a capitania de São Vicente, os quais amotinaram a populaça, que invadiu o colégio dos padres da companhia de Jesús, arrombando as portas dêsse estabelecimento. TANO e seus companheiros trazidos da Espanha seriam massacrados, se não fôsse a oportuna e prudente intervenção do governador SALVADOR CORREIA DE SÁ E BENEVIDES, que convocou uma reunião para o dia seguinte, afim de ser discutido o assunto com mais calma. A reunião realizou-se, de acôrdo com os conselhos de SALVADOR CORREIA, recorreu-se do breve do papa ao próprio papa. O padre DIAZ TANO e seus companheiros abandonaram, imediatamente, o Rio de Janeiro, mas uma borrasca mais terrível os aguardava em Santos. Apenas o vigário geral publicou, alí, o breve papal, sediciosos contra êle avançaram, arrojaram-no por terra e puseram-lhe a ponta de uma espada à garganta, ameaçando-o de morte, senão revogasse a excomunhão lançada contra um deles. O vigário manteve-se inflexível e sua coragem desarmou os turbulentos. O superior dos jesuítas, ouvindo o barulho feito pelos amotinados, diante deles se apresentou, revestido com os ornamentos sacerdotais, e, empunhando o cibório, fez-lhes um patético sermão. Alguns se prosternaram; outros se conservaram de pé, declarando que adoravam sinceramente o corpo de Jesús Cristo, mas que não poderiam sofrer a perda de seus escravos que constituiam a sua única riqueza. Um deles gritou do meio da multidão que se matasse o superior dos jesuítas, e não se pode avaliar a que excessos poderiam chegar êsses furiosos, se alguns religiosos de uma outra ordem não os persuadissem, com subtilezas, que o breve papal não tinha para êles nenhum valor, uma vez que recusassem cumprí-lo (45). Os habitantes de São Paulo sabiam que o breve do papa fora expedido contra êles especialmente; sua vingança não se fez esperar. Todo o povo paulista sublevou-se: tôdas as vilas da provincia foram concitadas a enviar delegados a uma assembléia geral, e, em virtude de deliberação por essa assembléia tomada, por unanimidade, a 13 de Julho de 1640, os jesuítas foram expulsos de todos os seus colégios (46). Sessenta anos antes, os paulistas não queriam outros pastores que não fôssem êsses religiosos. Enquanto êsses fatos ocorriam na América, uma revolução explodira em Lisboa. O duque de BRAGANÇA foi proclamado rei, sob o nome de D. JOÃO IV, readquirindo o povo português sua nacionalidade. (45) CHARLEVOIX, Hist. Paraguai I, 431. SOUTHEY, Hist. II, 321. (46) PEDRO TAQUES D´ALMEIDA PAIS LEME, Noticia da Expulsão dos Jesuítas, in Revist. Trim. 2. a. série, V, 17. ABREU E. LIMA, Synopsis, 97. [p. 41]A capitania de São Paulo perdeu, assim, uma grande parte de seuterritório; mas novas descobertas recompensaram-na dessa perda, imediatamente, e com apreciáveis vantagens. Desde o tempo em que os paulistas tinham começado a percorrer os desertos, alguns dos seus bandos, passando de um rio para outro, atravessando infinidade de ca- tadupas, passando por pantanais insalubres, guerreando constantementehordas de selvagens, alcançaram o rio Paraguai e as vastas regiões regadas pelos seus afluentes. No ano de 1718, António Pires de Campos, o mais terrível dos exterminadores de indígenas, subiu o rio Cuiabá, para conquistar a valorosa tribu dos curhipós. Estava êle por demais preocupado com a apreensão de escravos, para se interessar por qualqueroutra cousa. A honra de descobrir os tesouros dessas terras que percorria estava reservada a Pascoal Moreira Cabral, outro destemido desbravador dos desertos, que seguia em suas pegadas. Pascoal, subindo o rio Cuxipomirim, viu grãos de ouro brilhar em meio das areias das margens desse rio. Deixando uma parte de seus companheiros no lugaronde fizera esse descobrimento e, considerando-o como o prelúdio deoutras descobertas, prosseguiu sua marcha. Não se enganara. Poucodepois, com efeito, encontrou alguns indígenas que traziam palhetas deouro como ornamento. Fez pesquisas e, dentro em pouco tempo, con- seguiu juntar considerável quantidade desse metal. Voltou, então, aolugar onde deixara seus companheiros, os quais não foram tão felizes, embora estivessem todos contentes. Esses homens, cercados de imensasriquezas, tomaram a resolução de só deixar a região, depois que a mes- ma estivesse esgotada. Construíram, então, cabanas nas margens dosrios e semearam o resto de grãos de cereais que ainda possuíam. Nãotinham transportado ferramentas — serviam-se das mãos para cavar aterra. A ambição deu-lhes força e coragem. Um outro bando, que percorria também os desertos, foi levado, poracaso, ao local em que acampara o primeiro. Era constituído tambémpor paulistas, que se reuniram a Pascoal e seus companheiros, perfazendo, juntos, um grupo de vinte e duas pessoas. Depois de reunidos, resolveram enviar um emissário a São Paulo, para avisar o governadordo que ocorria e receber ordens. A título provisório, elegeram. Pascoal por chefe, concedendo-lhe autoridade quasi absoluta e prometendo-lhe inteira obediência. Pascoal era inteiramente analfabeto, mas não era homem vulgar; aliava a um grande valor grande prudência, muita ati- vidade, inteligência notável e, o que era raro entre os paulistas desse tempo, possuía um coração compassivo. Tinha a habilidade de derimir os dissídios que surgiam a miúde entre seus companheiros. Com esses predicados, soube fazer-se querido dos mesmos guiando-os com grande prudência, desde o ano de 1719 até o de 1723, época em que foi substituído por dois magistrados enviados por D. Rodrigo César de Menezes, governador de São Paulo. prudência, desde o ano de 1719 até o de 1723, época em que foi substituído por dois magistrados enviados por D. RODRIGO CÉSAR DE MENEZES, governador de São Paulo. Logo que em São Paulo se soube das descobertas de PASCOAL e de seus companheiros nas vizinhanças de Cuiabá, jovens e velhos paulistas partiram para região que tantas riquezas prometia. Divididos em diversos bandos, embarcaram pelo Tieté e outros rios, pensando, ùnicamente, no fim da viagem. A ambição de tal forma os cegava, que não se preocupavam com o que lhes seria necessário, nem com os perigos que iam afrontar, pelo que não tomaram, nesse sentido, nenhuma das mais indispensáveis precauções. Foram atacados pelas febres em meio dos pantanais, e não possuíam medicamentos; devendo durar alguns meses sua travessia pelos desertos, seus mantimentos eram escassos. Não levaram apetrechos para a pesca, nem o número suficiente de armas de fogo para a caça e para a própria defesa, de sorte que viajaram sempre premidos pela fome, e foram, constantemente, importunados pelas hordas dos indígenas inimigos. Faltavam-lhes todos os recursos para tão arrojada emprêsa; e a fome, as doenças e as horríveis fadigas fizeram perecer grande número deles, sucumbindo outros nas lutas com os selvagens. Só chegou a Cuiabá um minguado número dêsses infelizes, depauperados, macilentos, mal podendo tomar parte nos trabalhos dos que os haviam precedido. Tão funesto exemplo não deteve as emigrações. A ambição deixa-se dominar pelo desânimo mais dificilmente do que as outras paixões que agitam o coração humano. Durante muitos anos, homens atormentados pelo desejo de adquirir riquezas partiram para Cuiabá, não sòmente de São Paulo, mas mesmo de Minas e do Rio de Janeiro. Os indígenas guaicurús, hábeis cavaleiros e os paiaguás, exímios condutores de canoas, atacavam os emigrantes com furor, matando um grande número deles; de um bando de 300 homens saídos de São Paulo em 1725, só escaparam 2 brancos e um negro!Êsses desastres eram geralmente conhecidos; mas o ouro, dizia-se, era tão abundante em Cuiabá, que dêsse metal se serviam os caçadores, em substituição do chumbo. Assim sendo, porque não se experimentar a sorte, procurando alcançar uma terra que oferecia a seus habitantes tesouros tão fáceis de ser adquiridos? Com a esperança de adquirir riquezas, todos se arriscavam aos azares da sorte. Enquanto isso ocorria, os companheiros de PASCHOAL continuavam em suas buscas. No ano de 1722, o de nome JOSÉ SÚTIL, ao fazer uma plantação nas margens do rio Cuiabá, teve fome e mandou dois indígenas, seus servidores (camaradas), procurar mel nos troncos [“Viagem à provincia de São Paulo e Resumo das viagens ao Brasil, provincia Cisplatina e missões do Paraguai”. Auguste de Saint-Hilaire (1779-1853). Páginas 52 e 53] das árvores. Os selvagens voltaram à tarde, não tendo encontrado mel, mas trouxeram a seu senhor grãos de ouro envolvidos em fôlhas, encontrados à flor da terra e que orçavam em cêrca de 120 oitavas. No dia seguinte, de madrugada, MIGUEL SÚTIL e seu compadre JOÃO FRANCISCO, conhecido pela alcunha de Barbudo, dirigiram-se, acompanhados de todos os seus escravos, para o local onde tinha sido feita a preciosa descoberta. SÚTIL voltou ao acampamento com meia arroba de ouro, e Barbudo com mais de 400 oitavas. Tôda a colônia precipitou-se para o local onde tamanha riqueza se encontrava, e, sem necessidade de fazer profundas excavações, foram retiradas da terra, no espaço de dois meses, 400 arrobas do valioso metal. No local dêsse descobrimento é que, atualmente, está situada a cidade de Cuiabá. No decorrer do ano em que MIGUEL SÚTIL fez essa brilhante descoberta, chegou a São Paulo o governador RODRIGO CESAR DE MENEZES, a quem já me referi. Seu primeiro cuidado foi providenciar no sentido de fazer com que fôsse pago ao reino o imposto do quinto sôbre o ouro extraído das minas de Cuiabá. Quando os postugueses se ocupavam do Brasil, era, o mais das vêzes, para arrancar-lhe as riquezas. Dois homens poderosos foram escolhidos por MENEZES para agentes do fisco real na recém-fundada colônia. Um dêles — LOURENÇO LEME — para alí partiu com o título de procurador do imposto do quinto; o outro — JOÃO LEME —, irmão de LOURENÇO, com o mestre de campo das minas de Cuiabá. MENEZES não era desprovido de mérito, mas não conhecia o país, por isso julgou que não podia ser melhor representado do que por dois personagens aos quais os paulistas, patrícios dos mesmos, prodigalizam o máximo respeito. Ignorava que ùnicamente o temor motivava as manifestações de deferência de que eram alvo os LEMES, o que êstes só faziam uso de suas riquezas para violar impunemente as leis e oprimir os fracos. Quando os dois irmãos chegaram a Cuiabá vendo-se longe de tôda a vigilância, não tiveram mais limites a sua insolência e audácia. Entregaram-se a todos os caprichos, cometeram os mais absurdos atos de violência, e pretenderam, mesmo, expulsar das minas todos aqueles que não fôssem paulistas e seus apaniguados. O capelão da nascente colônia opôs-se, corajosamente, contra semelhante injustiça; ordenaram, então, os LEME, que fôsse o mesmo arcabuzado. Um colono de nome PEDRO LEITÃO teve e desdita de lhes excitar a inveja, razão pela qual fizeram-no maltratar, da maneira mais bárbara, ao pé do altar, na ocasião em que assistia o ofício divino da missa. MENEZES soube, afinal, do que ocorria em Cuiabá, e, querendo livrar a região dos desmandos dos dois monstros que para alí enviara como representantes de sua autoridade e cuja tirania tornara-se intolerável, ordenou a um oficial superior que os prendessem remetendo-os para São Paulo. Os dois [p. 54] trabalho. Constitui um verdadeiro supplício viajar pelo Brasil, com coleções, na época das chuvas. Além de Casa Branca, a região é sempre ondulada, apresentando, ainda, uma alternativa de capões de mato e de campos, uns simplesmente erbosos, os outros semeados de árvores raquíticas, de fraca vegetação. E’ de se notar que essas árvores pertencem, quasi tôdas, às espécies que crescem esparsas no meio das pastagens, nas regiões bem mais próximas da linha equinoxial — o sul de Goiaz e o noroeste de Minas Gerais. A quatro léguas de Casa Branca, fiz alto na propriedade Olhos d’Água (fontes), onde encontrei, como abrigo, apenas, um rancho meio descoberto. Ainda não tinha caminhado légua e meia além de Olhos d’Água, quando cheguei ao pequeno rio Jaguarí-mirim, que atravessa a estrada e que passei a vau. Êsse rio separa a paróquia de Casa Branca da de Mogí Guaçú, tendo suas nascentes na província de Minas, lançando-se no Mogí, um dos afluentes do Paraná. Seu nome, tirado da língua geral (245), significa — pequeno rio dos jaguares. O rancho da fazenda de Itapeva, situado à margem de um regato, (ribeirão de Itapeva), não me forneceu melhor abrigo que o de Olhos d’Agua. A denominação Itapeva, dada também a uma pequena vila da província de São Paulo, sôbre a qual falarei mais para diante, vem de duas palavras da língua geral — ita e peva —, que significam pedra chata (246). As terras dessa região são muito férteis e apropriadas, principalmente, ao cultivo da cana de açúcar. As suas pastagens são também excelentes, sendo nas mesmas criado muito gado vacum, que é vendido em São Paulo e no Rio de Janeiro. Na região, como em tôdas as regiões do interior, os fazendeiros possuem um grande número de cães. Na Alemanha e ao norte da França, êsses animais são tratados com muita doçura; o mesmo não ocorre no Brasil. Acontece, frequentemente, que se lhes dá apenas alimento, mas nenhuma carícia lhes é feita, ao contrário, são batidos, constantemente, sem nenhum motivo. Cercado de escravos, o brasileiro habitua-se a não ver senão escravos entre os seres sôbre os quais tem superioridade, seja pela fôrça, seja(245) A língua geral, dialéto do guaraní, era falada pelos indígenas da costa e muito usada pelos antigos paulistas. Os jesuítas a estudáram, compondo uma gramática e um dicionário da mesma (V. minha Voyage dans le District des Diamants et sur le littoral du Brésil). (246) Não se escreve, como acreditava LUIZ D’ALINCOURT, Itapeba, que significaria cascata chata. No local não há cascata e uma cascata nunca é chata. [p. 137] MÜLLER (336), as 9 paróquias e a sucursal contavam um total de 4. 