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Aventuras na HIstória
Projeto de construção das Torres Gêmeas já previa impactos de aviões
9 de set. de 2026, quarta-feira
   
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A relação entre o World Trade Center e os atentados de 11 de setembro de 2001 tornou o complexo um dos símbolos mais conhecidos da história contemporânea.

As imagens das Torres Gêmeas atingidas por aviões e, posteriormente, consumidas pelas chamas ficaram associadas às discussões sobre segurança internacional, geopolítica e arquitetura. Antes disso, porém, os próprios edifícios já carregavam uma característica estrutural pouco comum: a possibilidade de uma colisão aérea havia sido considerada durante o desenvolvimento do projeto.

Décadas antes da destruição das torres, engenheiros incluíram acidentes envolvendo aeronaves entre os cenários considerados para o complexo. A decisão estava relacionada a episódios anteriores ocorridos em Nova York.

Em julho de 1945, um bombardeiro B-25, perdido em meio a uma forte neblina, atingiu os 78º e 79º andares do Empire State Building. No ano seguinte, outro incidente semelhante ocorreu no edifício localizado no número 40 da Wall Street, acompanhado por mais um episódio envolvendo o Empire State.

Esses antecedentes ajudaram a orientar a equipe liderada pelo engenheiro estrutural chefe Leslie Robertson. A trajetória de Robertson e sua participação no desenvolvimento das torres são abordadas no documentário ‘Leaning Out’, dirigido por Basia e Leonard Myszynski.

A produção também destaca a participação de Saw Teen See, esposa e parceira profissional de Robertson. Sua atuação ajuda a desconstruir a imagem do engenheiro como um gênio isolado, mostrando sua colaboração nos cálculos estruturais das Torres Gêmeas e em outros projetos internacionais, como as Torres Kio, em Madri, e a Torre do Banco da China, em Hong Kong.

O complexo também adquiriu dimensão simbólica por sua própria configuração arquitetônica. Em 1974, o equilibrista Philippe Petit realizou uma travessia sobre um cabo instalado entre os dois edifícios, explorando justamente o espaço existente entre os topos das torres.

Philippe Petit durante a travessia das Torres GêmeasPhilippe Petit durante a travessia das Torres Gêmeas – Divulgação/Man on Wire

Boeing 707 como referência

Durante as décadas de 1960 e 1970, a equipe responsável pelo projeto considerou a possibilidade de uma colisão acidental envolvendo um Boeing 707, então a maior aeronave comercial em operação. O cenário imaginado era o de um avião perdido em meio à neblina, voando em baixa velocidade durante uma tentativa de aproximação para pouso nos aeroportos John F. Kennedy ou Newark.

Posteriormente, investigações do Instituto Nacional de Padrões e Tecnologia (NIST) encontraram um documento técnico de três páginas que mencionava uma análise complementar. Nesse segundo cenário, era considerado o impacto de um jato viajando a 970 km/h. O órgão, contudo, não encontrou a documentação original que comprovasse a realização detalhada dessa avaliação.

A concepção estrutural das torres empregou um sistema que dispensava o espaçamento convencional entre as colunas internas. A fachada concentrava uma grande quantidade de elementos estruturais, formando uma espécie de estrutura tubular capaz de absorver diferentes tipos de esforços.

“O sistema de estrutura tubular das paredes perimetrais resistiu a todas as forças do vento e por terremotos, bem como às cargas de impacto ocorridas em 11 de setembro”, explicou Robertson.

A solução também estava relacionada a uma preocupação arquitetônica de Minoru Yamasaki, que havia idealizado janelas estreitas para transmitir aos ocupantes uma sensação de segurança. “Nossa contribuição foi transformar essas colunas de espaçamento reduzido no sistema fundamental de resistência a forças laterais das duas torres. O sistema de estrutura tubular também dispensou a necessidade do espaçamento convencional de 30 pés (aproximadamente 9 metros) entre colunas nas áreas internas, tornando estruturalmente viável a criação de espaços locáveis livres de colunas. ”

Além da fachada, o projeto utilizou uma treliça espacial de ligação, conhecida como outrigger, para conectar a estrutura externa ao núcleo de serviços. O sistema ajudava a distribuir cargas verticais e forças provocadas pelo vento, além de reduzir deformações diferenciais e acomodar a antena de 134 metros.

Outro desafio estava relacionado à movimentação dos edifícios provocada pelas rajadas de vento. Para lidar com a oscilação dinâmica, foi desenvolvido e patenteado um sistema de amortecimento viscoelástico. Seu funcionamento era comparável ao dos amortecedores de automóveis, dissipando parte da energia associada ao movimento sem exigir uma quantidade excessiva de aço.

As vigas das lajes também foram conectadas à fachada por peças articuladas. Esses componentes permitiam movimentos controlados e contribuíam para absorver vibrações nos andares mais altos.

A elevada concentração de colunas na fachada teria ainda outra consequência durante os atentados de 2001: depois que as aeronaves atingiram os edifícios, o peso da estrutura pôde ser redistribuído, evitando o colapso imediato e mantendo as torres de pé por determinado período.

