34Maciel, irmãos Sutil e outros destemidos paulistas ti- nham feito as suas correrias pelas longinquas florestas de Matto-Grosso para exhibirem ao mundo admirado as riquezas do interior do Brazil.A vida paulista era toda agricola e a falta de bra- ços para a lavoura levava os habitantes da capitania a fazerem atrevidas entradas pelos sertões a caça de in- dios que, trazidos para o povoado, eram amansados e applicados ao cultivo das terras.Embalde vieram as leis philippinas de 1611 e cutras prohibindo o captiverio dos indios que não fossem presos em guerra justa; o trafico de africanos, já ini- ciado, não satisfazia a demanda de braços para a agri- cultura, e as correrias pelos sertões continuavam sem- pre como si não houvesse lei alguma em contrario.A mais audaciosa destas emprezas para a caçada de indios foi organisada nesta capital, em 1628, por An- tonio Raposo e Manoel Preto, sendo composta de cerca de 1.000 homens brancos e mestiços e de 2.000 in- dios mansos, todos disciplinados e armados com os instrumentos de guerra, de que a capitania então dis punha. Esta expedição partiu de S. Paulo em Setem- bro de 1628, para aquella região situada além do rio Parapanema e conhecida na historia com o nome de Provincia do Goayrá.O actual Estado de Santa Catharina recla na como seus limites os rios Negro e Yguasú ao norte, o Uru- guay ao sul, o mar á nascente e as Missões Argentinas ao poente.Neste caso o Estado do Paraná ficará limitado ao norte pelos rios Itararé e Paranapanema, o sul pelos rios Negro e Yguasú, á nascente pelo mar e ao poente pelo rio Paraná. A antiga Provincia deti Gooywindows viesse até o mar, corresponderia hoje esse Estaduais pa[p. 34]
O caminho de São Paulo para o Goayrá, que já existia naquele tempo (1628), seguia por Sorocaba e Itapetininga e atravessava o Rio Tibagy; e por este motivo se passou depois a dar ao Goayrá o nome de Sertão do Tibagy. Nessa região tinham os jesuítas, desde 1560, aldeado enorme quantidade de nativos, por eles catequizados durante quase setenta anos de assíduo trabalho de evangelização.
35Paraná, e abrangia todo o territorio banhado pelos riosYvahy e Tibagy e seus aflluentes.O caminho de S. Paulo para o Gouayrá, que jáexistia naquelle tempo, seguia por Sorocaba e Itape-tininga e atravessava algures o rio Tibagy; e por estemotivo se passou depois a dar ao Goayrá o nome deSertão do Tibagy.Nessa região tinham os jesuítas, desde 1560, al-deado enorme quantidade de indios, por´ elles catechi-sados durante quasi setenta annos de assiduo trabalhode evangelisação.Em 1600 havia no Goayrá nada menos de trintapovoações de indios mansos, todos dirigidos pelos je-suitas hespanhões, e algumas populosas, ricas e emplena prosperidade. Citarei sómente aquellas aldêasque estão localisadas nos mappas antigos que possuo:Na margem esquerda do Tibagy, irais ou mendsapproximadas da barranea do rio, estavam as redueçõesde S. Miguel e Jesus Maria, nas cabeceiras do rio; deEncarnação, S. Xavier e S. Joseph, em ordem peloTibagy abaixo, csta ultima sobre um riacho tributariodo mesmo Tibagy; Loreto, sobre a margem esquerdado Parapanema, perto da fôz do riacho Pirapó, e SS.Ignacio, sobre o mesmo rio. No valle do rio Piquiry,estavam as aldêas de Tambo, na cabeceira do rio, Co-pacabrmna e Itatú mais abaixo, e Ciudad Real, na em-bocadura do Piquiry, no Paraná, sobre o salto das SeteQuedas No valle do rio Yvahy se encontravam diver-sas povoaçães e entre ellas eram notaveis Santo Anto-nio, Los Arcangeles e S. Thomé, estando estas duas ul-timas sobre um riacho que, 140 annos mais tarde. pas-2 Soua se chamar Nin Mourão, em honra do Morgadode Matheus, que governou S. Paulo de 1765 a 1775;na barra deste riacho estava a grande Villa Tica, cu- [p. 35]