168 casas. ESCHWEGE, acreditando que o número que indica para todo o distrito é o da cidade de São Paulo tomado isoladamente, sustenta que há na cidade 6 pessoas para cada casa; mas é claro que não se pode colher nenhum resultado seguro com elementos tão heterogêneos, confundindo os algarismos correspondentes à população urbana com os correspondentes à população das paróquias rurais, afastadas da cidade as distâncias que variam de uma a 7 léguas (337). Funcionários de todas as ordens, operários de diversas categorias, um grande número de mercadores, proprietários de casas urbanas, proprietários de bens rurais que, ao contrário dos de Minas Gerais, não moram em suas fazendas, compõem a população da cidade de São Paulo, onde se contam também várias pessoas que vivem da venda de legumes e frutas cultivadas em suas próprias chácaras. A cidade de São Paulo é situada, como já disse, a 23° 33´ 10´´ de latitude sul, sobre uma iminência que termina a planície elevada que se percorre quando se vem das montanhas do Jaraguá e que à mesma planície só está ligada por um dos lados (338). Abaixo se estendem vastos terrenos planos e pantanosos (várzeas); é muito irregular em seus contornos, que têm forma um tanto alongada, e ocupa o delta formado pelos ribeirões Hinhangabahú e Tamandatahy (339); os quais, (336) Ensaio Estat. quadro 5, cont. (337) Não foi ESCHWEGE o único autor que tomou a população de todo o termo de São Paulo, pela desta cidade em particular. O mesmo equívoco foi cometido por outros, do que resulta uma confusão quasi inextrincável. KIDDER censura (Sket, I, 350) a JOHN MAWE por ter exagerado o número de habitantes de São Paulo; o erro em que este último incorreu consistiu no fato de indicar como número da aludida população o correspondente ao dos habitantes de todo o termo. Os autores do indispensável Dicionário Geográfico do Brasil não cometeram semelhante equívoco, quando indicaram (vol. II, 612) o número 22. 032, para o ano de 1845, porquanto declaram expressamente que esse número designa a população das diversas paróquias do distrito da cidade de São Paulo, o que é exato, pois o número concorda, levada em linha de conta uma diferença de sete anos, com o apontado por DANIEL PEDRO MÜLLER para o ano de 1839. Como, entretanto, explicar o número 40. 000 que os autores do Dicionário, uma página mais abaixo, atribuem à mesma população? O número 22. 032 aplicar-se-ia, em verdade, como o indicado por PEDRO MÜLLER, a 9 paróquias e uma sucursal, e o número 40. 000, sempre de acordo com os nossos autores, aplica-se a 14 paróquias, mas o distrito não podia, na mesma época, compor-se de 9 e de 14 paróquias, e, ademais, uma possível anexação de 5 paróquias às 9 preexistentes não poderia, ao que me parece, produzir na população uma diferença tão grande, quase que a duplicando!(338) FRIED. VARNHAGEM in ESCHW. Journ. von Bras. II, 235. (339) Creio não dever, como SPIX e MARTIUS, escrever Inhangabahy (Reise, I, 219), nem Anhangabaú, com D. P. MÜLLER (Ensaio, 35). Não se deve, também, como este último faz, escrever Tamanduatehy; essa ortografia, contudo, leva-nos à verdadeira etimologia de Tamandatahy, palavra que, ao que penso, vem dos vocábulo da língua geral — tamanduá, eté e ig — rio do verdadeiro tamanduá. [p. 172] que serpenteiam, lentamente, através extensos mangues. Depois de um percurso de cerca de 3 léguas, chegava-se a uma vila onde existia um posto alfandegário e que tem o mesmo nome dado ao rio e à montanha, vila ou arraial do Cubatão. Desse ponto, galgava-se a montanha sobre o lombo de muares; ali, também, descarregavam-se os animais de carga vindos de São Paulo, recolhendo-se em depósitos as mercadorias pelos mesmos trazidas da referida cidade, a fim de embarcá-las para Santos, quando a maré tornava-se favorável. Ora, esse meio de transporte, além de muito dispendioso, ocasionava demoras prejudiciais ao comércio. A fim de dar um remédio a tão graves inconvenientes, foi aberta uma bela estrada, perfeitamente plana, que se prolonga até Santos, por uma espécie de cais construído na baía, com arcos de distância em distância. Muito perto da vila de Cubatão, começa-se a subir a serra. O caminho que leva ao seu cume é calçado solidamente, mas estreito, e, embora formando um zigue-zague de 180 ângulos, é tão abrupto, que unicamente os pedestres, os cavalos e os muares podem percorrê-lo. O referido caminho foi cortado numa espécie de parapeito que a montanha forma, com regatos que, de ambos os lados, precipitam-se em despenhadeiros de grande profundidade. Nalguns lugares, olhando-se para cima, os rochedos para a frente projetados, sobre os quais a estrada faz mil voltas, semelham uma fortaleza ameaçadora; se se olha para o lado, a vista se perde num espantoso abismo. A altura da serra do Cubatão é calculada em 2. 320 pés ingleses, 706 metros; gasta-se uma hora a uma hora e meia para atingir o planalto. Nesse ponto tudo se transforma; o solo torna-se plano, e parece, segundo Kidder, com as pradarias esparsas em meio das florestas de carvalhos existentes na Amé-(396) Mawe elogia, em termos pomposos, a construção dessa estrada, Travels, 63. Kidder à mesma se refere elogiosamente, Sket. I, 212; Eschwege, porém, juiz mais competente, não partilha a opinião desses dois autores, lamentando que o dinheiro dispendido com a abertura desse caminho não tenha sido empregado na construção de uma estrada praticável por carroças e outros veículos de rodas, Bras. II, 71. De alguns anos para cá foi iniciada a abertura de uma nova estrada, que deve apresentar essa vantagem, estrada já em parte transitável e que recebeu o nome de Caminho da Maioridade, em honra da proclamação antecipada da maioridade do imperador D. Pedro II. Ver os Relatórios dos Presidentes da Província, correspondentes aos anos que vão de 1844 a 1847. Foi também projetada uma estrada ligando, diretamente, Santos e Mogi das Cruzes, vila esta última, de que falarei em outra narrativa de minhas viagens, e que está situada a cerca de 10 léguas noroeste de São Paulo. Ver os Relatórios acima citados. Qualquer que seja o futuro dessas estradas, a que, ainda em 1847, ligava São Paulo a Santos era horrivelmente mal conservada, a se acreditar no que disse a senhora Ida Pfeiffer — cheia de buracos, de fossos e de poças de lama, em que os muares se enterravam, muitas vezes, até o meio das pernas, Frauenfahrt, I, 115. [p. 211]rica do Norte". — "O local denominado Borda do Campo (limite da região descoberta), já tem", diz ESCHWEGE, "um aspeto mais risonho. (397). Dêsse ponto ao Rio das Pedras, o solo abaixa-se um pouco. ; mas, Ponte Alta, que vem em seguida, parece ser o ponto mais elevado do planalto". Vários cursos de água são atravessados (398) e passa-se pela planície do Ipiranga, onde o imperador D. PEDRO I proclamou a independência do Brasil, e, depois de uma caminhada de cêrca de 8 léguas, desde o comêço do planalto, chega-se a São Paulo (399). (Notas de rodapé)(397) ESCHWEGE, que passou por êsse local no fim do ano de 1819, considerou-o uma paróquia (Bras. II, 71); entretanto, ainda não era paróquia em 1839, e, provavelmente, ainda não o seja. O sábio alemão confundiu, certamente, Borda do Campo com uma paróquia muito próxima, do lado do oeste — a de São Bernardo, dependente do distrito de São Paulo, e situada no mesmo ponto em que existia a antiga vila de Santo André. (398) "Depois de um percurso de uma légua a partir do Rio das Pedras", diz FR. VARNAGHEN, "chega-se ao rio Pequeno, e, ½ légua adiante, encontra-se o rio Grande. Êsses dois rios, em pouco reunidos, fórmam o rio dos Pinheiros, que deságua no Tietê, a duas léguas de São Paulo, do lado do oeste. Os rios Pequeno e Grande comportam a navegação de pequenos barcos, o rio Pinheiros compórta a de barcos maiores, e como o Tietê é também navegável nas vizinhanças da cidade e o Tamandatahy, afluente dêste último, permite o tráfego, é claro que se pode ir, por água, do rio Pequeno ao rio Grande, e dêste à capital da província. O trajecto por terra é, em verdade, muito mais curto; mas já se tem servido da via fluvial para o trasporte de objetos de grande pêso, tais como canhões e sinos (Beobachtungen, in ESCHWEGE, Journal, II, 245)". Falando dos regatos encontrados no planalto, depois de galgada a serra, MAWE pretende que "todos êles correm do lado sudoeste, a enorme distância das respectivas nascentes, e que, reunidos, formam o grande rio Corrientes, que se lança no La Plata. Travels, 63". A passagem de FRIEDERICH VARNAGHEN, já por mim citada acima, refuta satisfatoriamente tôdas essas asserções. Acrescentarei, apenas, que, se no Brasil pròpriamente dito existem alguns rios denominados Correntes ou Corrente, nenhum há com o nome de Corrientes. MAWE evidentemente, quis se referir ao Paraná, que deságua no La Plata, em cuja confluência está situada a cidade espanhola de Corrientes. (399) Padre FERNÃO CARDIM, Narrativa Epistolar, 100 — Padre SIMÃO DE VASCONCELOS, Crônica, I, 130 e II, 235. — LAET, Orb. Nov. 579. — GASPAR DA MADRE DE DEUS, Mem. S. Vicente, 96 e segs. — FRIED. VARNAGHEN, Beobach. in ESCHW. Jour, II, 242. — ESCH. Bras. II, 71, 79. — PIZ. Mem. Hist. VIII, 306. — DAN. PED. MÜLLER, Ensaio, 10, 68, quadros 12, 14, 15 e 17. — KIDD. Sket, 311, 214 e 306. — MILL. e LOP. DE MOURA, Dic. II, 523. [p. 212] No dia 9 de dezembro de 1819, parti de São Paulo em demanda do Rio Grande do Sul, e comecei por visitar Itú, Porto Feliz e Sorocaba, cidades muito próximas umas das outras e pouco afastadas da capital da província. Foi para Itú que me dirigi em primeiro lugar. Existe, informaram-me, um caminho muito melhor do que o por mim percorrido, caminho frequentado quase que unicamente pelos tropeiros e de gado vacum; mas meu amigo João Roberto de Carvalho, que me fornecera um pequeno itinerário, tinha-me indicado a rota mais próxima de sua casa de campo [p. 213] Mais longe ainda, a região torna-se extremamente montanhosa, entrando-se em grandes matas virgens, com sucessivas capoeiras de permeio. Enfim, bem próximo de Itú, tornei a encontrar campos inteiramente semelhantes aos que por muito tempo percorri em Minas Gerais e Goiaz. Não me lembro, durante toda a duração de minhas viagens, de tão grandes diferenças na vegetação primitiva, num espaço de terra tão pouco considerável. JOAQUIM ROBERTO DE CARVALHO acolheu-me com a sua costumada gentileza; mas, quando o deixei, senti para logo os inconvenientes de uma espécie de uso que jamais pude compreender e que muitas vezes foi motivo para me lastimar. Quando pernoitava em casa de algum proprietário abastado e que o mesmo me convidava para jantar, eu tinha quase sempre a certeza de passar fome durante a jornada do dia seguinte; não é porque a comida não fosse abundante e saborosa, mas, antes de minha partida, cabia-me tomar, como almoço, café, apenas, acompanhado de pequenos biscoitos; ora, tal repasto não deixava de ser um pouco frugal para uma pessoa que ia permanecer cinco horas a cavalo e que só poderia tomar nova refeição à noite. Não acusarei, é certo, de miseráveis os meus hospedeiros, porquanto vi meus camaradas se regalarem com um copioso almoço, ao passo que, provavelmente, para dar-me uma honra que eu dispensaria, só me ofereciam o modesto café. Afim de evitar os inconvenientes de semelhante regime, eu acabava por ir, ocultamente, comer em companhia de meus homens, e, em seguida a essa refeição, o café tornava-se uma sobremesa muito agradável. Além de Água Branca, tive sempre diante dos olhos, à minha direita, as montanhas do Jaraguá, as quais davam variedade à paisagem, constituída, como já assinalei, por uma encantadora mescla de pastagens e de pequenos capões de mato, nos quais predominam as mirtáceas; são encontradas também em abundância — a terebentácea chamada aroeira (echinus terebinthifolius, RAD. ), a composta, tão comum, denominadaJudiaí e São Paulo (V. acima), e que mais não é do que o projeto de uma nova estrada. Como quer que seja, eis o itinerário que fiz e ao qual junto a avaliação aproximada das distâncias: [214] As matas ressoam com os pios vibrantes da araponga (casmarinchos nudicollis), ave que, nas províncias do Rio de Janeiro e do Espírito Santo, só vi nas florestas primitivas. Encontrei, durante o dia, um grande número de muares que, carregados de açúcar, iam de Itu para Santos; encontrei também um enorme rebanho de bois conduzidos da cidade de Curitiba para a capital do paísIsso serve para demonstrar que não me encontrava numa região deserta; entretanto, afora a vila de Pinheiros, não vi senão um pequeno número de casas, e não encontrei plantação. Foi a cerca de 1/4 de légua da casa de JOAQUIM ROBERTO que passei pela vila a que acabo de me referir, antiga aldeia formada outrora por certo número de indígenas da nação guaianaz (401). As casas dessa vila são esparsas e construídas inteiramente como as dos luso-brasileiros; mas, todas são muito pequenas e em mau estado de conservação, algumas foram até completamente abandonadas. A igreja é muito bonita na parte exterior, mas também muito pequena. Não é lícito acreditar que ainda até presentemente os habitantes da aldeia de Pinheiros sejam todos indivíduos de raça americana perfeitamente pura, porquanto essa aldeia existe há muitíssimos anos. Muito próxima de São Paulo, seus habitantes mantêm relações frequentes com os brancos e, sobretudo, com os mulatos e negros; assim, a maior parte das pessoas que vi, quer à porta das casas, quer na estrada, acusava evidentes traços do seu sangue mesclado. É sabido que, quando ANCHIETA lançou os primeiros fundamentos de São Paulo, vários chefes indígenas guaianazes, atraídos pelas virtudes desse homem venerável, reuniram-se, com suas tribos, à escassa população da vila em formação (402). Esses indígenas, entretanto, viam os portugueses, cada