Sorocaba, a velha "Çorocaa" dos incolas, coloridamente vestida de "palas" e "ponches" de seus tropeiros, fôra notificada de sua elevação a cidade, pelo mesmo decreto que iguais direitos concedia às vilas de Taubaté, Campinas, Itu´, Coritiba e Paranaguá. A noticia, ainda que relevante, não causou, por certo, o alvoroço que era de se esperar. Ia forte, pela terra paulista, em 1842, o descontentamento contra a politica dominante, em São Paulo representada pelo barão de Monte Alegre. E o descontentamento dos briosos sorocabanos era daqueles que um favor concedido displicentemente, por um governador, não bastava para o apagar. A mesma impressão de opressão e tirania, de desordem administrativa se alastrava, sulcando fundo o ambiente de toda a Provincia e trabalhando surdamente e predispondo os espiritos, contra a politica dominante que, fechando um círculo de ferro em torno do monarca adolescente, valia-se da situação excepcional, em que se via o imperio, para a seu bel-prazer, dirigir os negocios da nação. Essa onda de desagrado foi-se avolumando, avolumando. Estava preparada a Revolucão Liberal. Dirigiu-a, em nossa Provincia, além de outros nomes de real prestigio, o padre Feijó. O ex-regente do imperio, aquele impressionante vulto de sacerdote e estadista, que tão energicamente fizera sucumbirem, com pulso ferreo, quaisquer veleidades de revolta, impedindo o esfacelamento do imperio brasileiro, durante os agitados dias em que o dirigira; aquele mesmo que ontem responsabilisára os que procuravam trazer a anarquia, para a insipiente nação, hoje serenamente aceita a chefia de uma revolta. E, suas mãos impolutas de sacerdote, aquelas mãos que durante longos anos se afizeram a traçar piamente o signal da cruz e o espalmar benções, comandam homens que, mal aguerridos, se oferecem em holocausto à patria. E que revolução estranha era aquela, sem preparo bélico, sem longas conversações que preci- (. ) E que revolução estranha eraaquela, sem preparo bélico, semlongas conversações que preci-sassem de ficar cuidadosamentesecretas, sem politiquice enfim. Tudo, puro idealismo. O padre Feijó sempre fôra as-sim. Sevéro, rude mesmo, nocumprimento do dever, porém, um sonhador. O mesmo idealismo que o le-vára a enfrentar todas as hos-tilidades na côrte, o mesmo zelopela monarquia brasileira queo fizéra enfrentar sózinho, ru-des embates, levava-o a dirigiruma revolução ainda. O mesmo sonho de brasilidadeguiava-o sempre. Vejamos estas linhas iniciais da proclamação dos revoltosos de 42, publicadas no "O Paulistano": — "Paulistas!Os fidelíssimos sorocabanos, vendo o estado de coação a que se acha reduzido o nosso augusto imperador, o sr. d. Pedro II, por esta oligarquia, sedenta de mando e riquezas, etc. etc. ". Ressalta bem claramente des-tas linhas o espírito da Revo-lução Liberal. Sorocaba — a cidade paulista que nos é tão querida, berço que é de nossa família materna, — comemora neste ano de 1942, duas datas muito significativas em sua história. A primeira ocorreu a 5 de fevereiro, quando de sua elevação a cidade — e que longo caminho briosamente vencido, desde que os moradores da extinta Vila de Itapebussu´, "transportando-se para Sorocaba, nela ergueram o pelourinho, marcoda dignidade das vilas". A segunda será a 17 de maio, quando se comemorará o centenario de sua gloriosa revolta, na qual, tão somente levada peloseu acendrado amor à terra, e espírito de independencia, tendo à sua frente vultos dignos detodo o apreço, entre os quais sedestaca o perfil sereno do padre Feijó, atirou seu grito de guerra que abalou grandementea Provincia e se fez sentir fun-damente na côrte, determinando a vinda do bravo general Lima e Silva, aquele mesmo queas lides guerreiras nos campossulinos, consagrariam — o famoso e heroico Duque de Caxias. DIRCE DE MELLO [p.
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