www. brasilbook. com. br ••••••AnoIDATIVOS2 - EDITAR - DORA DORA2Trabalho sobre Fernão Cabral TaÍde (data da consulta)Temas (1)Pessoas
(2) https://brasilbook. com. br/y. asp?r=33269Copiar link ONLINE - DORA - ADMLUCIA - postarMARCAR!https://app. emaze. com/mobile/@actzwzcq?tgjs=0#/12º EMBStephanie NiettoLarissa PinzLarissa AzevedoMarco Ginez1/23O senhor de engenho e a santidade Jaguaripe Surpresas e mistérios não faltaram na história da Colônia. Na capitania da Bahia, em pleno século XVI, o senhor de engenho Fernão Cabral Taíde protegeu um violento movimento religioso indígena em suas terras, a santidade Jaguaripe. O objetivo principal do levante, que misturava cultos e ritos indígenas com os dogmas do catolicismo, era lutar contra a dominação europeia e, para isso, prender e matar portugueses. Relações de poder e interesse por mão de obra, patriarcalismo e sincretismo religioso foram as características desses acontecimentos singulares que marcaram o imenso e trabalhoso projeto de colonização portuguesa na América. E como um poderoso e ambicioso senhor de engenho português associou-se aos indígenas?Casa- grande, típica propriedade dos senhores de engenho. Capela em segundo plano. Origens e Descendências Fernão Cabral Taíde, senhor de engenho, nasceu aproximadamente em
1541, em Silves, antiga capital do Algarve, sul de Portugal. Não se sabe ao certo quando veio para o Brasil, mas as informações existentes confirmam sua presença na Bahia em
1571. Homem de fartos bigodes e barba, de origem nobre, ele foi casado com Dona Margarida da Costa, portuguesa, e juntos tiveram sete filhos: Manoel Costa, Beatriz, Diogo Fernandes, Ana, Francisca, Bernardo e Nuno Fernandes. Alguns indicam a possibilidade de Fernão Cabral Taíde ser descendente direto de Pedro Álvares Cabral; há indícios e pistas que poderiam levar a esse caminho, mas não há provas suficientes do parentesco. Engenho hidráulico de açúcar. A propriedade de Fernão Taíde situava-se às margens do rio Jaguaripe, localizada no sul do recôncavo baiano. Ele era dono de um engenho hidráulico, repleto de escravos africanos, indígenas e funcionários assalariados livres. Fernão Cabral foi um típico senhor de engenho, arrogante e orgulhoso. Certamente se colocava em posição de superioridade em relação aos outros habitantes da Bahia. Ele se sentia e se enxergava de modo diferente, de linhagem e origens distintas e a todo instante se esforçava para que essa diferenciação se tornasse visívelO poder e os pecadosOs senhores de engenho, no geral, pareciam desfrutar de todo tipo de poder em seus domínios particulares e eram indiferentes a qualquer lei, criavam suas próprias regras baseadas em seus desejos e anseios individuais. Muitas vezes o poder do Estado português se confrontava com o poder local e particularizado desses senhores, que costumavam levar vantagem sobre o projeto colonizador. Eles desrespeitavam a Igreja, as missas e os sacramentos, eram adversários do sentido missionário e religioso da colonização. Entravam em atrito com os padres jesuítas que viam na colônia a chance de se formar um Novo Mundo cristão, perfeito e sem pecados, a partir da figura do indígena e de sua possível conversão. Fernão Cabral Taíde entrou em conflito com os religiosos ao sequestrar seis índios do aldeamento e da Igreja Inaciana de São João. Alegava que os padres sempre roubavam os índios para a catequese, diminuindo a mão de obra nas fazendas. O caso foi parar na justiça e o senhor de engenho foi derrotado. Os religiosos afirmavam que os poderosos tratavam os índios não como filhos, mas como escravos e impendiam os colonos de ingressar nos aldeamentos da Companhia de Jesus. Como vimos, os religiosos estavam no Brasil desde os primeiros tempos do povoamento da colônia e tinham, inicialmente, certeza de que poderiam formar uma nova Cristandade nos trópicos. Segundo essa visão, os