vez mais numerosos, apoderarem-se de suas terras, razão pela qual abandonaram São Paulo, onde permaneciam(401) Diz um escritor que a aldeia dos Pinheiros tem também o nome de Carapicuíba, e um pouco adiante que a mesma chama-se Carapimiba (MACH. DE OLIV. Not. Raciocin. in Revista Trimensal, seg. ser. I, 211, 212). Não é impossível que o segundo desses dois nomes seja devido a um erro de tipografia, porquanto encontra-se unicamente Carapicuíba nas Memórias do padre GASPAR DA MADRE DE DEUS. — JOSÉ AROUCHE DE TOLEDO RENDON escreve Carapicuibe, ortografia provavelmente mais acertada do que Carapicuíba, por ser mais consoante com a pronúncia indígena; afinal, eu próprio, como se verá para diante, detive-me numa fazenda denominada Carapicuva, situada a cerca de três léguas de Pinheiros. (402) GASPAR DA MADRE DE DEUS, Notícia dos Anos in Revist. Trim. II, 432. [p. 215] Encontrei, durante o dia, um grande número de muares que, carregados de açúcar, iam de Itú para Santos; encontrei também um enorme rabanho de bois conduzidos da cidade de Curitiba para a capital do país. Isso serve para demonstrar que não me encontrava numa região deserta; entretanto afora a vila de Pinheiros, não ví senão um pequeno número de casas, e não encontrei plantação. Foi a cerca de de 1/4 de légua da casa de Joaquim Roberto que passei pela vila a que acabo de me referir, antiga aldeia formada outrora por certo número de nativos de nação guaianaz. As casas dessa vila são esparsas e construídas inteiramente como as dos luso-brasileiros; mas, todas são muito pequenas e em mau estado de conservação, algumas foram até completamente abandonadas. A igreja é muito bonita na parte exterior, mas também é muito pequena. Não é lícito acreditar que ainda até presentemente os habitantes da aldeia de Pinheiros sejam todos indivíduos de raça americana perfeitamente pura, porquanto essa aldeia existe a muitíssimo anos. Muito próxima de São Paulo, seus habitantes mantem relações frequentes com os brancos e, sobretudo, com os mulatos e negros; assim, a maior parte das pessoas que vi, quer à porta das casas, quer na estrada, acusava evidentes traços do seu sangue mesclado. É sabido que, quando Anchieta lançou os primeiros fundamentos de São Paulo, vários chefes nativos guaianazes, atraídos pelas virtudes desse homem venerável, reuniram-se com suas tribos, à escassa população da vila em formação. Esses nativos, entretanto, viam os portugueses, cada vez mais numerosos, apossarem-se de suas terras, razão pela qual abandonaram São Paulo, onde permaneciam desde dilatado número de anos, indo fixar-se (1560) nas duas aldeias que formaram, uma sob a invocação de Nossa Senhora dos Pinheiros, a outra, sob a proteção do arcanjo São Miguel. Alguns anos mais tardeo delegado de Lopo de Sousa, donatário da capitania de São Vicente, concedeu aos habitantes de Pinheiros 6 léguas quadradas de terras, na região de Carapicuiva, e outro tanto, na região do Uruguai, aos de São Miguel (403). Gaspar da Madre de Deus, Mem S. Vicente Eis que de maneira se expressa o autor a quém devemos preciosas informações sobre os nativos de Queluz, de Itapeva e de Grapuava: "Quando da invasão dos conquistadores, os guaianazes não puderam acompanhar as tribos de sua nação que procuraram, em meio das florestas, um refúgio contra a escravidão e a morte. Os que permaneceram na região, fatigados por trinta anos de uma vida nômade e pelos longos sofrimentos que padeceram, cederam, afinal, ante a força das circunstâncias; déram a entender que queriam a paz e que submeter-se-iam completamente ao serviço dos brancos, sob a condição, porém, de que viveriam em comum entre si, mas separados daqueles. Foram atendidos. Sabemos, por tradição, que a aldeia dos Pinheiros. foi fundada em 1560. " (. ) Mas, na realidade, não poderia ser assim, pois que Pêro Lopes de Sousa desapareceu durante uma viagem que empreendeu em 1539, sem que houvesse qualquer notícia, desde então, a seu respeito (Gasp, da Madre de Deus, Mem. 162), e que a concessão ocorreu em 1580. [p. 215 e 216] região de cultura da cana de açúcar, a que já me referi em toda a sua extensão, alhures (419). Entre Piedade e o rancho de Braga, numa área de 6 léguas, a estrada, muitas vezes íngreme e de trânsito difícil, continua a atravessar um terreno montanhoso e coberto de matas. De distância a distância, percebia o Tietê, e depois deixava de vê-lo. Assim, depois de ter percorrido um certo trecho sem vê-lo, tornei a avistá-lo um pouco além da fazenda chamada Potribú (420). Nesse ponto o Tietê corre entre montanhas. As matas estendem-se até suas margens, e suas águas parecem de cor enegrecida. Durante algum tempo caminha-se paralelamente ao leito do rio, e ora percebem-se suas águas, ora estão estas ocultas pelas árvores; mas então, o ruído que fazem, correndo em meio dos rochedos, indica ao viajante que não está muito afastado das mesmas. A pouca distância da fazenda de Potribú, a estrada passa sobre um morro elevado, de onde se descortina uma vista muito extensa, morro que tem o mesmo nome da fazenda (morro de Potribú). O cume desse morro é árido, não se vendo nele senão ervas e subarbustos, embora todo o resto da região seja recoberto de matas virgens. Em localidades semelhantes é que são encontradas, de ordinário, as plantas de maior variedade, como tive muitos exemplos em Minas Gerais; entretanto, a chuva que caía não permitiu que eu me detivesse para fazer observações. O mau estado do tempo impediu-me de passar além da fazenda de Potribú, onde fui alojado na casa do engenho de açúcar. O meu hospedeiro afirmou-me que as terras de sua propriedade rendem, relativamente ao milho, 300 por 1. Acrescentou mais que a cana, pouco mais ou menos como para os lados de Campinas, produz durante três anos consecutivos; em seguida, deixa-se repousar o terreno. Ao fim de três ou quatro anos, as capoeiras já estão de bom tamanho para a derrubada, e são substituídas, novamente, por plantação de cana. Disse-me ainda que, no ano anterior, tinha conseguido, com o trabalho de sete negros, 1. 000 arrobas (14. 7469 quilos) de açúcar; mas que seus escravos em outra coisa não se ocupavam senão na cultura da cana e na fabricação dos respectivos produtos, porquanto, como já disse, calculava-se nessa época, que para produzir mil arrobas de açúcar eram necessários, pelo menos, dez negros, os quais, em verdade, tinham ainda tempo para cultivar bastante milho, feijão e arroz para o consumo da propriedade. (419) V. acima. (420) Potribú seria um vocábulo híbrido composto do termo português potro, e do indígena ibi, terra, equivalendo pois a terra ou região dos potros. [p. 223] Não querendo deixar Itu sem ver o salto à qual a cidade deve o nome, pus-me a caminho para visitá-lo, acompanhado do meu arrieiro José Mariano. Num círculo de cerca de uma légua até a margem do Tietê, que atravessa a estrada de Itú a Campinas, percorri uma região coberta de matas virgens antigamente, mas onde hoje só se vêem capoeiras. Vi no campo alguns engenhos de açúcar. Chegando ao Tietê, encontra-se uma ponte estreita, muito mal conservada e desprovida de parapeito. A referida ponte é seccionada por uma linha em duas partes desiguais; a parte mais vizinha da margem direita do rio tem cerca de 48 passos de extensão, a ilha tem 47 e a outra parte da ponte, 120. Nesse local o rio, divide-se, formando várias ilhas eriçadas, como o seu próprio leito, de rochas de pedras negras, que parecem sobrepostas com regularidades, formando uma espécie de muro de apoio. Maciços de árvores e de arbustos, de um efeito pitoresco, cobrem as ilhas e tufos de orquídeas, que crescem sobre as pedras, formam soberbos ramos de flores purpurinas. Em cada extremidade da ponte existe uma venda, tendo ao lado um pequeno rancho, e um pouco mais abaixo, à direita do rio, vê-se a capela de Nossa Senhora da Ponte, com a casa do vigário. Todo esse conjunto forma uma lindíssima paisagem. [“Viagem à província de São Paulo e Resumo das viagens ao Brasil, província Cisplatina e missões do Paraguai”. Auguste de Saint-Hilaire (1779-1853). Páginas 236 e 237] da queda de água só se encontram no Tietê pequenas espécies de peixes, abaixo, entretanto, são pescados peixes de grande tamanho, entre outros os dourados etc. Em Itú, tinha-se grande confiança na imagem de Nossa Senhora da Ponte; no tempo das sêcas, era a mesma carregada em procissão e transportada para a igreja paroquial da cidade, onde permanecia em exposição até que chovesse. Quando de minha viagem, essa imagem ali se encontrava, porque havia grande necessidade de água, e todas as tardes a população lhe dirigia preces. Era o segundo ano que a sêca se fazia sentir. De Itú transportei-me numa viagem de dois dias a Pôrto Feliz, distante cinco léguas. Quando parti, o capitão-mor de Itú fez-me acompanhar por seu sobrinho. Não deixei de ficar reconhecido; mas é verdade que tal gênero de polidez sempre me contrariava. Quando eu tinha um companheiro de viagem, era forçado a seguir mais depressa e, com receio de importuná-lo, passei, sem me deter, diante de plantas que lamento não ter podido observar e colher para meus estudos. Foi o que aconteceu, precisamente, nos campos mais próximos de Itú. A região que percorri além dessa cidade é acidentada e coberta de capoeiras. Depois de ter caminhado duas léguas, detive-me, para pernoitar, numa venda situada perto do ribeirão Caracatinga, o qual, como já disse, passa também por Itú. A venda em apreço pertencia a uma família pobre e numerosa; nas vizinhanças existiam várias casas esparsas, de ambos os lados do rio, mas todas elas, como a venda, apresentavam aspecto de penúria de seus moradores, que tinham a pele muito branca, cabelos castanhos ou mesmo loiros. Era fácil, entretanto, perceber que não se tratava de descendentes de portugueses de raça pura; a cabeça arredondada, as arcadas zigomáticas muito proeminentes, o nariz achatado indicavam, nesses indivíduos, a mescla de sangue indígena. Impressionou-me igualmente a semelhança de sua pronúncia com a dos verdadeiros indígenas. Como estes, não abriam quase a boca ao falar, elevavam pouco a voz e imprimiam nas palavras um som gutural. A forma pela qual pronunciavam o ch português era inteiramente indígena. Não era nem tch, nem mesmo ts, mas um som misto, molemente articulado. Encontrei também nas mulheres as maneiras infantis notadas entre as dos indígenas (454). Mais de meia dúzia dessas mulheres tinham-se reunido na venda onde me alojei, e, em vez de se retirar, como(454) V. mais abaixo, o capítulo intitulado Viagem de Itapitininga aos Campos Gerais etc. [p. 238] Rio da Prata, seja a Goiaz, e, mesmo até a embocadura do Tocantins (460), seja, enfim, a Cuiabá e a Mato-Grosso. Essa última navegação, tentada pela primeira vez no começo do século passado, muitas vêzes ajudou os paulistas em suas expedições longínquas às minas de ouro de Cuiabá. Atualmente, como dentro em pouco farei ver, foi ela muito desprezada; entretanto, na ocasião de minha viagem, não tinha sido ainda completamente abandonada. Quando se pretende ir a Mato-Grosso pela via fluvial, embarca-se no Tietê, em Pôrto Feliz, em grande pirogas ou barcas. A quatro léguas desta cidade, encontra-se a paróquia da Santa Trindade de Pirapora, a qual, em 1842 a 1844, foi elevada a vila, sob a denominação de Vila de Pirapora; a partir daí, percorre-se uma imensa extensão de terras desertas. Ao fim de 25 ou 26 dias atinge-se a confluência do Tietê com o Paraná, descendo-se por êste cêrca de 30 a 35 léguas; depois sobe-se o rio Pardo, e, muitas vêzes, empregam-se até dois meses para viajar 80 léguas por êste último, entravado, tal qual o Tietê, por uma sucessão de corredeiras e cascatas. Chegando-se ao rio Sanguexuga, que deságua no rio Pardo, as embarcações são levadas para terra, sendo carregadas, bem como as cargas que transportam, em carros de quatro rodas, puxados por 6 a 7 juntas de bois. Êsses carros são fornecidos pelo proprietário do primeiro estabelecimento luso-brasileiro situado, depois de Pirapora, naquelas imensas solidões, estabelecimento denominado fazenda de Camapuan. É nessa fazenda, situada às margens de um pequeno rio do mesmo nome — rio Camapuan — (461), que os carros, depois de terem percorrido cêrca de três léguas através de matas e campos, transportam as embarcações. Em Camapuan, que já depende da província de Mato-Grosso, são encontradas diversas provisões — milho, toucinho, (Notas de rodapé)(460) V. minha Voyage dans la Province de Goyaz, I, 369. (461) Há também um rio Camapuan na província do Rio Grande e uma localidade com o mesmo nome, em Minas Gerais. Camapuan é, segundo CAZAL (Corografia Brasileira, II, 61), o nome primitivo do rio que separa a província do Rio de Janeiro da do Espírito Santo; por corrupção foi transformado em Camapuana e Caoapuana. Êsses dois nomes foram-me indicados na própria região (V. minha Voyage sur le Littoral etc. II, 168); mas o príncipe de NEUWIED ouviu vários agricultores dizer Itabapuana (Brasilien, 161). PIZARRO prefere o nome primitivo, escrevendo Camapuan (Mem. Hist. III, 28). MILLIET e LOPES DE MOURA, reconhecendo que êste último nome é o mais antigo, admitem a denominação Cabapuana em todo o curso de sua importante obra, tal como fez JOÃO MANUEL DA SILVA, traçando a vida de JOSÉ DE ANCHIETA. Não é de crer, entretanto, que NEUWIED seja o único de idêntico modo de pensar, como em tempo acreditei, porquanto encontrei Itabapuana na Informação, de FRANCISCO MANUEL DA CUNHA (Revist. Trim. IV, 245) e no mapa bem recente intitulado Carta Topográfica da Província do Rio de Janeiro. Tudo isso, ao que me parece, fôrça a conclusão de que o rio em aprêço tem, pelo menos duas denominações; e não seria o único exemplo do gênero que nos oferece o Brasil. [p. 241] feijão e carne sêca; mas