Jofio Maciel Bacâo, Manoel de Siqueira, Pernâo Malheiros, Thomé Martins Bonilha, Flávio da Costa, Franciseo^^Dias de Oliveira, Balthazar Gonçalves, vSalvador de Miranda, Belchior de Borba, Fernando Munhoz,Francisco Fernandes, Thomé Fernandes da Costa, Manoel de Goés, Matheus Luiz Grou, Luiz Gomes, PedroNunes, Gaspar Affonso, Bartholomeu de Quadros, Pedro do Prado, Francisco Leme, Francisco Gaya, LuizDias Leme, Rafael de Oliveira — o — moço, FranciscoDias, João Ferreira, João Furtado, Bernardo da Motta,João Paes Garcia, Angelo Preto, Mathias de Oliveira,Romão Freire, Diogo Barbosa Rego, Fernão de Siqueira, João Rodrigues de la Penha, João Ribeiro,Ascenso do Quadros, Manoel de Góes Rapozo, Antóniode Siqueira Caldeira, Álvaro Netto, Domingos LuizLeme, Al nso Peres, Francisco Lopes Bravo, AntónioLourenço — o moço, Gaspar Sardinha, João Moreira,João Machado, Manoel Rodrigues, Álvaro Rodriguesdo Prado, Paulo Pereira, João Fernandes Edra, Domingos Fernandes Gigante, Manoel de Arzão, João doPn.d), Fernando Dias Paes(l), Jerónimo de Camargo, Mathias Paes, João Paes, António de Barros daSilva, Gaspar Maciel Aranha, Pedro da Costa, Francis- [Página 77]
A Estrada de São Paulo ao Rio Grande do Sul no século passado
As primeiras expedições feitas pelos antigos paulistas no sertão ao sul da cidade de São Paulo, as do século XVII de que resultou a destruição das missões jesuíticas e bem assim a expulsão dos espanhóis da região ao norte do rio Uruguay, não deixaram vestígios de si na forma de vias permanentes de comunicação, ou de ocupação efetiva do vasto território conquistado.
Por muitos anos depois destes acontecimentos, a posse portuguesa efetiva, fora da zona do litoral, ficou limitada ás vizinhanças da cidade de Sorocaba, estendendo-se talvez ás de Itapetininga no atual estado de São Paulo, e de Curitiba no atual estado do Paraná, não se sabendo se houve, ou não, comunicação por terra entre estes dois centros. [Página 173]
175sem bastante importancia para figurarem nos mappasmodernos.Já em 1749, o Mappa das Cortes, organizado emLisboa para servir nas negociações do tratado de limi-tes com Hespanha, figura osta estrada por uma seriede signaes representando estabelecimentos fixos espaça-dos de maneira a indicar que o factor determinativo dasua fundação era a marcha diaria das tropas, quer mi-litares quer commerciaes, e as facilidades de aguada ede culturas para o supprimento das suas necessidades.Conforme as investigações do Barão do Rio Branco,resumidas na sua magistral «Fxposição ao Arbitro» daquestão de limites com a Republica Argentina. as informações em que se baseava o auctor do Mappa dasCortes para modificar ce augmentar nesta parte osmappas existentes dos Jesuitas eram fornecidas peloGeneral Silva Paes. fundador dos estabelecimentosde 1787 no Rio Grande do Sul, e que talvez tivessetransitado por ello. O officio de 8 de Fevereiro de 1749do Secretorio de Lstado, Marco Antonio de AzevedoCoutinho, (citado pelo Barão d Rio Branco, p. 149)diz que a parte relativa as possessões portuguezas nosul foi tirada do Mappa Geographico do Padre DiogoSoares (1).E´ de presumir que a representação destes pontosno dito mappa fosse determinada por um simples ro-teiro, dando com toda a exaçtidão a sua posição comreferencia aos cursos de agua (cujo seguimento para o1) Como o mappa representa diversos detalhes que sãocertamente posteriores À expedição do General Silva Pnes em1737, parece que a contribuição deste era bastante importanteou eutão que o mappa já referido do Padre Diogo Soares foiconfeccionado depois desta data. [p. 175]