índios eram verdadeiros cristãos em potencial, ingênuos, eles eram como crianças no agir e no pensar e precisavam de proteção dos evangelizadores, que rapidamente os batizariam. Os religiosos não eram contra o exercício de poder sobre os índios, mas questionavam as maneiras e os métodos como isso era feito. Fernão Cabral era o típico senhor de engenho do Nordeste brasileiro, cheio de poderes e escravos, fazedor de suas próprias leis e vontades. Ele mantinha constantes relações sexuais com várias índias, mas dizia que isso não era pecado, pois elas não eram mulheres brancas e honradas. A mulher indígena não era bem vista para gerar os filhos dos brancos e por isso os colonizadores escreviam com frequência para a Europa, pedindo mulheres. Certa vez, Fernão Cabral violentou uma virgem escrava índia convertida ao cristianismo, em algum canto das suas terras. Feitores e funcionários da Coroa e outros europeus também se aproveitaram sexualmente das indígenas. Mesmo reagindo, muitas foram levadas à força, sendo obrigadas a conviver com situações humilhantes. Os próprios religiosos pediam ao rei o envio de mulheres brancas para o Brasil. Não interessavam suas condições sociais, nem procedência familiar, o importante mesmo era serem europeias e quererem constituir famílias: prostitutas, órfãs, abandonadas, qualquer uma, desde que viessem para casar. Nesse período, era comum o discurso de que o estupro ou a “violação” de índias não era condenável, devido inferioridade delas. Diante da visão europeia, as ameríndias eram “mulheres públicas”, “mulheres de má vida”, “prostitutas”. O olhar português não via nas indígenas uma “humanidade conhecida”, pois tinham pele, cabelos, rosto, olhar e comportamentos diferentes. Se o mesmo ato fosse feito com virgens mulheres brancas, o pecado seria grave e haveria o temor de sofrer e ser queimado eternamente nas chamas do inferno. Aparentemente, porém, o poderoso Fernão Cabral Taíde achava que estava acima até mesmo dessa premissa católica. Há indícios de que ele ter violentou a própria cunhada, Luísa de Almeida, na capela de seu engenho. Como a maioria dos homens de sua época, o senhor de engenho nutria verdadeiro desprezo pela figura feminina, pelo compromisso do casamento, cultivando a indiferença para com os valores da IgrejaÍndia Tupi - GuaraniEscravidão Fernão Cabral Taíde foi ator principal em episódio que causou escândalo na Bahia. Certa vez, Isabel, escrava índia, contou para sua esposa, Dona Margarida, alguns segredos de seu senhor, provavelmente algo grave envolvendo traição. Denunciada e entregue, a jovem índia sofreria destino impensável. Com ódio, raiva e descontrole, o senhor do engenho de Jaguaripe demonstrou todo o seu poder e desprezo pela figura humana. Ele deu ordens para seu feitor Domingos Camacho e para o negro João Guiné lançarem Isabel viva na fornalha Ela foi pega à força, teve os cabelos puxados e quase arrancados; se batia e esperneava, gritava e inutilmente pedia socorro. Em meio a roupas rasgadas, chutes e socos, ela os arranhava e, chorando e salivando, foi atirada covardemente ao fogo, viva e grávida. Dentro da fornalha, a menina indígena gritava, pedia socorro, chamava por Deus, Nossa Senhora, por todos os anjos, chorava e implorava ajuda. Enquanto seu corpo queimava, sua barriga se abriu e foi possível ver o feto, ainda inacabado, igualmente se queimar. Fishing in modern RomeA maior parte dos negros no Brasil era procedente de São Jorge da Mina, Congo ou Angola; Guiné era o nome genérico que se dava à costa da África. A maioria deles falava o idioma banto e, normalmente, eram trocados por cavalos, tecidos, cobre, trigo, armas de fogo e espelhos. A violência na colônia foi uma das formas de controle de comportamento. A repressão era prática constante na relação entre senhores e cativos: correntes de ferro, gargalheiras, algemas, tenazes, tronco, máscara