é êsse local situado ainda na metade da viagem. No rio Camapuan, as embarcações não podem receber senão meia carga. Dalí passa-se pelo rio Cochim, no qual um grande número de corredeiras dá ainda enormes trabalhos ao navegante. O rio Cochim leva as embarcações ao rio Taquarí, que é um pouco mais largo. Na confluência dêste último rio encontram-se ainda corredeiras que é preciso transpor, e pouco mais além existem outras denominadas Belliago, as quais, menos difíceis de transpor do que as precedentes, são, como informa o abade MANUEL AYRES DE CAZAL, as últimas entre as cento e treze corredeiras e cascatas que o navegador encontra, desde Pôrto Feliz, até Cuiabá, fim de sua viagem. O Taquarí irriga encantadores prados entremeados de capões de mato e, como descreve curvas de pouca extensão, mas muito repetidas, o viajante, encantado, pensa estar percorrendo uma série de lagos. Como os payaágoazes, indígenas quasi anfíbios que viviam nessas regiões, atacavam muito frequentemente os paulistas, êstes adotaram o costume de reunir-se no pôrto chamado Pouso Alegre, onde formavam uma flotilha, cujas fôrças reunidas podiam, mais fàcilmente, enfrentar o inimigo. Em pouco tempo chega-se ao local denominado Pantanais, onde o rio, dividido e sub-dividido, forma grande quantidade de ilhas, as quais, na estação das chuvas, ficam inteiramente cobertas pelas águas. Nesse ponto tudo é novidade para o viajante, quer venha da Europa, quer já tenha percorrido qualquer outra zona do Brasil, pois não reconhecerá, certamente, os objetos que o cercam. Palmeiras de formas bizarras, misturadas com grupos de sub-arbustos perfumados, bordam as margens do rio; pássaros dos mais curiosos voam em nuvens de todos os lados. À proporção que a embarcação se adianta, levantam-se nuvens de frangos d’água e de patos selvagens com enormes bicos; cegonhas gigantescas parecem querer disputar aos jacarés o império dos brejos, ao passo que cardumes de peixes saltam em meio das águas inquietas. Movimento por tôda parte, por tôda a parte uma superabundância de vida; mas é a vida dos desertos, a vida dos primeiros dias de criação: o homem ainda não apareceu. Uma ou outra vez avista-se a leve piroga do selvagem guaicurú, deslisando entre imensos campos de arroz selvagem, semeados pela natureza naquela região para alimento das aves aquáticas alí muito abundantes. O estranho e grandioso aspecto dos pantanais anuncia a vizinhança de um dos grandes rios da América — o Paraguai —, o qual, mesmo no tempo da sêca, mede, em sua confluência com o Taquarí, quasi uma légua marítima de largura, e que, quando os pantanais estão inundados, forma, segundo SPIX e MARTIUS, um imenso lago de mais de cem milhas quadradas. Quando se entra no rio Paraguai, a navegação nenhuma dificuldade apresenta. Dêsse rio passa-se ao rio São Lourenço, [p. 242] VIAGEM Á PROVINCIA DE S. PAULO243aproximadamente aos 17° 25; entra-se no rio Cuiabá, margeado por cam- pos de arroz selvagem, e, depois de uma viagem de cinco meses nas pirogas, em meio de desertos, atinge-se a cidade de Cuiabá, fim da viagem (462). Esta rápida notícia bastará para mostrar quão perigosa é essa na- vegação, quasi tão longa quanto a da Europa às índias Orientais. Tão perseverantes, quanto intrépidos, os antigos paulistas afrontavam todos os perigos: não temiam nem a flecha dos selvagens, nem a fome, nem as intempéries das estações, nem a falta de repouso, nem as privações de tôda a sorte, nem mesmo as moléstias pestilentas, que, entretanto, dizi- maram, em meio daquelas regiões desertas, tão grande número de seus primeiros exploradores. Contudo, quando em 1737 rasgou-se o caminho de Goiaz a São Paulo e que comunicações foram estabelecidas entre as províncias de Mato Grosso, Rio de Janeiro e Baía, quando, enfim, foi adotado habitualmente o itinerário de ida ao Pará pelos rios Guaporé, Madeira e Maranhão, a rota de São Paulo a Cuiabá, pelos rios, começou a ser menos frequentada (463). Na ocasião de minha viagem, já havia quinze anos que a mesma estava sendo desprezada e depois de três anos os viajantes a renunciaram completamente. Da mesma só se servia o governo, alguma vêzes, para o transporte, a Mato Grosso, de tropas ou de munições de guerra. Alguns meses antes de minha passagem por Pôrto Feliz, uma expedição dêsse gênero tinha sido realizada. Não foram as fadigas e as dificuldades da viagem que desgostaram os viajantes; se os costumes dos paulistas tinham se abrandado, não haviam êles, entre- tanto, perdido, seja o espírito empreendedor, seja a intrepidez: as via- gens pelo Tietê, o Paraná e o Camapuan foram substituídas por outras que não são muito menos penosas, mas que deixam maiores lucros. Parte-se de São Paulo com mulas carregadas; passa-se por Goiaz, e, chegando-se a Mato Grosso, as mercadorias transportadas são vendidas, prosseguindo-se daí para a Baía, onde as mulas são negociadas com um lucro superior a 100% (464). Uma especulação dêsse gênero não pode(462) O que aí fica referido sobre a rota de Cuyabá pela via fluvial foi colhi- do em vários tópicos esparsos da Corografia Brasilia de CAZAL (I, pgs. 211, 262, 267, 272, 299, 303), como também nos informes prestados a SPIX e MARTIUS pelo ca- pitão-mor de Itú em exercício ao início do ano de 1818 (Reise, I, 264), informes quasi idênticos ao texto de CAZAL. E´ de crer, de resto, que CAZAL tenha tido conhecimento dos preciosos manuscritos do matemático José FRANCISCO DE LACERDA E ALMEIDA. extraído do IX volume das Memórias Históricas de PIZARRO, publicadas em 1840, por ordem da assembléia legislativa da província de São Paulo, sob o título de Diário da Viagem de D. JOSÉ FRANCISCO DE LACERDA E ALMEIDA pelas Capitanias do Pará etc. nos anos de 1780 a 1790. (463) CAZAL, Corog. Bras. I, 262. (464) Pode-se ver, em minha Voyage a Goyaz (Vol. II, 56), que encontrei um condutor de caravanas que se propunha a fazer tal viagem. [p. 243] ser levada a fim senão depois de alguns anos, e a nossa imaginação admira-se, quando se pensa na extensão da viagem a fazer e nos sofrimentos a passar, sobretudo durante a travessia dos áridos desertos da Baía, onde a falta de água é comum. É evidente, de resto, que não se servirá mais do Tietê e dos outros rios, senão para o transporte dos objetos de grande pêso, quando for executado o projeto de se abrir um caminho em linha reta, de Mato Grosso a São Paulo. Parece mesmo, pelos discursos dos presidentes da província perante a assembléia legislativa, que alguns trechos dêsse caminho já estão construídos; e, em 1843, o presidente de Mato Grosso fez até passar pela picada demarcadora dêsse caminho o portador de sua correspondência, o qual só empregou dois meses na viagem (465). Antes de chegar a Pôrto Feliz não sabia eu da pequena importância que desde então tinha a navegação pelo Tietê; esperava encontrar alí pouco mais ou menos o mesmo movimento que há em nossas pequenas cidades situadas à margem dos rios, por menos consideráveis que sejam; mas, minha imaginação ficou infinitamente aquém da verdade. Só encontrei em Pôrto Feliz três ou quatro pirogas empregadas pelos cultivadores da vizinhança para a travessia do rio; nada indicava o pôrto, a não ser um grande rancho, onde se podia pôr as pirogas ao abrigo do sol e depositar as mercadorias antes do embarque. A maior parte das casas de Pôrto Feliz pertencem a agricultores, e nessa localidade só vi um pequeno número de lojas e vendas. Constitui a riqueza da região a cultura da cana de açúcar. Os habitantes de Pôrto Feliz afirmam ser suas terras, que têm côr vermelha, muito mais adequadas a essa cultura do que as terras de Itú; acrescentam que com o auxílio de dez pretos podem produzir mil arrobas de açúcar e mais até; enfim, que não é necessário, depois de arrancada a cana, deixar repousar o terreno por mais de dois a quatro anos. Mas, de outra parte, Pôrto Feliz está mais longe de Santos do que Itú, gastando-se mais de oito dias para a viagem a Santos; na época de minha passagem por alí, época em que o milho era raro e extremamente caro, os arrieiros exigiam, para o transporte de uma arroba (14, 7 quilos) uma pataca e meia (3 frs. ), importância que, convém não esquecer, tinha valor muito mais elevado do que atualmente. Em 1838, quando o distrito de Pirapora dependia do de Pôrto Feliz, produziram-se, em todo êste último, 73. 113 arrobas de açúcar (2. 924. 520 litros) e 560 canadas de caxaça (2. 541 litros); foram colhidos 20. 480 alqueires de milho (807. 200 litros), um pouco de arroz e certa quantidade de feijão. Contavam-se, então, em Pôrto Feliz, 76 engenhos de açúcar (466). (465) Discurso proferido pelo Presidente MANUEL FELISARDO DE SOUSA E MELLO, no dia 7 de janeiro de 1844, p. 39. (466) P. MÜLLER, Ensaio, quadro 3, 4. [p. 244] Parti de Porto Feliz dirigindo-me à cidade de Sorocaba, distante apenas cinco léguas e meia, empregando nessa viagem dois dias. Durante cerca de um quarto de légua acompanhou-me o capitão-mór de Porto Feliz, o qual me cumulara de gentilezas e me forçara a fazer uma refeição em sua companhia. Era um bom homem de campo, franco, alegre, um pouco orgulhoso de sua dignidade de capitão-mór, na qual fora recentemente investido, e que me pareceu desejar que eu comunicasse ao capitão-general a boa acolhida a mim feita. A região que percorri no primeiro dia de viagem, numa extensão de quatro léguas, é antes ondulada do que montanhosa. Percorri, a princípio, três léguas por dentro de matas não muito vigorosas, e durante a última légua atravessei campos, além dos quais existem ainda matas. Existem alguns sítios esparsos pelos campos. Às seis horas da manhã, o termômetro de Réamur marcava 14°. Durante o dia foi insuportável o calor. Nenhuma planta encontrei em estado de florescência nas matas; só encontrei, nesse estado, três ou quatro nos campos. Fiz alto na localidade denominada Guarda de Sorocaba, onde existia uma pequena casa com uma varanda, e onde eram pagos os impostos devidos, como direi mais adiante, sobre os muares precedentes do sul. Um diminuto número desses animais passava por esse caminho, pelo que a guarda compunha-se apenas de dois soldados da milícia (guarda nacional), os quais eram substituídos de seis em seis meses e recebiam dez patacas (20 francos) como pagamento. [Páginas 247 e 248] mais passava por esse caminho, pelo que a guarda compunha-se apenas de dois soldados da milícia (guarda nacional), os quais eram substituídos de seis em seis meses e percebiam dez patacas (20 francos) como paga. Entre Guarda de Sorocaba e a cidade do mesmo nome, atravessei sempre campos; mas, a pouca distância, percebi matas. Os primeiros apresentam tufos de gramíneas, cujas hastes e folhas são finas e densas, e em meio das quais cresce um escasso número de outras plantas. No espaço de uma légua e meia que percorri nesse dia, nenhuma flor tive ocasião de ver. Um pouco antes de chegar a Sorocaba, avista-se esta cidade, cuja situação é muito aprazível, como se verá a seguir. A cidade de Sorocaba, cujo nome vem do guarani çorocaa (bosque quebrado, mata quebrada, (469), está a 1960 pés ingleses (597 metros) acima do nível do mar (470) e a dezoito léguas de São Paulo (471), seis de Itu e cinco e meia de Porto Feliz, estando situada a 23º e 39´ de latitude austral e a 303º e 23´ de longitude, a partir do meridiano da ilha do Ferro (472). Pertencia ela, antes de minha viagem, à comarca de Itu, da qual ainda faz parte atualmente. Tinha dois juízes ordinários e um capitão-mor, e acabava de estabelecer-se ali um professor de gramática latina pago pelo rei. Esta cidade, de acordo com as tradições colhidas dos seus habitantes mais cultos, deve sua origem a um pequeno mosteiro de beneditinos, que ainda existe. Um agricultor que se tinha estabelecido na região chamou dois religiosos dessa ordem, dando-lhes uma considerável gleba de terras. O convento foi construído e vários particulares fixaram-se nas imediações, para poderem preencher mais facilmente seus deveres de cristãos. Pouco tempo depois, os habitantes de certa vila chamada Itapebussu, descontentes de sua situação, abandonaram-na completamente; transportaram-se a Sorocaba, que estava a pouca distância, e o pelourinho, marco da dignidade das vilas, foi também transferido de Itapebussu para Sorocaba, que foi elevada a sede de paróquia e de termo (473). Em 1838, Sorocaba era simplesmente vila;(469) É desnecessário dizer que não se deve escrever, como fez J. Mawe, Soricaba (Travels, 54). (470) Eschw. Jour. von Bras. II, 86. (471) Se as Memórias Históricas de Pizarro indicam 48 léguas, incorrem evidentemente em erro, atribuível, com certeza, à respectiva impressão. (472) Eschwege indica a latitude de 23º 31´ 24" (Journ. von Bras. II, 173). (473) D. P. Müller faz remontar a fundação do pequeno mosteiro dos beneditinos de Sorocaba ao ano de 1667. Esse escritor e Pizarro indicam o ano de 1670 para a fundação da própria vila; mas não nos informam em que época a mesma obteve o título de vila; Müller, Ens. Estatis. 50 e quadro XIX. — Piz. Mem. Hist. (VIII, 297). Lê-se no útil Dicionário Geográfico do Brasil (II, 64) que Sorocaba fundada em 1670, começou a se desenvolver sensivelmente, quando Afonso Sardinha [p. 248] mas, depois foi elevada a cidade, provàvelmente para fazer cessar a ciumeira excitada pela elevação de Itú à mesma categoria e sede de comarca. Pelo fim de 1819, a população permanente de Sorocaba elevava-se, aproximadamente, ao número indicado, em 1817, pelo abade MANUEL AIRES DE CAZAL, a saber, a 1. 777 almas. Em tôda a paróquia, que media 14 léguas de comprimento por largura um pouco menor e que, muito provàvelmente, compreendia, então, a paróquia de Campo Largo, contavam-se 9. 000 a 10. 