As histórias que relato aqui no jornal Cruzeiro do Sul têm por objetivo destacar o valor humano das pessoas. O José da Silva Moura Neto, filho da Regina e do Edgard Moura é um deles. O Neto partiu cedo demais, com apenas 44 anos de vida. Tinha a vida pela frente. Ele viajava e gostava de estar em contato com a natureza. Em família era o pizzaiolo que comandava o forno a lenha. O amor dos pais e irmãos e a saudade do jovem Moura Neto tocaram a minha sensibilidade humana. Senti-me integrante do mesmo espírito nobre dos familiares nas lembranças da vida exemplar do filho Moura Neto.
Neste artigo, estendo a homenagem a pessoas que conheci. O saudoso Santiago Calvo Ramires, do Rotary Club Sorocaba-Leste, nos anos em que eu participei como rotariano, pude conviver horas com ele em diálogos que deixaram ensinamentos. Como ser humano humilde, acolhia a todos com braços abertos de fraternidade. Valorizava sua esposa Darci Gomes Calvo e as filhas Mariângela e Adriana e o filho Marcelo. Conheci a família do Santiago nas confraternizações da entidade. Foi um líder comunitário nas ações do Rotary, fazendo o dar de si, antes de pensar em si, se tornar real na sua vida empresarial e social. Um amigo que deixou saudades! Como empresário do ramo automobilístico e, posteriormente na construção civil, Santiago seguiu o DNA da família no comércio. Gostava de ajudar como anônimo nas causas sociais de Sorocaba, tendo participado intensamente das campanhas promovidas pelo Rotary dentro do tema “até as montanhas se tornam planícies quando muitas são as mãos e um só ideal”.
O menino Elias, filho do seu José e da dona Salima, era descendente de sírio-libaneses. Cheguei a conhecer a família, que morava na avenida São Paulo, em um casarão em frente à loja do Elias José. Foram talhados na dignidade familiar da responsabilidade desde crianças. O Elias José nasceu em 1933. Época difícil do século passado que antecedia movimentos políticos no mundo. A segunda guerra mundial viria acontecer em 1939, quando Elias tinha seis anos de idade. Imagino a cabeça dos pais e das crianças ouvindo as notícias de uma guerra. Momento de guardar o pouco que tinham de economias e pensar no que viria a acontecer nos próximos anos. Elias foi destemido e tinha uma energia que brotava do seu coração palpitando entre o medo e a esperança. Afinal, sua infância não seria de brincadeiras ou lazer. O seu pai, José, era firme na educação dos filhos e a mãe, Salima, o porto seguro no lar. Essas características forjaram o garoto Elias José em “aço bruto” da melhor qualidade para o trabalho. O espírito empreendedor surgiria com o tempo.
Passei muitos dias na minha vida conversando com um amigo do Elias. Na época, eles decidiram sair às ruas vender tecidos de porta em porta. O amigo e depois, meu sogro, é Olímpio Aparecido Mathiazzi. Olímpio e o Elias Antônio José foram ousados naquela época de suas vidas. Compravam peças de tecido chamado casimira e negociavam aos metros com alfaiates. Uma peça gerava duas, financeiramente, e o comércio de tecidos prosperou. O Olímpio montou a sua loja no bairro Além Ponte. Durante décadas, manteve a Casa Mathiazzi na rua Nogueira Padilha e depois na rua Sete de Setembro.
O Elias Antônio José começou a sua loja na avenida São Paulo. Tecidos e retalhos deram impulso a sua visão comercial. O seu sucesso nas vendas expandiu muito até ser o maior varejista de tecidos de Sorocaba. Investiu em imóveis e na sua criatividade vislumbrou o primeiro shopping da cidade. Loucura na época e realidade até hoje, o Shopping Sorocaba sempre teve o jeito do “seu Elias” de construção. Eu vi o Elias centenas de vezes enquanto supervisionava os seus inúmeros empreendimentos no shopping. Quiosques de brinquedos, cinemas, lojas, área de lazer, estacionamento, entre outros investimentos que fazia. Elias enriqueceu e construiu o segundo shopping, na divisa de Votorantim. Elias viveu 89 anos. Nunca deixou de trabalhar e investir. Deixou inúmeros prédios no centro da cidade e manteve a sua origem humilde, gerando até um simbolismo de trabalhador padrão, no conceito de que o trabalho gera riquezas quando a pessoa ajuda o próximo. É um visionário de Sorocaba que merece ter o seu nome homenageado em uma obra de destaque na cidade.
A história da Vera Ravagnani Job, que nasceu em Birigui, Estado de São Paulo, é fascinante e motivadora. Acredito que algumas pessoas são iluminadas por uma graça divina e seguem a sua vocação de corpo e alma. O segundo pilar da sua sabedoria foi construído nas vizinhas cidades de Tatuí e Itapetininga, berços de grandes nomes da história do Brasil. Foi na Escola Normal Peixoto Gomide que a mocinha Vera deu partida na sua trajetória na área da educação. Como normalista vitoriosa entre todas as participantes de sua classe de formadas, levou junto com o primeiro lugar o prêmio maior de conquistar uma vaga em Sorocaba. Ela lecionou, inclusive, na Escola Senador Vergueiro, onde tive a feliz oportunidade de estudar na minha infância. Vera Job é um marco na terra de Baltazar Fernandes. Sua partida, em 8 de fevereiro de 2022, para o plano superior levou a alma de uma mulher que só fez o bem em seus 87 anos de vida. Estudiosa do tropeirismo, a Vera avançou firme como uma verdadeira tropeira dos rincões do Brasil. Criou a Semana dos Tropeiros de Sorocaba, foi integrante da Academia Sorocabana de Letras, professora com P maiúsculo na educação em aulas nas universidades. Uma incentivadora da criação de museus e locais de encontros culturais. Uma amiga que deixará saudades a milhares de seus alunos e companheiros de jornada, como o historiador Sérgio Coelho de Oliveira, que se despediu da Vera com essas palavras: “Eu tenho o direito de estar triste hoje”. “O mundo tropeiro está de luto”.
Vanderlei Testa (artigovanderleitesta@gmail.com) é jornalista e publicitário. Escreve as terças-feiras no jornal Cruzeiro do Sul