de folha de flandres, anéis de prender dedos, ferros quentes com a letra “F” para os que fugiam ou com as iniciais do senhor, chicotes e palmatória, longas surras de açoites dadas por dois açoitadores ao mesmo tempo eram os mais comuns instrumentos do terror colonial. Escravos açoitados por três horas seguidas, pendurados pelos pulsos com pesos amarrados aos testículos, anéis de ferro nos dedos dos pés durante o dia todo ou com correntes amarradas na cintura, dando volta ao corpo, eram assim mesmo obrigados a cortar capim. Amarrados em cama de vento, ou seja, presos e suspensos pelos pulsos e tornozelos, escravos eram açoitados sem parar; quando desmaiavam lhe colocavam sal e limão nos olhos e água nas nádegas, passando a noite presos em correntes para no dia seguinte serem posto ao sol, com argola no pescoço, sem comida e sem água até o fim da noite Na maioria das vezes, o castigo era público e realizado no lugar de maior trânsito de pessoas da vila ou da cidade e, quase sempre, praticado pelo próprio senhor. Pelo olhar dos poderosos, o castigo deveria ser justo, corretivo e educativo; ele marcaria a submissão do corpo do escravo e era uma reafirmação do poder senhorial perante a sociedade. Suas marcas e cicatrizes serviriam para a vítima nunca esquecer o que fez de errado, símbolo para lembrar o que deveria fazer de certo e reafirmação de sua condição de escravo. As cicatrizes eram as leis do Estado impressas no corpo do prisioneiro. O corpo do escravo, nesse caso, se tornava um verdadeiro texto capaz de ser lido; ao olhar para ele era possível saber de onde veio e se já tinha descumprido as leis. Escravos com muitas cicatrizes valiam pouco, pois se revoltavam mais do que os outros. A violência não era a única forma de controle; ela era a mais usada por senhores como Fernão Cabral, mas outros optavam por diferentes meios, como a negociação, a valorização das boas atitudes do escravo, a promessa por liberdade em troca de fidelidade, prêmios em dinheiro e a permissão de constituir famílias. A fabricação do açúcar era, sem dúvida, a grande tecnologia do período, bastante complexa, custosa e que dependia totalmente da confiança do senhor nos escravos, pois qualquer falha ou sabotagem no processo, feitos pelos cativos, poderia colocar todo o investimento a perder. A santidade ameríndia de JaguaripeAs santidades ameríndias foram verdadeiros refúgios para os índios escravizados ou aldeados, cansados de sofrer as mazelas da colonização. Assim, a santidade de Jaguaripe era um movimento religioso resistente aos portuguesesRitual indígenaOrganizava revoltas em toda a capitania que pregava o fim do cativeiro indígena e a morte ou escravização dos portugueses. A santidade na Bahia se formou por volta de
1580 e 1585; os indígenas iniciaram suas práticas no sertão de Frio Grande, em algum trecho da serra de Orobó, no sertão de Jaguaripe. Sabe-se que os indígenas foram abrigados por Fernão Cabral Taíde em
1586 e, meses depois, sofreram a derrota final. Pouco se sabe sobre o líder da santidade: índio caraíba, batizado como Antônio, em Ilhéus, de onde fugiu para fundar a santidade. Nascido tupi e educado por jesuítas, Antônio se mostrava meio cristão e meio tupi. Durante muito tempo, negros, índios, portugueses, mamelucos e cristãos-novos foram obrigados a conviver e a dividir espaços comuns. Nesse contexto, surgiu nas matas do recôncavo baiano uma santidade religiosa, nem cristã, nem pagã. Para piorar a situação, essa entidade recebia a ajuda e a proteção de um “homem bom” da Bahia, grande proprietário de terra, senhor de açúcar: o próprio Fernão Cabral Taíde. A mata úmida e fechada revelava a grande contradição da aventura colonial: lá estavam as riquezas cobiçadas, ouro e escravos; lá estavam as origens de um movimento que planejava matar e aprisionar os portugueses;A santidade como massa de manobra Fernão Cabral Taíde enviou uma expedição em