000 almas, o que representava, aproximadamente, 62 pessoas por légua quadrada (474). A cidade de Sorocaba está situada em região acidentada, cortada por matas e campos; estende-se pela encosta de uma colina, em cujo sopé corre um rio com o mesmo nome — rio Sorocaba —, mas que os habitantes da região denominam comummente rio Grande, pelo motivo, certamente, de não conhecerem outro maior. Êsse rio deságua no Tietê, perto de Pirapora; é à sua margem esquerda que a cidade foi construída. Vista das elevações vizinhas, Sorocaba empresta à paisagem uma perspectiva encantadora; mas a cidade é de má aparência, em seu conjunto. As ruas não são calçadas, e, como são em declive, as chuvas cavaram nas mesmas, de todos os lados, profundos buracos (1820). As casas são, de ordinário, pequenas, e poucas há que não constem apenas do andar(Início das notas de rodapé)descobriu a mina de ferro de Araçoiaba. É evidente que tal asserção resulta de uma dessas inadvertências quasi impossíveis de evitar num trabalho tão extenso como o Dicionário. Como muito sensatamente ponderam os próprios autores dessa obra (I, 159), foi em 1590 que SARDINHA fez sua descoberta. Devo acrescentar que não encontrei, em nenhuma das obras que pude consultar, a denominação Itapebussú; mas, é evidente, que foi a pequena vila formada nos arredores de Araçoiaba pouco tempo após a descoberta da mina de ferro da montanha dêsse nome, e de onde os habitantes se retiraram para Sorocaba antes do ano de 1626 (VARNH. in ESHW. Jour. II, 261). Entretanto, é necessário admitir a ocorrência de êrro relativamente a alguma das datas indicadas, porque o convento de Sorocaba não pode ter sido fundado em 1667, a vila em 1670 e os habitantes de Itapebussú à mesma se terem transportado em 1626. Itapebussú é, provàvelmente, o local indicado por VAN LAET (Orb. Nov. 580) sob o nome de São Filipe. (474) Não tendo encontrado a criação da paróquia de Campo Largo indicada em nenhum documento com a respectiva data, não posso afirmar, de forma positiva, que a mesma não estivesse já, em 1820, desmembrada da de Sorocaba. Mas é isso muito verossímil, porquanto, se esta última contasse 10. 000 habitantes após a separação, como todo o distrito, compreendendo as duas paróquias, só contaria, em 1838, 11. 133 almas, número indicado por D. P. MÜLLER? Além disso, medeiam três léguas entre Sorocaba e os limites do distrito de Pôrto Feliz, e duas e meia até os limites de Campo Largo, ao todo cinco e meia léguas; consequentemente, não é possível admitir-se a extensão de 14 léguas, largura e comprimento, que me foi indicada para a paróquia de Sorocaba, tal como era a mesma ao tempo da minha viagem. É, finalmente, muito possível que, se o Campo Largo existisse então, ter-me-iam informado de sua existência, pois que atravessei o território dessa região, e, em minhas anotações, nada encontro relativamente ao assunto. [p. 249] térreo; são cobertas de telhas, construídas com terra socada (taipa), e todas possuem um quintal plantado de bananeiras e laranjeiras. Existem na cidade duas praças públicas — uma muito extensa e muito irregular, situada na parte mais baixa da cidade; a outra, quase quadrada, diante da igreja paroquial, igreja consagrada a Nossa Senhora da Ponte, edificada em ponto que domina considerável parte da cidade. Esse templo é vasto, mas acha-se em péssimo estado de conservação (1820). Na época de minha viagem, acabava de ser construída uma de suas duas torres, que foi feita com altura e largura desmesuradas relativamente às dimensões do próprio edifício. Além dessa igreja, outra existe, menor, dedicada a Santo Antônio (475). O mosteiro ou convento dos beneditinos, ao qual já me referi, está situado na parte mais elevada da cidade e não tem de notável senão a bela vista que do mesmo se descortina. Quando ali estive, habitava-o um religioso apenas e, em 1838 (476), continuava a ser residência de um só monge. Grande extensão de terras possui esse convento, o qual, no entretanto, não é muito rico: numa região onde existem ainda tantos terrenos vagos, nada se possui, em realidade, quando se é proprietário de terras sem escravos e sem usinas. Existe em Sorocaba um estabelecimento de religiosas reclusas, que seguem a regra de Santa Clara, mas que não fazem voto. Esse estabelecimento possui escassos bens, e as reclusas, que são cerca de quatorze (1820) (477), vivem dos donativos que recebem das próprias famílias. A igreja do convento é aberta a todos os fiéis; mas nenhuma das janelas da casa das reclusas dá para o exterior. Numa região em que os casamentos são pouco comuns e onde a libertinagem frequentemente impera, não se pode negar que instituições da espécie sejam de grande utilidade, e acrescentarei que, devido às perniciosas influências sofridas, necessariamente, pelas reclusas na infância, é de muito bom aviso não ser das mesmas exigido qualquer voto. Existia antigamente um hospital em Sorocaba, cujo edifício ainda se via na época da minha viagem, mas de nada mais servia. Já assinalei alhures (478) quantos obstáculos opõem-(475) Além dessa igreja, D. F. Müller indica uma outra com o nome de Santa Cruz (Ens. Estat. 51). Segundo Cazal, que escrevia em 1817, os negros tinham iniciado uma outra para colocar a imagem de Nossa Senhora do Rosário (Corog. Bras. I, 244), que ainda não estava concluída em 1838 (Müll. loc. cit. ); mas Milliet e Lopes de Moura, que nada dizem da capela de Santa Cruz, referem-se à do Rosário, como estando completamente construída, em 1845 (Dic. II, 664). (476) Müll. Ens. quadro 19. (477) Segundo Müller, eram vinte em 1838. (478) V. minha Voyage dans le District des Diamants etc. I, 45. [p. 250] se a que os estabelecimentos de beneficência tenham, no Brasil, longa duração. Uma caridade ativa e bem dirigida, triunfaria, sem dúvida, desses obstáculos; mas, posto que os bons resultados produzidos pelas confrarias da Misericórdia (casa da misericórdia) provem que os brasileiros não são estranhos a esta sublime virtude, seria necessário que a mesma fosse reavivada entre muitos deles. É o nobre papel que o clero deve desempenhar, saindo de seu torpor e se capacitando, afinal, de sua verdadeira missão: um vasto campo abre-se diante dele, um campo desde muito tempo inculto; que o clero o semeie de instituições de caridade, de boas obras, de bons exemplos, com o que ficará credor da religião, da humanidade e do país. A casa da câmara de Sorocaba é um edifício pequeno e de mau aspecto, elevado no canto de uma rua estreita e imunda. Uma ponte estabelece comunicações entre a margem direita do rio Sorocaba e a esquerda, sobre a qual foi construída a cidade. É uma ponte de madeira, medindo, pouco mais ou menos, 150 passos de comprimento. As lojas são numerosas e bem sortidas. Como ocorre em Itú, os comestíveis são vendidos em pequenas casas (casinhas), de propriedade da administração pública. Já em São Paulo eu tinha visto casinhas do mesmo gênero. Uma parte das casas de Sorocaba pertence a agricultores, que as ocupam unicamente aos domingos. Nos arredores da cidade cultiva-se a cana de açúcar, com menor rendimento, porém, do que em Itú e, sobretudo, em Campinas. Os algodoeiros vegetam perfeitamente acima das montanhas que se estendem a leste da cidade, mas o algodão que produzem é de baixa qualidade. Não é mais o clima, nem, provavelmente, o solo de Goiaz e de Minas Novas; entretanto, tecidos grosseiros fabricados na região encontram seguro consumo em Curitiba e na província do Rio Grande do Sul, onde não é possível a cultura do algodão. Não é, de resto, a agricultura que constitui a riqueza de Sorocaba, sim o comércio de muares ainda não domesticados, comércio de que a cidade é, verdadeiramente, o entreposto. Esses animais provêm da província do Rio Grande e são trazidos a Sorocaba em numerosas tropas por mercadores do Sul. Essas tropas (manadas de bestas bravas) põem-se em marcha pelos meses de setembro e outubro, na ocasião em que as pastagens começam a reverdecer. Vários mercadores transportam suas tropas sem nenhuma interrupção, e as mesmas chegam a Sorocaba pelos meses de janeiro, fevereiro e março; outros deixam-nas repousar durante todo um ano nos arredores de Lages, cidade da província de Santa Catarina, e só depois desse longo intervalo de tempo fazem-nas atravessar o Sertão, imenso deserto coberto de matas, onde [p. 251] mente isolada. “Sua base — diz FRIEDRICH VARNHAGEN — forma uma figura oval, cujo diâmetro maior mede 3 léguas do norte ao sul, medindo o menor uma légua e meia. Os cumes são separados entre si por várias superfícies planas, numa das quais há um pequeno lago pantanoso, denominado Lagoa Dourada, onde, segundo a lenda popular, há tesouros ocultos (488). Diversos regatos vertem da montanha sendo mais importante o que nasce no vale das Furnas (grotas), e que tem o nome de ribeirão da antiga fábrica. Matas densas, onde o machado quasi não trabalhou, cobrem a mina, e são extraordinàriamente ricas em madeiras de construção e de marcinaria, das quais conseguí reunir 108 espécies diferentes (489). Do lado de léste é que corre o rio Ipanema, que, no local, tem a largura de 25 pés (7 ms. 60); a oeste corre o Sarapahú, que é um pouco maior. Os dois deságuam no Sorocaba e são navegáveis até a sua confluência com êste último. Em alguns lugares vizinhos de Araçoiaba, existem terrenos auríferos, que antigamente foram explorados; mais tarde foram abandonados, porque os víveres tornaram-se muito caros, e porque, também, só se pagavam, aos escravos empregados na mineração, 6 vinténs (75 cents. ) por dia, quando deviam perceber, pelo menos, o salário de 8 vinténs, para dar aos seus senhores algum lucro (490)”. Desde um grande número de anos foi descoberta a existência de ferro na montanha de Araçoiaba, outrora denominada Biraçoiaba, Guraçoiaba e Quiraçoiaba, alterações ou curruptelas do verdadeiro nome (491). Já em o ano de 1590, AFONSO SARDINHA, minerador ativo e empreendedor, instalou, na própria montanha, um forno catalão, do qual existem ainda vestígios. SARDINHA fez presente dêsse forno a D. FRANCISCO DE SOUSA, então administrador geral das minas (492). (488) Existem no Brasil vários lagos e lagoas, relativamente aos quais são contadas lendas mais ou menos semelhantes, todos denominados Lagoa Dourada ou Lagoa do Pão Dourado (V. o que já escrevi sôbre o assunto em minha Voyage dans les Provinces de Rio de Janeiro et de Minas Gerais, II, 189). (489) SPIX e MARTIUS dizem que a Araçoiaba está a mil pés acima de Ipanema; segundo VARNHAGEN, está a 2. 010 pés ingleses acima da referida localidade e a 4. 600 acima do nível do mar; ESCHWEGE, finalmente, indica 1. 822 pés ingleses, como sendo a altura da planície em que está situada a montanha, 1. 088 pés como sendo a altura da mesma acima da planície, e, por consequência, 2. 910 pés (884 metros) como sua altura acima do nível do mar. (SPIX e MARTIUS, Reise, 253. — Beobachtungen in ESCHW. Journal, 255. — Plut Bras. 530). Tão grandes diferenças demonstram a necessidade de nova medição. (490) FRIED. VARNHAGEN, Beobachtungen etc. in ESCHW. Journ. von Brasilien, II, 254-258. (491) Devo apenas dizer que o nome Gorussuava, referido por MAWE, é inteiramente errôneo. (492) PEDRO TAQUES, História da Capitania de São Vicente, in Rev. Trim. 2. ª série, II, 450. [p. 258] depois de reunidos, deságuam no Tietê. Se, para ter uma idéia justa da extensão e da posição da cidade de São Paulo, se fizer um passeio em seu derredor, ver-se-á que, do lado do norte, o horizonte é fechado, pouco mais ou menos de oeste a leste (340), por uma cadeia de pequenas montanhas, em meio das quais se destaca o pico do Jaraguá, que dá seu nome a tôda a cadeia; mais elevado do que os morros vizinhos, êsse pico apresenta, de um de seus lados, um intervalo sensível e, visto de longe, parece terminar por uma cúpula arredondada, em cuja extremidade se erguesse uma pequena ponta. Do lado de leste, o terreno, mais baixo do que a cidade, estende-se, sem desigualdade, até a vila de Nossa Senhora da Penha, que se avista no horizonte. Em outros lugares notam-se no terreno movimentos mais ou menos sensíveis, e, para o sul e o oeste, o mesmo se eleva acima da cidade. O campo apresenta uma alternativa aprazível de capões de mato e pastagens rasteiras. Lindas casas estão espalhadas de todos os lados. Araucárias e algumas palmeiras se elevam acima dos matos, resultando, de todo êsse conjunto, panoramas extremamente agradáveis à vista. O Hinhangabahú, simples fio de água, verte abaixo do convento dos beneditinos, no Tamandatahy, e êste, serpenteando através das pastagens úmidas, dá maior variedade e mais encanto à paisagem. A situação de São Paulo é encantadora e é puro o ar que alí se respira. Vê-se um grande número de lindas casas e as ruas não são desertas como as de Vila Rica (Ouro Preto); os edifícios públicos são bem conservados e não se tem a cada passo, como em grande parte das cidades e vilas de Minas Gerais, a vista impressionada pelo aspeto de abandono e ruínas. As ruas da cidade situadas no flanco da colina e pelas quais se desce ao campo, são as únicas em declive; as outras se estendem sôbre terreno plano. Tôdas são largas (341), bastante rectas e os veículos podem pelas mesmas circular fàcilmente. As mais belas(Notas de rodapé)(340) Entre as muitas fábulas criadas sôbre a origem, o govêrmo e os costumes dos antigos paulistas, o padre CHARLEVOIX e FRANÇOIS CORREAL (pseudônimo) algo disseram relativamente à posição de São Paulo. O primeiro pretende que essa cidade é cercada, por todos os lados, de inacessiveis montanhas (Voyage aux Indes Occidentales, I, 249); o segundo, que a mesma é situada no cume de um rochedo e que só poderá ser submetida pela fome (Histoire du Paraguay, I, 308). São Paulo é hoje bastante conhecida, para que seja necessário repelir tais asserções; mas não posso deixar de aquí observar o quanto o Brasil era pouco conhecido na época em que iniciei