Wildcard SSL Certificates

RecentesSéculosHoje na História (67)

save:
Américo de Moura
“A primeira guerra de Jerônimo Leitão”. Américo de Moura (1881-1953), Jornal Correio Paulistano
25 de julho de 1942, sábado ver ano





Na poucas linhas em que esbocei o estudo da personalidade do capitão-mór que, como loco-tenente do donatário, governou a capitania de São Vicente no período decorrido entre os anos de 1572 e 1591, ficou patente o caráter de um administrador que, sem fugir à responsabilidade e aos perigos de guerras, no consenso dos próprios jesuítas consideradas justas, tinha entretanto, o firme propósito de impedir os excessos dos colonos contra os nativos e preferia recorrer a meios pacíficos para chamar estes à civilização.

Viu-se, porém, que em abril de 1585, apesar da hesitação demonstrada na demorado despacho dado à petição dos homens da governança de Santo e São Vicente, e na forma aleatória desse deferimento, estava ele disposto a empreender guerra, "por mar", aos carijós sulinos. Nesse mesmo ano desencadeou-se a chamada guerra de Jerônimo Leitão, que, conclui, merece maior estudo o que lhe dedicaram os nossos historiadores.

O que a respeito dessa guerra se vê na lição do maior historiador das bandeiras paulistas, é que ela foi feita, por terra, no litoral, até Paranaguá; que no estado-maior do capitão, salvo o padre Sebastião de Paiva, que era vigário de São Vicente, somente aparecem os nomes de onze moradores de São Paulo; e que a guerra de prolongou, pois "durante seis anos assolou Leitão as aldeias do Anhembi."

E assim termina a sumaria exposição: "Pretende o depoimento dos jesuítas espanhóis que tais aldeias chegavam a ser 300, contando 30.000 habitantes, que os portugueses e os mamelucos seus filhos exterminaram ou arrastaram ao cativeiro litorâneo."

É evidente o contraste entre as premissas que com bom fundamento estabeleci e os supostos resultados constantes da lição do acatado historiador. Teria Jerônimo Leitão, que "sempre fez muito caso" dos conselhos do padre José, ainda antes que este deixasse o provincialato, assumido atitude tão diferente da que dessa influência se poderia esperar, tornando-se perseguidor dos selvícolas durantes os londos anos em que ainda governou?

E outras dúvidas surgem, em matéria de fato. Como se teria transformado em guerra contra os nativos do Anhembi a empresa ideada como expedição marítima aos Patos? De que modo teria passado a ser encabeçada por moradores do planalto uma campanha de iniciativa tomada a sua revelia pelos do litoral?

Como se deduz de termos oficiais anteriores e posteriores, a população do campo era em 1585 de cerca de 120 moradores, em parte reinois e em parte brasileiros natos, brancos e mestiços. Os filhos-família de mais de 14 anos não chegariam ao dobro desse número, e pouco maior seria o de nativos escravizados ou particularmente administrados como forros. As aldeias de Pinheiros e São Miguel, "entre ambas terão 1000 pessoas", como dizia no fim desse ano o Padre Anchieta.

Qual teria sido o papel dessa gente no drama, que os jesuítas castelhanos assinalaram como tremenda hecatombe? Dificilmente se encontrará respostas a todas as interrogações que o problema suscita. E é claro que absolutamente não me proponho a resolver todas as dúvidas, trazendo à discussão o fraquíssimo concurso de minhas pesquisas e reflexões.

Embora determinada em 25 de abril, a reunião da junta das câmaras de Santos e São Vicente só se realizou em 10 de junho. E como resultado desse mês e meio de preliminares, o que se vê, sem uma explicação para o fato, é radical mudança no objetivo e na forma da expedição projetada: já não se fala em viagem "por mar" e sorrateiramente se acrescentam aos inimigos carijós os tupiães, habitantes do planalto.

Até aí não se manifesta nenhuma interferência dos moradores e homens da governança de Piratininga, ostensivamente postos à margem, como se destinados a não entrar na campanha ou a ter nela participação secundária.