1585, liderada por Domingos Fernandes Nobre, chamado de Tomacaúna, para atrair os índios às suas terras, prometendo abrigo, proteção e, principalmente, liberdade de culto. E foi assim que o engenho de Fernão Cabral tornou-se sede da santidade. Às autoridades ele dizia estar armando uma emboscada para conseguir a confiança dos indígenas e, em seguida, acabar com o movimento. Ao mesmo tempo, o governador Manuel Teles Barreto havia formando uma milícia oficial para tentar destruir os indígenas revoltosos. Duas expedições, portanto, foram enviadas ao mesmo tempo em busca da santidade. A primeira, de Fernão Cabral, ia com a “justificativa” de protegêla, e a segunda, oficialmente convocada, armava verdadeira cruzada contra os infiéis em plena mata nordestina; ambas aparentemente tinham o mesmo objetivo: acabar com a santidade, mas uma queria liquidar os indígenas de modo imediato e a outra, de modo lento. Fernão Cabral conseguiu convencer o governador que a sua era a melhor tática. Assim, a milícia oficial de Álvaro Rodrigues recebeu ordens de retornar, sem, contudo, deixar de cometer atrocidades pelo sertão. A santidade como massa de manobraO próprio Álvaro Rodrigues afirmou que, durante sua campanha, se deparou com vários indígenas, “feiticeiros”, “bruxos”, caciques velhos desafiadores do poder de Deus e do monarca e que esses lhe diziam não ter medo das armas europeias. Resultado: dezenas de índios mortos a sangue frio tiveram suas cabeças arrancadas aos berros e choros, na frente de mulheres e crianças, em meio às expressões de valentia e honra. De qualquer forma, as tropas enviadas por Fernão Cabral Taíde conseguiram trazer parte da santidade para seus domínios. Esse grupo era composto de cerca de setenta índios, com destaque para a profetisa tupi Santa Maria, que parecia naquele momento assumir o controle e liderança da seita rebelde. O líder Antônio não se deslocou com o resto do grupo, ficando escondido nas matas; ele jamais pisou nas terras de Fernão Cabral. As estratégias militares de Fernão Cabral aparentemente tinham lógicas internas e pareciam responder aos interesses gerais de religiosos, senhores de engenho e autoridades. Mas o tempo passava e Fernão Cabral jamais destruía a santidade; pelo contrário, a protegia em suas terras, afirmando respeito pelas crenças, frequentando os cultos e impedindo que todo e qualquer forasteiro debochasse ou caçoasse das manifestações ocorridas nas cerimônias dos índios. Ele parecia ter outros interesses. Entretanto, o principal motivo que o levou a atrair a santidade para suas terras foi mesmo sua ganância e sua imensa vontade de ter o controle sobre um número enorme de índios para, futuramente, escravizá-los e fazê-los trabalhar suas propriedades. Para isso, ele precisou tratá-los bem e, por um tempo, mostrar-se devoto da santidade, fazendo-se passar por Tupã. Na medida em que a santidade crescia, vários índios e negros de diversas regiões da Bahia se dirigiam para o engenho, a fim de se tornar seguidores e, como consequência, de receber a proteção de Fernão Cabral, aumentado sempre o contingente de pessoas aptas para o trabalho na lavoura. Taíde tinha, com isso, abastecimento constante de mão de obra sem precisar comprar escravos, sem depender de bandeirantes, traficantes de negros e, ainda melhor, livrando-se dos jesuítas que iriam, certamente, querer isolar esses indígenas em suas missões religiosas. [5] O senhor de engenho foi perdendo, porém, controle da situação e sofreu pressão do governador da Bahia, Teles Barreto, e de diversos donos de terras, preocupados com a perda de cativos e, sobretudo, pela organização de revoltas. Uma nova campanha oficial foi organizada por Bernaldim Ribeiro com o intuito de acabar, de uma vez por todas, com a santidade de Jaguaripe. Fernão Cabral perdeu o sonho de dominar e os índios perderam o sonho de não serem dominados; postura internamente contraditória que marcou, desde o início, a formação da santidade. Processos denúncias e o Tribunal inquisitorial"Em junho de