176interior era aliás desconhecido) e com approximação orumo e a distancia de um pouso a outro (1).Infelizmente o mappa não dá os nomes das situa-ções representadas, nem os dos rios cortados pela es-trada, com a excepção de um affluente do Iguassú, de-nominado Itupeva, que não figúra nos mappas moder-nos, mas que parece ser o que desagua perto doPorto da União e que é hoje conhecido pelo nome deCanoinhas . .Durante os annos de paz que se seguiram ao Tra-tado de Madrid de 1750, esta estrada serviu apenas devia commercial, cuja importancia devia ter crescidocom o crescente desenvolvimento dos estabelecimentosportuguezes no Rio Grande do Sul. Estando a Capi-tania de S. Paulo sem governou especial durante estetempo (1748—1764) é de presumir que pouco ou na-da fosse feito officialmente para a povoar e conservar.(1) Quasi todos os antigos mappas brazileiros (e nosdetalhes grande parte Jos modernos) são baseados em taes ro-teiros ou informações dos vaqueanos. Na falta de um levanta-mento geodesico ou feito com instrumento, o meio mais segurode se fazer um esboço geographico de uma região desconhe-cida é de facto com ostaes roteiros e informações que, em-pregados com criterio, dão um mappa cuja approximação éverdade é, muitas vezes, sorprehendente. Neste respeito o cai-píra ou tropeiro brazileiro (e não importa que seja analphabe-to) é realmente admiravel. As suas informações a respeito dasaguadas são rigorosas; as relativas aos rumos e distancias,muito approximadas á verdade. O nosso digno consocio, dr.Theodoro Sampaio, que é perito no levantamento de mappas,tavto pelo emprego de instrumentos como pelas informaçõesdos vaqueanos, me confirmará nesta apreciação do instinctogeographico do tropeiro brazileiro, 2[p. 176]
177Restabelecido, em 1764, o governo independente deSão Paulo com um governador, D. Luiz Antonio deSouza Botelho Mourão, extremamente emprehendador eespecialmente empenhado na exploração e povoamentodo vasto sertão da Capitania, e tendo ao mesmo tempode orgonizar e expedir os contingentes de tropas e mu-nições para x guerra que tinha rebentado de novo nosul, a estrada recebeu especial attenção por parte dogoverno.A parte ao norte do Iguassú serviu de base para asnumerosas expedições de exploração e povoramento-nossertões de Tibagy e Ivahy, e, para dominar os Indios naparte da estrada que se approximava da Serra de Parana-piacada, resolveu-se a fundação de Itapeva vu Faáxina,cujo desenvolvimento dentro de poucos annos lhe gran-geou o titulo de villa. Para melhor garantir as com-municações com o Rio Grande do Sul, D. Luiz Anto-uio cuidou no estábelecimento de um centro nais fortede população na região do alto Uruguay, escolhendopara este fim a fazenda ou pouse das Lages, elevadoá villa em 1766. Em 1766, D. Luiz Antonio remetteupara a Corte um mappa de grande parte da AmericaMeridional que indubitavelmente representava esta es-trada naquella cpocha, mappa que infelizmente pureceque se perdeu,O mappa onde os detalhes dessa estrada vem re-presentados com mais minudencia é de origem hes-panhola e incidentalmente mostra a grande importan-cia que os hespanhóes attribuiram-a esta via de com-municação, que para elles era uma ameaça constantepara as suas possesões do Rio da Prata e, na hypo-these de um movimento offensivo, um meio de´alcan-çar os seus inimigos noseu centro continental maisforte, a cídade de São Paulo.[p. 177]
182descordancias entre elle e os mappas, estas podem serdevidas em parte a estas localidades intermediarias e emparte á synonimia. Como em todos os roteiros, as lo-calidades são designadas ora por um nome local, orapelo seu dono (que é variavel), sendo possivel que mui-tas destas discordancias sejam verdadeiros synonimos.Para a historia da região e do desenvolvimento dassuas vias de communicacão, é interessante estudar es-ta ordem de marcha comparando-o com os mappasantigos e modernos. =Para os fins deste estudo será conveniente conside-rar a estrada por trechos marcados por pontos que jánaquelle tempo ou modernamente se desenvolveram ácategoria de villas ou cidades. Estes trechos são:São Paulo á Sorocaba.Sorocaba à Faxina.Faxina ao Rio Negro.Rio Negro a Lages.Lages a Porto Alegre.Os mappas antigos não dão detalhes alguns rela-tivos á antiga via de communicação entre São Paulo eSorocaba. O das Cortes e o de Olmedilla (este dá onome de Jarocabas) figuram apenas os pontos extre-.mos, e o de Montezinho de 1792 dá apenas os pontosintermediarios de Pinheiros e São Roque. À ordem demarcha, indo pela estrada antiga que se bifurca da deItú, indica que a mais directa por Cotia e. São Roquenão existia ainda, ou que não estava em condições deser preferida (1).