minha viagem ao seu território, as estranhas narrativas dos autores que acabo de citar foram reproduzidas, em 1816, na reimpressão do Abrégé de l´Histoire Générale, de LA HARPE, vol. XII, pg. 143 e segs. (341) KIDDER afirma que as ruas são estreitas (Sket. I, 229). — SPIX e MARTIUS afirmam que as mesmas são muito largas (Reise, I, 219). Eu creio que a verdade está entre essas duas afirmativas[p. 173] . em grande parte do litoral; e, se, algumas vezes, em certas regiões da costa raramente visitadas, há tão pouca hospitalidade quanto nos portos, é isso devido ao natural apático dos habitantes, cujo sangue mesclou-se com o dos indígenas, e que são congenitamente inervados pelo extremo calor e por alimentação muito pouco substanciosa. Bem pesado tudo o que acabo de dizer, torna-se claro que à cidade de Santos, pela sua localização, advêm as maiores vantagens, que teria perdido se, à semelhança de alguns pequenos portos da província, não tivesse diretas comunicações com o interior. Para ir do litoral à planície de Piratininga, os portugueses, até 1560, só tinham um perigosíssimo caminho, infestado pelos tamoios, seus fidalgais inimigos. Estes selvagens se ocultavam nos matos, à direita e à esquerda do caminho, atacando de improviso os viajantes, despojando-os, aprisionando-os e levando-os para seus bárbaros festins. Tocados de compaixão, os jesuítas Luiz de Gram e Nóbrega resolveram por um fim a essa dolorosa situação, que tanto atemorizava a população branca. Os referidos jesuítas, com mais dois padres seus colegas, tão empreendedores quão industriosos, favorecidos pelo governador Mem de Sá e auxiliados por indígenas catequizados, abriram, com perigo de vida, um novo caminho, seguindo um traçado isento do perigo de ataques por parte dos selvagens. Os habitantes do planalto e os do litoral puderam, afinal, comunicar-se entre si, sem se expor a horrorosos suplícios, e testemunharam o mais vivo reconhecimento aos padres da companhia de Jesus e ao governador Mem de Sá. É certo, e nem o contrário poderia imaginar-se, que essa estrada em nada se assemelhava às que, atualmente, são abertas, com tanta arte, em meio das mais escarpadas montanhas. O padre VASCONCELOS, que pela mesma passou cem anos depois de sua abertura (1656), afirmou não ter ela passado por qualquer modificação, e assim a descreveu, mostrando como era difícil o seu trajeto e como é admirável a região que atravessa: “Não é caminhando” — disse o padre Vasconcelos — “que se faz a maior parte da viagem; é de rastros sobre as mãos e os pés, agarrando-se às raízes das árvores, em meio de rochedos ponteagudos e de tão terríveis precipícios, que eu tremia, devo confessá-lo, quando olhava para baixo. A profundeza do vale é aterrorizante, e o número de montanhas que se elevam, umas por cima das outras, faz quasi perder toda a esperança de chegar ao fim. Quando se acredita estar no cume de uma delas, chega-se ao sopé de outra mais alta ainda. Mas é verdade que, repetidas vezes, sente-se recompensado das fadigas da ascenção. Quando eu me sentava sobre um rochedo e lançava o olhar para baixo, parecia-me estar olhando do alto do firmamento, e que o globo encontrava-S€ abaixo de meus pés; uma vista admirável descortinava-se — a terra e o mar, planície, florestas, cadeias de montanhas, numa infinita variedade, constituindo a mais encantadora paisagem que o nosso espírito possa imaginar”. Lê-se, no útil Dicionário Geográfico do Brasil (I, 309), que, no século XVIII, os jesuítas fizeram abrir um caminho, inteiramente calçado, que ia de São Vicente à planície de Piratininga; e que Mem de Sá, encantado com a beleza desse trabalho, deixou-se dominar pelos padres da companhia de \jesus, e que foi devico a isso que na ocasião ordenou a destruição, para agradar-lhes, da vila de Santo André. [p. 209] globo encontrava-se abaixo de meus pés; uma vista admirável descortinava-se — a terra e o mar, planície, florestas, cadeias de montanhas, numa infinita variedade, constituindo a mais encantadora paisagem que o nosso espírito possa imaginar”. KIDDER, em 1839, precisamente no momento em que começava a descer a montanha, percebeu, a pouca distância da estrada, quatro pedras deslocadas, semi-enterradas na lama, e, tendo-as feito limpar, leu nas mesmas uma inscrição indicando, com a data de 1790, que a estrada tinha sido aberta no reinado da rainha D. MARIA I, durante o govêrno do capitão-general BERNARDO JOSÉ DE LORENA (393). Não é admissível que a estrada em aprêço tenha se conservado até o tempo de D. MARIA I tal como a descreveu o padre SIMÃO DE VASCONCELOS; mas, até o reinado dessa soberana, foi necessàriamente reparada e posta nas condições em que foi vista posteriormente (394). A estrada compõem-se de três partes bem distintas: — O espaço não acidentado, compreendido entre a cidade de Santos e a base da montanha — serra do Cubatão (395), antigamente serra da Paranapiacaba — a própria montanha, e, afinal, a parte do planalto que se estende desde esta última até São Paulo. Outrora, quem pretendesse ir de Santos a São Paulo, fazia-o em barcos, por água, atravessando a baía e entretanto no rio Cubatão, estreito curso de água, pantanosa, habitado por jacarés e aves aquáticas, (393) Eis a inscrição tal como foi comunicada pelo próprio KIDDER (Sket. I, 212): MARIA I ReginaNeste áno 1790. OMNIA VINCIT AMOR SUBDITORUM. Fes se este caminho no felis governo do Illmo. e Excllmo. Bernardo José de Lorena general d´esta capitania. (394) Lê-se, no útil Dicionário Geográfico do Brasil (I, 309), que, no século XVIII, os jesuítas fizeram abrir um caminho, inteiramente calçado, que ia de São Vicente à planície de Piratininga; e que MEM DE SÁ, encantado com a beleza dêsse trabalho, deixou-se dominar pelos padres da companhia de Jesús, e que foi devido a isso que na ocasião ordenou a destruição, para agradar-lhes, da vila de Santo André. É impossível que não tenha ocorrido, nessa passagem, um êrro de copista ou de tipografia; porquanto, pelo que se pode ver na mesma obra (II, 611), a vila de Santo André foi arrazada em 1560 e não no século XVIII; os jesuítas deveram seu prestígio junto a MEM DE SÁ pelos serviços que ao mesmo prestaram em sua expedição contra os tamoios e os franceses; enfim, o padre VASCONCELOS não diz, absolutamente, que a estrada fôsse pavimentada, e, se tivesse sido, o padre FERNÃO CARDIM, em 1585, e, mais tarde, o próprio padre VASCONCELOS, não teriam sido obrigados, para irem a São Paulo, a se arrastarem sôbre as mãos, agarrando-seagarrando-se às raízes das árvores, em meio de rochedos ponteagudos e de tão terríveis precipícios, que eu tremia, devo confessá-lo, quando olhava para baixo. A profundeza do vale é aterrorizante, e o número de montanhas que se elevam, umas por cima das outras, faz quasi perder toda a esperança de chegar ao fim. Quando se acredita estar no cume de uma delas, chega-se ao sopé de outra mais alta ainda. Mas é verdade que, repetidas vezes, sente-se recompensado das fadigas da ascenção. Quando eu me sentava sobre um rochedo e lançava o olhar para baixo, parecia-me estar olhando do alto do firmamento, e que o globo encontrava-S€ abaixo de meus pés; uma vista admirável descortinava-se — a terra e o mar, planície, florestas, cadeias de montanhas, numa infinita variedade, constituindo a mais encantadora paisagem que o nosso espírito possa imaginar”. (395) Devo observar que não se deve escrever, como MAWE, Cuberton. [p. 210] certamente um remanescente do primeiro estabelecimento que os indígenas formaram nesse local. o proprietário de carapicuva lastimava-se amargamente de que seus vizinhos roubavam-lhe animais. a ideia do teu e do meu, como farei ver em a narração de minha viagem às missões do uruguai, é uma das que os indígenas apreendem com mais dificuldade; e não é certamente com o exemplo dos brancos, usurpadores de suas propriedades, que os habitantes da paróquia de pinheiros poderiam compreendê-la. em carapicuva e em todas as outras fazendas de criar das cercanias de são paulo, só se dá sal às vacas e às éguas uma vez por mês. as primeiras dão cria desde o mês de agosto até o de janeiro; mas os bezerros que nascem neste último mês são pouco vigorosos e, muitas vezes, não podem ser criados. quando as vacas dão cria, os bezerros são trazidos das pastagens e encerrados em um pequeno curral, só sendo aproximados das mães, pela manhã e à tarde, tal qual se procede nos arredores de são joão del rei e em outros pontos do brasil (412). as éguas são divididas por lotes de cerca de 25, e, como no sertão de minas (413), à frente de cada lote é posto um garanhão, a que os brasileiros dão o nome de pastor. é o pastor que escolhe por si mesmo suas fêmeas, não permitindo que das mesmas se aproximem outros garanhões. as éguas começam a dar cria em julho. são postos as mães e os potros em pastagens separadas, e tem-se o cuidado de visitar estes últimos repetidamente, para desembaraçá-los dos vermes que, de ordinário, se desenvolvem na cicatriz umbilical, para o que é empregado o mercúrio doce em aplicações diretas. entre carapicuba e a fazenda itaqué, onde pernoitei, a estrada passa quase sempre por terrenos altos, de onde se descortinam, muitas vezes, vistas aprazíveis. ondulações do solo assaz variadas, reunião de capões de mato e pastagens, rochedos, o tietê que serpenteia ao fundo, algumas casinhas, a capela de barirí — todo esse conjunto, visto de diferentes pontos, apresenta lindíssimas paisagens. nesse dia, passei a vau dois grandes ribeirões que deságuam no tietê — o ribeirão da cutia e o ribeirão de berirí, barirí ou baruerí (414), ribeirões cujos nomes são também os das igrejas vizinhas. (412) v. minha voyage aux sources du rio de s. francisco etc. i, 67. (413) v. minha voyage dans les provinces de rio de janeiro et minas gerais, ii, 327. (414) segundo francisco josé de lacerda e almeida, baruerí ou barirí significa o rio da planta chamada barirí, que tem flores vermelhas e sementes pretas (diário da viagem, 57). [p. 220] Partí de Porto Feliz dirigindo-me à cidade de Sorocaba, distante apenas cinco léguas e meia, empregando nessa viagem dois dias. Durante cerca de um quarto de légua acompanhou-me o capitão-mór de Porto Feliz, o qual me cumulara de gentilezas e me forçara a fazer uma refeição em sua companhia. Era homem de campo, franco, alegre, um pouco orgulhoso de dignidade de capitão=mór, naa qual fora recentemente investido, e que me pareceu desejar que eu comunicasse ao capitão-general a boa acolhida a mim feita. Percorrí, a princípio, três léguas por dentro das mapas não muito vigorosas, e durante a última légua atravessei campos, além dos quais existem ainda matas. Existem alguns sítios esparsos pelos campos. Às seis horas da manhã, o termômetro de Réamur marcava 14o. Durante o dia foi insuportável o calor. Nenhuma planta encontrei em estado de florescência nas matas; só encontrei, nesse estado, três ou quatro nos campos. Fiz alto na localidade denominada "Guarda de Sorocaba", onde existia uma pequena casa com uma varanda, e onde eram pagos os impostos devidos, como direito mais adiante, sobre os muares procedentes do Sul. (Imagem: 11738) [0] Antes mesmo dos europeus terem tomado posse da ilha de São Vicente, o local em que Itú se eleva agora era ocupado por uma tribo de nativos guaianazes. Foram esses nativos do número dos que acorreram em defesa do país (1530), quando souberam que Martim Afonso de Sousa quis da mesma se apoderar; mas, vendo que o chefe de todas as tribos guaianazes, o grande Tebireça, tinha feito aliança com o capitão português, retiraram-se para a selva. Atraídos, um pouco mais tarde pelo amor que Anchieta e seus companheiros demosntravam pelos homens de sua raça, os nativos de Itú, conduzidos pelo seu cacique, reuniram-se à colônia que os jesuítas acabavam de fundar sob o nome de São Paulo de Piratininga. Foi possivelmente nessa ocasião que alguns portugueses mamalucos começaram a fixar-se em Itú; os primeiros habitantes da localidade foram aniquilados ou dispersados, e, desde 1654, a antiga aldeia tornou-se uma vila portuguesa. (427). Em 1811, Itú foi elevada a sede de uma comarca que abrangia Mogì-Mirim, Campinas, Pôrto Feliz, Sorocaba, Itapeva, Itapetininga, Apiaí. Quandosom pouco mais ou menos semelhante a se fazer sentir perfeitamente, "êsse som, diz o padre ARAUJO, forma-se na garganta, dobrando a língua, inclinando a ponta da mesma e expelindo o ar para diante, fim de formar uma espécie de intermediário entre as vogais i e u, que não é nem uma nem outra e parece compreender ambas (Advertências in Dic. Port. e Bras. iii)". Esta pronúncia, que se aproxima de certo modo da sílaba ig dos alemães, tinha sido assinalada, a princípio, por um i compreendido entre dois pontos colocados um acima e outro ábaixo da letra; por sua vez, o padre RUIZ DE MONTOYA empregou, para exprimí-la, um i coroado pelo sinal que, em latim, indica os ii; mas, de acôrdo com as regras, bem fundamentadas do padre ARAÚJO, dever-se-ia escrever y como correspondente de água, e, assim, ytú por cascata, se desde dilatado tempo os lusos-brasileiros não houvessem, geralmente, consagrado a sílaba hy para representar, nos nomes compostos, o vocábulo que, entre os indígenas, significava — água, rio; ex. : Jundiahy, Jacarehy, Apiahy, etc. Já que nessas palavras admitimos hy, é claro que, para ser coerentes, devemos escrever Hytú, porque ninguém, certamente, pretenderá que a ortografia de uma palavra deva variar, nas suas compostas, segundo se encontre ao princípio ou ao fim das mesmas; o vocábulo alemão milch (leite), por exemplo, é escrito de idêntica forma em milch-brau, (leiteira), e butte-milch (manteiga de leite). Não é possível crêr, de certo, que, em todos os nomes próprios atuais terminados por i, tal determinação indique sempre as palavras