1591, o Santo Ofício da Inquisição portuguesa chegou à Bahia"O visitador-geral era Heitor Furtado de Mendonça. Nesse período, Portugal estava sob domínio espanhol e seu rei era Filipe II da Espanha. a visita de inquisidores averiguavam, sobretudo, pecados cometidos contra a fé e a presença de cristãos-novos. Os inquisidores trouxeram novas preocupações e novos campos de ataque além do combate aos judaizantes, como delitos sexuais, sodomia, bestialidades e feitiçaria. Era preciso controlar os fiéis, os súditos da Coroa e, se possível, padronizar seus comportamentos. Nervosismo, pânico e ansiedade tomavam conta dos denunciados que, tremendo e, muitas vezes, gaguejando, faziam de tudo para fugir dos confiscos dos bens e das chamas da fogueira, verdadeira teatralização do inferno na Terra. O inquisidor Heitor Furtado de Mendonça, com cerca de 35 anos, chegou doente e se estabeleceu, então, no colégio dos padres da Companhia de Jesus. Já recuperado, em
1591 iniciou de fato, os trabalhos da visitação: todos deveriam confessar seus delitos; todos deveriam acusar as faltas dos outros, tudo em nome da santa fé católica, independentemente de suas origens e posições sociais. A Inquisição estava acima de todos, e todos abaixo de Deus. O visitador certamente abusaria do poder: colocava-se e era colocado como autoridade máxima. Todos o reverenciavam, beijavam seus pés, pois ele estava ali em nome do papa e como representante do rei português. Fogueira da Inquisição - Homem sendo queimado na fogueiraForam ao todo 70 denúncias e 24 confissões recolhidas pelo visitador, que se transformaram em 17 processos. Domingos Fernandes Nobre, o Tomacaúna, disse em sua confissão que os fiéis da santidade faziam batismos entre si, em candeias acesas, lançando água pelas cabeças dos batizados, com altares, pias de água benta, sacristia e adoravam, num altar, um ídolo de pedra de uma figura de animal, usado até mesmo em procissões. Alguns afirmaram que a santidade se intitulava “Nova Jerusalém”. Tomacaúna confessou outros pecados cometidos por ele mesmo: cantava e dançava com os índios, teve várias esposas, se rasgou na coxa de forma ritual, assim como faziam os naturais da terra, e se pintou como eles. A situação era comum no mundo colonial para um mameluco; vivendo em meio aos índios, com contato direto e cotidiano, era compreensível a existência de personagens como ele, ora de um lado, ora de outro. No entanto, com medo da Inquisição, afirmou que só fez essas coisas para ganhar a confiança dos índios para, em seguida, aprisioná-los em nome da fé católica. Em sua confissão, Fernão Cabral Taíde, com medo das punições e sabendo exatamente para quem falava, deixou claro que a santidade de Jaguaripe era uma ameaça para o catolicismo e que ele queria destruí-la no momento certo. Ele descreveu: “rezavam e adoravam certas coisas por conta, invertiam os cultos cristãos e havia um que se chamava papa e uma gentia que se chamava Mãe de Deus, e o sacristão, e tinham um ídolo a que chamavam Maria”. Sobre a escrava Isabel, lançada viva e grávida na fornalha, Fernão Cabral, cinicamente, contou outra versão: “a indígena estava inchada e quase morrendo de comer terra e queria servir de exemplo para os outros índios; disse que a queimassem apenas para causar medo, mas não queria que a queimassem, foi apenas para assustá-la. No dia seguinte, quando soube, me pesou muito”. Essa situação era bastante atípica para a Igreja Católica. Preparada para lidar com o judeu, com o islâmico, com bruxas e demônios europeus, agora se via obrigada a avaliar uma santidade ameríndia, considerada diabólica e, ainda, cúmplice de um rico português católico senhor de engenho. Fernão