(1) Nas notas colleccionadas pela Commissão de Esta-tistica de 1888, n fundação da Cotin presume-se ter-se reali-sado ne anno de 17/38 en elevação de São Roque á freguezia noanno de 1768. Sobre a data da abertura úu estrada quo ligaSão Roque à Sorocaba não se encontra referencia uiguiva,
Os mapas antigos não dão detalhes alguns relativos á antiga via de comunicação entre São Paulo e Sorocaba (...) Sobre a data da abertura da estrada que liga São Roque à Sorocaba não se encontra referência alguma. [p. 182]
Baruiry merim, que é evidentemente a atual povoação de Baruery na margem direita do Tietê. Barreiros paralá do Mato Payol, deve ser no distrito de Araçariguama, onde o nome Payol é conservado no Córrego do Payol. "Olhos de Água", pequena povoação próxima a tual estação de Dona Catharina no ramal de Itú da estrada de ferro Sorocabana. "Felipe Guental", que deve ser algum pouco antigo perto da cidade de Sorocaba, o qual ficava no ponto intermediário da marcha do 6o. dia.
No trecho da estrada entre Sorocaba e Faxina oMappa das Cortes só indica um pouso sem nome, po-: rém em posição que “corresponde ao Porto Je It»peti-ninga, e o de Clmedilla tem diversos nomes que serãomencionados abaixo. Os nomes indicados na Ordem damarcha são os seguintes :(DD) O mnappa de D´Ánville de 1748 não traz o nome deSorocaba, mas nma povoação «Cativar ce um rio «Britidiv» emposição que corresponde regularmente com a da cidade e rioSorocaba. Entre esta e São Panlo ha uma povoação de SãoFelippe. No mappa anterior do mesmo auctor, públicado em1734 nas «Lettres Edíficantes et Curieuses écrites des Missio-nes Etrangeres par quelques Missionaires de la Compagniede Jesus», ha além destes nomes o de «Berusacaba» (Araçoiaba).Como o mappa de D´Anville foi confeceionado com os dadosfornecidos pelos Jesnitas, é de presumir que estes nomesforam encontrados em alguns escriptos dos padres dacompanhia.[p. 183]O mapa de Jean Baptiste Bourguignon d´Anville foi confeccionado com os dados fornecidos pelos jesuítas em 1794 não traz o nome de Sorocaba, mas uma povoação "Cahativa" e um rio "Britida" em posição que corresponde regularmente com a da cidade e rio Sorocaba. Entre esta e São Paulo ha uma povoação chamada São Felippe. (Revista do Instituto histórico e geográfico de São Paulo. Página 183)
Mapa de ManessonMallet Data: 01/01/1683 Créditos/Fonte: Instituto Histo´rico e Geogra´fico de Sa~o Paulo Página 177
ID: 11395
Capela Rosslin Data: 01/01/1693 Créditos/Fonte: John Slezer
ID: 11421
Revista do Instituto Histórico e Geografico de São Paulo Data: 01/01/1898 Volume III. Página 173
ID: 11424
Descendência de Jesus Cristo Data: 17/09/2025 Créditos/Fonte: sangreality.weebly.com Obs. data da consulta
ID: 11425
Revista do Instituto Histórico e Geografico de São Paulo Data: 01/01/1898 Volume III. Página 183
ID: 11426
Revista do Instituto histórico e geográfico de São Paulo Data: 01/01/1898 Página 199 (mapa
ID: 11494
Revista do Instituto Histórico e Geográfico de São Paulo. Volume III Data: 01/01/1898 Página 39
ID: 12142
Revista do Instituto histórico e geográfico de São Paulo. Volume III Data: 01/01/1898 Página 33
ID: 12215
Revista do Instituto Histórico e Geografico de São Paulo. Volume III Data: 01/01/1898 Página 176