água ou rio, e que êsse som deva constantemente ser tomado por hy. Sem falar dos verbos, a letra i, ao fim dos substantivos, modifica-lhes o sentido e parece ser um diminutivo, como o provam os exemplos apresentados pelo padre LUIZ FIGUEIRA (Arte da Gramática da Língua Geral, 4. ª edic. 97); comandá, fava; comandaí, fava pequena; pitanga, menino; pitangaí, menino pequeno. Não teríamos nenhuma dúvida sôbre as etimologias dêsse gênero, se os portugueses, adotando as palavras indígenas, tivessem cuidado de acentuá-las de acôrdo com as regras adotadas pelos jesuítas; mas, como assim não ocorreu, é impossível que alguns erros não escapem aos atuais etimológos, por mais atentos que sejam. Daí creio que se deve concluir que a palavra Pitanguí, designativa de uma cidade de Minas, não quer dizer o rio dos meninos, mas o menino pequeno. (426) GASPAR DA MADRE DE DEUS, Noticia etc. in Revist. Trim. II, 426. (427) Essa data foi indicada a um tempo por PIZRRO, SPIX e MARTIUS e D. P. MÜLLER; se se encontra 1584 no Dicionário Geográfico do Brasil, deve-se atribuir o fato a um êrro de impressão. [p. 227] teria feito a maioria das brancas e até das mulatas de Minas ou de Goiaz permaneceram entre nós enquanto trabalhávamos. Passaram a tarde a conversar, a rir, a beber e a fumar em compridos cachimbos, de cerca de três pés, muito usados entre as mulheres da região e as de Goiaz. Nenhuma delas fazia qualquer serviço, posto que o mau estado de suas vestes provava, suficientemente, que tinham grande necessidade de trabalhar. Deixando a venda de Caracatinga, atravessei o ribeirão do mesmo nome, o qual, a pouca distância, deságua no Tietê. A região que percorri, numa extensão de três léguas, é acidentada; como a que atravessei entre Itu e Caracatinga, pareceu-me ter sido, outrora, coberta de matas virgens; atualmente, porém, só se veem matos pouco elevados e capoeiras onde cresce, abundantemente, o grande feto (pteris caudata). Na véspera, 16 de dezembro, o termômetro, em Itu, marcara 18º R. às 6 horas da manhã; já no outro dia marcava apenas 14º, à mesma hora. O calor foi, entretanto, extremamente forte durante toda a nossa caminhada: o tempo estava soberbo; não chovia, embora estivéssemos na estação das chuvas, e podia se considerar perdido o milho que, plantado oportunamente, estava em flor. É fácil de prever que, se a seca se prolongasse, a penúria, já grande, produzida pela seca do ano anterior, teria, em 1820, as mais lamentáveis consequências. Nesse dia, nenhuma planta interessante encontrei; as localidades que percorri pouco forneciam geralmente, e a seca ainda mais diminuía o número de espécies vegetais. Porto Feliz (455), onde fiz alto, foi elevada a cidade, em 1797, sob a administração do governador da província Antônio Manuel de Melo Castro e Mendonça (456), e tinha sido, em tempo remoto, uma aldeia denominada Araratiguaba (457). Esta cidade, situada a 23 léguas de(455) Não é necessário dizer que o nome S. Feliz, usado num livro pouco conhecido, mas cuja leitura é interessante e instrutiva, é errôneo (J. F. van Weech, Reise über England und Portugal nach Brasilien, I, 267). Esse autor deve ser posto no número daqueles aos quais o príncipe de Neuwied censura de negligentes quanto à ortografia dos nomes portugueses (Brasilien, 51). (456) Piz. Mem. Hist. VIII, 301. (457) Spix e Martius traduziram essa palavra pelas expressões o lugar em que as araras comem pedras. Ararita pode ser, é certo, pedra das araras; mas, posto que Lacerda tenha dado guava com o significado de comer (Diário da Viagem, 55), guaba, em guarani e guabo na língua geral não pareciam ter aquela significação: tais sílabas são, em certos casos, desinências do gerúndio (Ruiz de Montoya, Tes. Guar. 127 - bis; Luiz Figueira, Arte da Gramática, 4ª ed. 69). A expressão portuguesa comer é representada, segundo os mesmos autores, por u, em guarani, e por ui na língua geral. Devo acrescentar, entretanto, que no artigo[p. 239] Perto de Potribú, as casas tornam-se mais frequentes; mas são maltratadas e tem péssima aparência. Esse engenho de açucar a que vou me referindo, dependia da paróquia de Piedade. No dia em que alí me detive só caminhara três léguas; no dia seguinte não consegui vencer mais distância. Alojei-me num rancho muito alto, coberto de telhas e cercado por paredes de terra socada, rancho denominado "Rancho de Braga". Era ainda um dos que tinham sido construídos as espenas do fisco (fazenda real) e que eram designados sob o nome de "ranchos del Rei". O rancho de Braga é situado na paróquia da cidade de Itú, paróquia que tem início um pouco antes de "Pau d´Alho" (nome deuma espécie de árvores), engenho de açucar muito importante, situado a cerca de uma légua de Potribú. Disse que entre São Paulo e Itú a vegetação muda três vezes na natureza e de aspecto; um pouco além do rancho de Braga, foi que vi operar-se a terceira mudança. E região tornou-se menos ondulada e a terra de pior qualidade; entre nos "campos"> A vegetação parecia-me, em seu conjunto, a mesma que a de uma grande parte das regiões desprovidas de matas que por tão grande período de tempo percorrí em Goiaz e Minas Gerais: são ainda árvores pequenas e se elevam, muito próximas umas das outras, em meio de ervas e sub-arbustos; encontrei, entre outras, uma gutífera comum nos campos de São Francisco, pequís (caryocar brasiliense, Aug. S. Hil. Juss. Cam. ), quáleas, entre outras a de número 1244, uma leguinosa e até barúleas (brosimum). Parecerá extraordinário, à primeira vista, que, encontrando-me sob o trópico do Capricórnio, se me apresentassem quase que as mesmas plantas existentes aos 14 graus de latitude; mas, não se deve esquecer de que, a grandes distâncias, a vegetação se reproduz sob a mesma forma, seja no sentido dos meridianos, seja no dos paralelos, quando, além disso, são análogas as condiçõesas condições: a bétula nana cresce no Broiker como na Lapônia, e algumas espécies marítimas vegetam, em Auvergne, às margens das fontes de água mineral. Nos campos entremeados de árvores raquíticas, do norte de Minas e do Sul de Goiaz, sente-se um calor fortíssimo; o terreno é ondulado e de pior qualidade do que o das matas virgens. Os campos dos arredores de Itú não são montanhosos, a terra é extremamente arenosa; enfim, durante todo o dia 15 de dezembro, (421) V. mais acima. — Parece, segundo o relatório de um dos presidentes de São Paulo, que a conservação dêsses ranchos não foi abandonada pela administração provincial. (422) V. minha Voyage dans les Provinces de Rio de Janeiro et de Minas Geraes, vol. II. — V. minha Voyage aux Sources du Rio de S. Francisco et dans la Province de Goyaz, vol. II. [p. 224] Esta rápida notícia bastará para mostrar quão perigosa é essa navegação, quasi tão longa quanto a da Europa às índias Orientais. Tãoperseverantes, quanto intrépidos, os antigos paulistas afrontavam todosos perigos : não temiam nem a flecha dos selvagens, nem a fome, nem as intempéries das estações, nem a falta de repouso, nem as privações detoda a sorte, nem mesmo as moléstias pestilentas, que, entretanto, dizi- maram, em meio daquelas regiões desertas, tão grande número de seus primeiros exploradores. Contudo, quando em 1737 rasgou-se o caminho de Goiaz a São Paulo e que comunicações foram estabelecidas entre as províncias de Mato Grosso, Rio de Janeiro e Baía, quando, enfim, foi adotado habitualmente o itinerário de ida ao Pará pelos rios Guaporé, Madeira e Maranhão, a rota de São Paulo a Cuiabá, pelos rios, começoua ser menos frequentada (463). Na ocasião de minha viagem, já havia quinze anos que a mesma estava sendo desprezada e depois de três anos os viajantes a renunciaram completamente. Da mesma só se servia o governo, alguma vezes, para o transporte, a Mato Grosso, de tropas oude munições de guerra. Alguns meses antes de minha passagem por Porto Feliz, uma expedição desse género tinha sido realizada. Não foram as fadigas e as dificuldades da viagem que desgostaram os viajantes; se os costumes dos paulistas tinham se abrandado, não haviam eles, entretanto, perdido, seja o espírito empreendedor, seja a intrepidez: as viagens pelo Tietê, o Paraná e o Camapuan foram substituídas por outrasque não são muito menos penosas, mas que deixam maiores lucros. Parte-se de São Paulo com mulas carregadas; passa-se por Goiaz, e, chegando-se a Mato Grosso, as mercadorias transportadas são vendidas, prosseguindo-se daí para a Baía, onde as mulas são negociadas com umlucro superior a 100% (464). Uma especulação desse género não pode ser levada a fim senão depois de alguns anos, e a nossa imaginação admira-se, quando se pensa na extensão da viagem a fazer e nos sofrimentos a passar, sobretudo durante a travessia dos áridos desertos da Baía, ondea falta de água é comum. É evidente, de resto, que não se servirá maisdo Tietê e dos outros rios, senão para o transporte dos objetos de grandepeso, quando for executado o projeto de se abrir um caminho em linhareta, de Mato Grosso a São Paulo. Parece mesmo, pelos discursos dos presidentes da província perante a assembleia legislativa, que alguns trechos desse caminho já estão construídos; e, em 1843, o presidente de Mato Grosso fez até passar pela picada demarcadora desse caminho o portador de sua correspondência, o qual só empregou dois meses na viagem (465). Antes de chegar a Porto Feliz não sabia eu da pequenaimportância que desde então tinha a navegação pelo Tietê; esperavaencontrar ali pouco mais ou menos o mesmo movimento que há em nossas pequenas cidades situadas à margem dos rios, por menos consideráveisque sejam; mas, minha imaginação ficou infinitamente aquém da ver- dade. Só encontrei em Porto Feliz três ou quatro pirogas empregadaspelos cultivadores da vizinhança para a travessia do rio; nada indicavao porto, a não ser um grande rancho, onde se podia pôr as pirogas aoabrigo do sol e depositar as mercadorias antes do embarque. A maior parte das casas de Porto Feliz pertencem a agricultores, e nessa localidade só vi um pequeno número de lojas e vendas. Constitui a riqueza da região a cultura da cana de açúcar. Os habitantes de PortoFeliz afirmam ser suas terras, que têm côr vermelha, muito mais adequadas a essa cultura do que as terras de Itú; acrescentam que com oauxílio de dez pretos podem produzir mil arrobas de açúcar e mais até;enfim, que não é necessário, depois de arrancada a cana, deixar repousar o terreno por mais de dois a quatro anos. Mas, de outra parte, Porto Feliz está mais longe de Santos do que Itú, gastando-se mais deoito dias para a viagem a Santos; na época de minha passagem por ali, época em que o milho era raro e extremamente caro, os arrieiros exigiam, para o transporte de uma arroba (14, 7 quilos) uma pataca e meia(3 frs. ), importância que, convém não esquecer, tinha valor muito maiselevado do que atualmente. Em 1838, quando o distrito de Pirapora dependia do de Porto Feliz, produziram-se, em todo este último, 73. 113 arrobas de açúcar (2. 924. 520 litros) e 560 canadas de caxaça (2. 541 litros) ; foram colhidos 20. 480 alqueires de milho (807. 200 litros), umpouco de arroz e certa quantidade de feijão. Contavam-se, então, em Porto Feliz, 76 engenhos de açúcar (466). [“Viagem à provincia de São Paulo e Resumo das viagens ao Brasil, provincia Cisplatina e missões do Paraguai”. Auguste de Saint-Hilaire (1779-1853). Páginas 243 e 244] Se relacionarmos este quadro com o que apresentamos (pág. 231)relativamente à população do termo de Itú nos mesmos anos, veremosque ao fim de 23 anos o aumento dos brancos foi, nesse termo, de quasidois terços do numero primitivo, e o dos negros escravos de um poucomais da metade; ao passo que, no termo de Porto Feliz, o número debrancos quasi duplicou, e o dos escravos apenas teve o aumento de umquinto. Tal diferença pode parecer singular à primeira vista, mas éfácil explicá-la, a região de Itú é uma das da província que os brancosocuparam em data mais remota; todas as terras devem ter, desde muitotempo, proprietários, e as imigrações não podiam ter sido muito numerosas. O termo de Porto Feliz, ao contrário, formado muito mais recentemente, está ligado a regiões desertas, e, em 1838, possuía ainda terre- nos sem proprietários; homens emigrados de suas terras, em satisfação do desejo de possuir qualquer cousa, ou por nomadismo natural, ou por qualquer outro motivo para ali se dirigiram, bastante contribuindo para o aumento da população. O aumento dos negros escravos efetuou-se em sentido inverso: os proprietários dos engenhos de açúcar do distrito de Itú, estabelecidos desde tempo mais remoto, eram assaz ricos ou tinham bastante crédito para aquisição de negros ; mas os novos colonos de Porto [p. 245] ". cido nesta última cidade, e, como já disse, pouco tempo antes da minha viagem mandaram um a Sorocaba; mas não é essa a única razão da diferença notável entre os jovens das duas cidades. Os habitantes de Itú, agricultores e sedentários, podem ministrar a seus filhos a educação que o adiantamento da cidade permite. Os mercadores de Sorocaba, ao contrário, fazem frequentemente longas viagens; seus filhos acompanham-nos e passam seus primeiros anos nas estradas, em meio de muares e de camaradas; por tal motivo lhes será muito difícil adquirir alguma instrução, e seus modos devem, necessàriamente, ressentir-se do exemplo dos homens rudes e grosseiros, em cujo meio foram criados (1819-1822). Pareceu-me que em Sorocaba os homens jogavam cartas muito mais do que em qualquer outra parte. Existia também na cidade um bem. Pareceu-me que em Sorocaba os homens jogavam cartas muito maisdo que em qualquer outra parte. Existia também na cidade um beminstalado bilhar; em Itú, também, existia um, e foram ambos os primeiros que vi depois de minha estada no Brasil. Não tive ocasião depresenciar qualquer