Cabral foi um dos mais denunciados, mesmo após a santidade ter sido destruída. Parte frontal do Regimento da Inquisição de Lisboa. Detalhe para os anjos que protegem as armas da Inquisição: a cruz e a espada. Ele foi condenado a sair em auto público celebrado na Bahia, ouvir a leitura de sua sentença na sede da Igreja e pagar altíssima pena em dinheiro. Foi desterrado por dois anos da Bahia, mas não foi preso, nem condenado a cárcere, tortura ou morte pela Inquisição. Pena leve, de acordo com os próprios padrões da época, o que mostra que por ter poder e prestígio, um senhor de engenho ganancioso, arrogante e violento poderia sair quase imune às denúncias e atitudes que tomou ao longo de sua vida. Fernão Cabral Taíde faleceu por volta desse mesmo ano de
1591 no Nordeste. Religião e religiosidade no Brasil colônia1/231/23A existência da santidade de Jaguaripe revelou a complexidade do período; fórmulas simples e modelos estanques como “o índio”, “o negro”, “o europeu” estão repletos de estereótipos e preconceitos, se transformando em categorias muito rígidas. Essas definições fechadas escapam da realidade e se desmantelam diante da infinita riqueza do mundo. Emblemático, o caso da santidade Jaguaripe expressou mais do que a revolta dos pobres e explorados contra os poderosos, o uso da população como massa de manobra para os desejos dos senhores ambiciosos. Simboliza a configuração da religião e da religiosidade de um povo. A miscigenação cultural, durante a constituição colonial, criou no Brasil um conjunto de elementos religiosos polissômicos, comunicando vários sentidos que deixam transparecer o econômico, o social, o lúdico e o étnico. É verdade que a expansão territorial portuguesa foi acompanhada pela insígnia do catolicismo, entretanto, esse foi um processo que não aconteceu sem conflitos entre autoridades civis e eclesiásticas, entre colonos e jesuítas, entre fiéis e infiéis, forjando um sincretismo religioso ímpar e representativo do Brasil contemporâneo. Sendo a fé em Cristo imposta, indígenas foram exterminados sob pretexto de serem catequizados, outros iniciaram uma fuga em busca de movimentos messiânicos que, séculos depois, ainda estariam enraizados na mentalidade dos homens do povo, sempre dispostos a seguirem eremitas e milagreiros. Também não possuindo outra opção, os africanos escravizados foram obrigados a aceitar oficialmente os preceitos e dogmas da Igreja Católica. Mas encontraram meios de ocultar seus próprios ritos e credos dentro do sistema simbólico cristão, originando práticas religiosas afro-brasileiras. Compelidos a migrar para o Brasil, os judeus adotaram uma estratégia um pouco diferente. Aderiram a uma vida dupla, oficialmente aceitando o cristianismo, praticado perante os olhos alheios, voltando-se para a sua verdadeira fé no interior do lar, uma maneira de manter a coesão das famílias e comunidades hebreias através da tradição. Dessa fusão de crenças, da qual fez parte até o protestantismo, nasceram algumas práticas religiosas no Brasil, apegadas ao tradicionalismo católico e, ao mesmo tempo, abertas e relativamente tolerantes às novas religiões. Uma religiosidade dogmática, em certo sentido, perante a esfera pública geral, mas empírica e sujeita a transformações dentro da privacidade individualizada de grupos menores. As práticas religiosas na América apresentam grande capacidade adaptativa e, sem dúvida, são tributárias do caldeirão religioso colonial, efervescente e contendo em seu interior ingredientes paradoxais que, misturados, forjaram o sincretismo contemporâneo. 1/231/231/231/231/231/231/231/231/23ANO:274 1 de set. de
2026, terça-feira •••Trabalho sobre Fernão Cabral TaÍde (data da consulta)Procurar. História (33054) Cidades (713) Imagens (14157) Pessoas (10468) Temas (1478)EnviarDireto ao ano:EnviarTEstando Cidades Comentários Criado por Adriano César