11 de SetembroTorres gêmeas após o atentado de 11 de setembro – Getty ImagesFator não previstoA resistência contra impactos aéreos, entretanto, não significava que as torres estivessem preparadas para qualquer cenário de colisão. O principal elemento que escapou às premissas originais foi a combinação entre os danos provocados pelos aviões e os incêndios de grandes proporções que se seguiram.

Os Boeing 767 utilizados nos atentados eram maiores do que o Boeing 707 considerado nos cálculos originais. Além disso, a quantidade de combustível e a energia envolvida nos impactos ultrapassavam as condições previstas durante a elaboração do projeto.

“As duas torres foram as primeiras estruturas, fora dos setores militar e nuclear, projetadas para resistir ao impacto de um avião a jato comercial, o Boeing 707. Partiu-se da premissa de que a aeronave poderia estar perdida em meio à neblina, tentando pousar nos aeroportos JFK ou Newark”, esclareceu o engenheiro estrutural chefe.

A engenharia disponível quando as torres foram projetadas também não contava com sistemas passivos capazes de lidar com incêndios da dimensão observada em 2001. “Até onde se sabe, havia pouco conhecimento sobre os efeitos de um incêndio causado por tal aeronave, e não foram elaborados projetos específicos para essa eventualidade. De fato, naquela época, não existiam sistemas de proteção passiva contra incêndio capazes de controlar os efeitos de incêndios dessa magnitude. ”

O combustível dos aviões inflamado após os impactos provocou temperaturas extremamente elevadas e comprometeu elementos metálicos e componentes do núcleo de serviços. A combinação entre o dano inicial e o fogo acabou superando as condições contempladas pelo projeto original.

“Os eventos de 11 de setembro ceifaram a vida de quase 2. 900 pessoas; muitas delas morreram em decorrência do colapso de estruturas projetadas por mim. Os danos causados pelo impacto das aeronaves foram seguidos por incêndios intensos, cuja gravidade foi enormemente agravada pelo combustível a bordo dos aviões”, relembrou o projetista.

“As temperaturas acima das zonas de impacto devem ter atingido níveis inimagináveis; nenhum de nós jamais esquecerá a imagem daqueles que decidiram tomar o próprio destino nas mãos, lançando-se no vazio. ”Fotografia das Torres Gêmeas após colisão de aeronave – Getty ImagesTempo de resistência e a evacuaçãoApesar do desfecho, a permanência das torres de pé após os impactos teve uma consequência importante: milhares de pessoas conseguiram deixar os edifícios antes dos colapsos. Aproximadamente 25. 000 ocupantes que estavam nos andares abaixo das regiões atingidas conseguiram evacuar as estruturas durante o intervalo de resistência.

A capacidade demonstrada pelas torres diante do impacto também foi reconhecida pelo próprio Robertson. O cenário real, segundo ele, havia sido muito mais severo do que aquele utilizado como referência durante o projeto.

“Os prédios resistiram ao impacto de aeronaves Boeing 767 — um impacto muito superior àquele previsto em nosso projeto (que considerava um Boeing 707 voando lentamente, perdido na neblina e à procura de uma pista de pouso). Assim, a robustez das torres mostrou-se exemplar. Ao mesmo tempo, os incêndios que se alastravam no interior das edificações comprometiam sua resistência estrutural. Com o passar do tempo, o inimaginável aconteceu… danificadas pelo impacto das aeronaves e consumidas pelo fogo, ambas as torres do World Trade Center desabaram”, concluiu o engenheiro.

As análises realizadas depois do desastre reforçaram a dificuldade de preparar estruturas civis para impactos de aeronaves comerciais de grande porte. A energia liberada por colisões dessa magnitude pode provocar danos críticos mesmo em edifícios projetados considerando acidentes aéreos.

A experiência do World Trade Center também evidenciou os limites de uma abordagem baseada exclusivamente na resistência estrutural. O projeto das torres havia considerado a possibilidade de um avião atingir o edifício e incorporado soluções específicas para suportar esforços desse tipo.

O cenário ocorrido em 2001, porém, combinou impactos de grande intensidade com incêndios alimentados por combustível de aviação, criando uma situação que ultrapassou as premissas adotadas décadas antes.

A principal lição extraída posteriormente para a arquitetura e a segurança passou, portanto, a privilegiar não apenas a capacidade de resistência das estruturas, mas também a prevenção. Em vez de depender exclusivamente de edifícios capazes de absorver impactos extremos, a segurança passou a concentrar esforços no impedimento do acesso de aeronaves a áreas urbanas densamente ocupadas e a instalações consideradas estratégicas.

A história estrutural das Torres Gêmeas revela, assim, uma contradição central. Os edifícios haviam sido concebidos com uma preocupação específica com acidentes aéreos e conseguiram permanecer de pé após impactos muito superiores ao cenário originalmente imaginado. O fator decisivo para o colapso, entretanto, surgiu da combinação entre o impacto e incêndios de proporções que a engenharia da época não estava preparada para controlar.

Éric MoreiraÉric Moreira é jornalista, formado pelo Centro Universitário Belas Artes de São Paulo. Passa a maior parte do tempo vendo filmes e séries, interessado em jornalismo cultural e grande amante de Arte e História.

DATA:09/09/2026 fontes

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