pessoa ocupando-se nesse jogo; mas não é de crer que o mesmo tivesse sido instalado sem a finalidade que lhe é própria, e a sua existência serve a comprovar que há, na localidade, um pouco menos de indolência do que nas outras partes do Brasil em que atéentão viajara. Os homens muito indolentes resignam-se a fazer exercício quando a necessidade de manter a existência a isso os obriga; nãoo fazem, entretanto, com o fim, apenas de se proporcionar um prazer. Estive em Sorocaba na época do Natal (482) ; houve, então, sete diasde festas. Nessa região e nas outras partes do Brasil que até o momentoeu tinha percorrido, pouco se trabalha nos dias úteis; nos dias de festanenhum trabalho se executa; essa é a única diferença entre os dias úteis e os de festa. Os deveres de cristão estão cumpridos quando se ouviuuma missa comum; as missas solenes são realizadas unicamente quandoalguma confraria ou qualquer particular paga os respectivos gastos, e não se conhece nenhuma das outras solenidades da igreja. Como jádisse noutro ponto (483), as festas do Natal são a épocha das reuniõesda família, mas decorrem tristemente ; a gente se aborrece só, da mesmaforma que se aborrece em numerosa companhia. Nada de passeios, nadade excursões campestres, nada que possa excitar a alegria; a gente se recosta indolentemente, entretendo-se longamente com assuntos os mais comuns e acaba se aborrecendo. Antigamente, quando um estrangeiro chegava a Sorocaba, recebia a visita dos principais moradores da localidade, como, em 1813, ainda era costume em Minas Gerais (484). Como muitas vezes tais visitas não eram retribuídas, esse hábito caiu em desuso. Os estrangeiros em viagem pelo Brasil parecem acreditar que nada devem aos brasileiros, e que estes tudo lhes devem; eu vi alemães, principalmente, tratar o povo brasileiro com um desprezo que nada justificava. Há nações como há indivíduos isolados; todas têm seus defeitos, todas têm algumas qualidades boas, e estas, como os defeitos, resultam de tais e tais influências. Nesse sentido poderia citar uma cidade da Alemanha, na qual, há 40 anos, falava-se das ciências e das letras com um menosprezo que nunca vi ninguém demonstrar entre os brasileiros. A cidade em questão é um porto de mar; fazia na época negócios com o mundo inteiro, o comércio absorvia todo o tempo e todas as faculdades dos seus habitantes, não lhes restando nenhum momento para pensar em qualquer outra cousa. E que país se tem encontrado em condições mais prejudiciais do que o Brasil?Desde o reinado de Filipe, seus habitantes foram, durante dois séculos, de tal forma sequestrados dos outros povos, que Commerson, aportando no Rio de Janeiro em 1767, foi obrigado a disfarçar-se em marinheiro para poder colher algumas plantas. Os brasileiros só tinham relações com os portugueses, que os oprimiam e os cobriam de desprezo; encontravam em seu próprio país poucos meios de se instruírem; nada lhes excitava a emulação, e, para dominá-los, eram mantidos na indolência e na torpeza. Depois, todos os vícios em plena capital do país; nuvens de aventureiros, provindo de todas as nações, invadiram a terra, autorizando-os a crer que a Europa estava mais degrada do que a América, aventureiros que lhes deram tristíssimos exemplos. [p. 254] costume em Minas Gerais (484). Como muitas vêzes tais visitas não eram retribuídas, êsse hábito caíu em desuso. Os estrangeiros em viagem pelo Brasil parecem acreditar que nada devem aos brasileiros, e que êstes tudo lhes devem; eu vi alemães, principalmente, tratar o povo brasileiro com um desprêzo que nada justificava. Há nações como há indivíduos isolados; tôdas têm seus defeitos, tôdas têm algumas qualidades boas, e estas, como os defeitos, resultam de tais e tais influências. Nesse sentido poderia citar uma cidade da Alemanha, na qual, há 40 anos, falava-se das ciências e das letras com um menosprezo que nunca ví ninguém demonstrar entre os brasileiros. A cidade em questão é um pôrto de mar; fazia na época negócios com o mundo inteiro, o comércio absorvia todo o tempo e tôdas as faculdades dos seus habitantes, não lhes restando nenhum momento para pensar em qualquer outra cousa. E que país se tem encontrado em condições mais prejudiciais do que o Brasil? Desde o reinado de FILIPE, seus habitantes foram, durante dois séculos, de tal forma sequestrados dos outros povos, que COMMERSON, aportando no Rio de Janeiro em 1767, foi obrigado a disfarçar-se em marinheiro para poder colhêr algumas plantas. Os brasileiros só tinham relações com os portugueses, que os oprimiam e os cobriam de desprêzo; encontravam em seu próprio país poucos meios de se instruírem; nada lhes excitava a emulação, e, para dominá-los, eram mantidos na indolência e na torpeza. Depois, todos os vícios em plena capital do país; nuvens de aventureiros, provindo de tôdas as nações, invadiram a terra, autorizando-os a crer que a Europa estava mais degrada do que a América, aventureiros que lhes deram tristíssimos exemplos. De resto, a boa companhia do ouvidor de Itú, que então residia em Sorocaba, e a de um dos mais recomendáveis moradores da cidade — RAFAEL TOBIAS DE AGUIAR —, não me deixaram lamentar a perda de algumas visitas rápidas e de caráter meramente cerimonioso. Eu travara conhecimento no Rio de Janeiro com RAFAEL TOBIAS, e, quando me encontrava a pequena distância de Sorocaba, mandei um emissário prevení-lo de minha chegada. Teve êle a bondade de me arranjar uma bela casa, pela tarde enviou-me um excelente jantar e continuou a fazê-lo até o momento de minha partida da cidade. Eu teria ficado encantado, confesso-o, de tomar refeição em sua companhia; envergonhava-me de me aproveitar de uma hospitalidade tão amável, sem poder demonstrar a quem ma concedia que eu não era indigno de tal favor; parecia-me encontrar-me na situação de quem come na hospedaria, sem pagar. Todos os dias, de resto, eu me esforçava, na forma do possível, para(Nota de rodapé)(484) V. minha Voyage dans le District des Diamants etc. I, 39. [p. 255]“avistar meu excelente hospedeiro, e dentro em pouco soube o motivo pelo qual o mesmo não me admitia em sua mesa — tinha êle por costume tomar as refeições em companhia de sua mãe e suas irmãs, e, como estas senhoras não queriam aparecer a extranhos, não podia receber-me Rafael Tobias de Aguiar, cujo conhecimento eu devia ao nosso amigo comum João Rodrigues Pereira de Almeida, barão de Ubá, era, na ocasião, se bem que muito jovem ainda, major da guarda nacional, tendo exercido, mais tarde, em sua província, um posto mais importante, pois foi presidente da mesma, desde o mês de novembro de 1831 a novembro de 1835. ” (“Viagem à provincia de São Paulo e Resumo das viagens ao Brasil, provincia Cisplatina e missões do Paraguai”. Páginas 255 e 256. Auguste de Saint-Hilaire em 1819) É evidente que tal asserção resulta de uma dessas inadvertências quasi impossíveis de evitar num trabalho tão extenso como o Dicionário. Como muito sensatamente ponderam os próprios autores dessa obra (l, 159), foi em 1590 que Sardinha fez sua descoberta. Devo acrescentar que não encontrei, em nenhuma das obras que pude consultar, a denominação Itapebussú; mas, é evidente, que foi a pequena vila fonuada nos arredores de Araçoiaba pouco tempo após a descoberta da mina de ferro da montanha desse nome, e de onde os habitantes se retiraram para Sorocaba antes do ano de 1626 (Varnh. in EsHW. Jour. II, 261). Entretanto, é necessário admitir a ocorrência de erro relativamente a alguma das datas indicadas, porque o convento de Sorocaba não pode ter sido fundado em 1667, a vila em 1670 e os habitantes de Itapebussú à mesma se terem transportado em 1626. Itapebussú é, provavelmente, o local indicado por Van Laet {Orh. Nov. 580) sob o nome de São Filipe. [p. 249]avistar meu excelente hospedeiro, e dentro em pouco soube o motivo pelo qual o mesmo não me admitia em sua mesa — tinha ele por costume tomar as refeições em companhia de sua mãe e suas irmãs, e, como estas senhoras não queriam aparecer a estranhos, não podia receber-me. RAFAEL TOBIAS DE AGUIAR, cujo conhecimento eu devia ao nosso amigo comum JOÃO RODRIGUES PEREIRA DE ALMEIDA, barão de Ubá, era, na ocasião, se bem que muito jovem ainda, major da guarda nacional, tendo exercido, mais tarde, em sua província, um posto mais importante, pois foi presidente da mesma, desde o mês de novembro de 1831 a novembro de 1835. Ao ouvidor já eu tinha visitado, como acima relatei, em minha passagem por Itu; encontrei-o nas forjas do Ipanema, sobre as quais falarei a seguir, e em sua companhia regressei a Sorocaba; nesta cidade, convidava-me quase diariamente para jantar, e não cessou de me cumular de gentilezas. No dia seguinte ao de minha chegada a Sorocaba — 22 de dezembro — fui a Ipanema (485), situada a 2 léguas e 1/2 da cidade. O terreno que se atravessa para ali chegar é irregular, e coberto de matas e de campos. A pouca distância de Sorocaba, a estrada bifurca-se em dois ramos; uma grande cruz de ferro, fundida em Ipanema, indica o que conduz à forja do mesmo nome. Quando se atinge esse local, não se pode deixar de admirar a sua extensão, o movimento ali reinante e a beleza da paisagem. Nada tinha visto de semelhante desde que me encontrava no Brasil. As forjas do Ipanema estão instaladas na montanha de Araçoiaba (486), antigamente conhecida pela denominação de Morro do Ferro, de onde se extrai o minério e que é recoberta de matas. As edificações de que se compõe o estabelecimento formam uma espécie de anfiteatro, abaixo do qual corre o rio Ipanema, um dos afluentes do rio Sorocaba. Quando se chega às forjas, atravessa-se o Ipanema por uma ponte bastante larga. Em frente vê-se um belo lago cavado pela mão do homem e que serve de represa às águas do rio. Esse lago é cercado de matas, e algumas ilhas pequenas elevam-se do meio de suas águas. A ponte é dividida em duas partes ou, melhor dizendo, existem(485) Ipanema vem de yg (rio, água) e panemo (sem valor) — o rio sem valor. O padre RUIZ DE MONTOYA diz que ypane significa rio sem peixe (Tes. Guar. 261-bis), o que equivale à explicação acima. (486) Araçoiaba não pode vir senão das palavras araçoeya (a aurora) e mbaé ou mba (coisa, fantasma) — RUIZ DE MONTOYA, Tes. Guar. -bis, 212 — coisa fantasma da aurora. O nome Araçoiaba ou Araçoeyambae foi dado a essa montanha, provavelmente por alguma tribo indígena que a avistava do lado de leste, e seu isolamento podia fazer considerá-la como um fantasma. Lê-se, na Corografia Brasílica (I, 203) e no Dicionário Geográfico do Brasil (I, 68), que a palavra Araçoiaba quer dizer — que cobre o sol. Nenhum elemento encontrei, devo confessar, que confirme tal asserção. [p. 256]264AUGUSTE DE SAINT-HILAIREenquanto estávamos no Brasil, descreviam na Europa uma parte das produções dêsse país. Cumulando-o de gentilezas e tratando-o com intimidade consegui forçá-lo a ter para comigo trato simples e afetuoso; mas o mesmo não ocorria quando êle se encontrava com VARNHAGEN e NATTERER. Ao regresso de minha viagem ao Sul remeti-lhe grande quantidade de cartas de recomendação para os meus amigos do Rio Grande e de Montevidéu os quais acolheram-no muito bem. Escreveu-me, em 24 de abril de 1824, para apresentar seus agradecimentos e comunicou-me que inutilmente solicitara passaportes para atingir Mato Grosso através dos Estados de FRANÇA, pelo que contentou-se em percorrer a província do Rio Grande do Sul e a Banda Oriental, e que estava em vésperas de voltar a São Paulo, passando pelo sertão de Lages. Terminava a carta dizendo-me esperar que ainda nos encontraríamos. Morreu afogado no rio Doce, em 1831. Em seus Anais da Província do Rio Grande do Sul, 2. ª edic. 32, J. F. FERNANDES PINHEIRO traçou um belo elogio dêsse homem distinto. SELLOW, disse êsse autor, fornecera-lhe graciosas notas, das quais se utilizou; determinara na província do Rio Grande várias posições geográficas e estudara os minerais da mesma província, sem prejuízo de importantíssima coleção de plantas que organizou. Fiz, com SELLOW e o ouvidor de Itú uma pequena excursão, muito agradável, a-pesar-da chuva que durante a mesma caía. Fomos visitar a uma légua acima de Sorocaba, uma queda de água formada pelo rio do mesmo nome, e ainda mais bela do que a de Itú. Descrevendo uma curva, o rio Sorocaba cai de golpe, de uma elevada altura, sôbre massas de rochedos; suas águas saltam, espumam, para em seguida correrem pacificamente entre margens cobertas de matas virgens. Grandes árvores estendem seus ramos por cima da cascata, embaixo da qual há uma ilhota onde crescem alguns arbustos, e, ao lado, vê-se, entre as folhagens, um fio de água que, escapado do rio, faz mover um moinho (497). Desde minha volta de Ipanema a Sorocaba, até o dia 6 de janeiro, não cessou de chover, razão pela qual não pude prosseguir a viagem. (497) “Existe, a uma légua da vila de Sorocaba, no rio de igual nome — diz VARNHAGEN — uma queda de água de cêrca de 300 pés ingleses, à qual se dá o nome de Salto do Vuturatí. O rio Sorocaba tem duzentos pés de largura e tem o livre curso impedido por muitas outras cascatas menores; entretanto, apresenta longos intervalos em que corre suavemente, prestando-se à navegação. Formou êsse rio, em sua margem direita, uma vasta gruta, cuja abóbada é ornada por numerosas estalactites, e que os moradores da região chamam Palácio”. (Beobachtungen, etc. in Eschw. Jour. II, 253-254. ) E’ possível que Vuturatí provenha de itú (cascata), ra (cousa semelhante, que se parece), ty (brancura). — (RUIZ DE MONTOYA, Tes. Guar. 164-bis, 335-bis e 385). Pela decomposição da palavra acima feita, equivaleria a mesma a cascata branca, nome que, certamente, foi dado a essa queda de água, por causa da alvura de suas espumas. [p.
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