Nas atas de São Paulo, até essa data, nenhum indicio encontrei em relação com o movimento. Apenas se observa que, precisamente no dia 10 de junho, deixou de comparecer o vereador Pedro Alvares "por estar fora desta vila e ser ido ao mar".

Em Santos, estaria ele então, e como ele outros moradores do planalto, em confabulação com o governador e com os homens bons de lá? Teria de tal confabulação resultado a mudança que se verificou no plano de guerra? Isso muto possível, mas em falta de documento positivo, é somente como hipótese que se pode admitir interferência paulistana em tal mudança.

Cerca de três meses ainda se passariam sem que o projeto ecoasse nos termos de vereança de São Paulo. Finalmente, em 1 de setembro, os capítulos da junta vicentina foram pelo governador submetidos à aprovação da câmara e do povo.

A esse ajuntamento não compareceu, assim como o vereador Pedro Alvares, o juiz Antonio Preto. E na assinatura do termo os vereadores presentes deram precedência a Afonso Sardinha.

O mais importante é que, aprovando e ratificando os assentos, requerimentos e capítulos das vilas do litoral, a de São Paulo se refere à entrada como tendo ser feita "ao nativo do sertão da dita capitania carijós e tupiães e outro qualquer que licitamente se puder trazer".

Aprestavam-se os elementos da expedição e parece que São Paulo seria o ponto de partida. Em 21 de outubro estava tudo disposto para se por em marcha a bandeira. Na sessão desse dia, a que não compareceram os já referidos edis, mas cuja ata, Antonio Preto assinou "de fora", tomaram-se medidas contra os moradores que iam à guerra sem ter pago a "finta" para a casa do conselho e contra os que a ela fossem estando encarregados da defesa e guarda da vila.

Em 2 de novembro, realizando-se sessão para eleger almotacel, não compareceram Pedro Alvares, Diogo Teixeira de Carvalho e Antonio Preto. E em 17, sessão a que também não compareceu Pedro Alvares, os oficiais restantes, Sebastião Leme e Afonso Dias, como Jorge Moreira, vereador do ano passado, "mandarão chamar os moradores da dita vila que havia por os mais serêm idos ao sertão em companhia do capitão-mór Jerônimo Leitão e entrada que se fez ao nativo do sertão", para se proceder à eleição de juízes ordinários, na ausência dos que tinham seguido a expedição.

Muitos foram os bandeirantes dessa companhia. Em 14 de junho de 1586 foi feita em camara a declaração "que toda a gente do povo estava ausente da capital com o capitão Jerônimo Leitão que eram idos a guerra e não ficaram senão as mulheres".

Apesar disso, da lista de 11 paulistanos que com o padre Sebastião de Paiva, segundo Taunay, figuravam no estado maior do governador devem ser retirados alguns nomes. Ficaram em São Paulo, como se vê nas atas: Diogo de Onhate, Antonio de Proença, Sebastião Leme, Salvador Pires e Afonso Dias.

Se de fato essa bandeira rumou para o sertão dos carijós, deve ter seguido pelo vale do Ribeira. Teria ela atingido as cabeceiras do Paranapanema. O que nesse caso não parece provável é que, em buscas de tupinães, tenham descido também o Anhembi. Este ainda seria considerado "caminho de paz"...

O certo é que, depois de assolar o sertão durante nove meses voltou ela a povoado, deixando, talvez, alguns postos ocupados, como o em que ficou com forja o ferreiro Domingos Fernandes. Em 27 de junho de 1586, em São Paulo, Jerônimo Leitão nomeou Diogo Teixeira de Carvalho escrivão de campo. Estava terminada a guerra, a primeira guerra desse capitão governador.





Correio Paulistano/SP
25/07/1942
18/02/2026 01:44:19
Créditos/fonte:
  


EMERSON
2456
Afonso Dias
1555-1622
20 registros

2353
Antonio de Proença
1540-1605
59 registros

2636
Antonio Gomes Preto
1521-1608
23 registros

2465
Diogo de Unhate
1535-1617
93 registros

3562
Diogo Teixeira de Carvalho
2 registros

2279
Domingos Fernandes
1577-1652
65 registros

3561
Pedro Alvares
4 registros



ANO:59
13 de janeiro de 2024, sábado
Consulta em projeto compartilhar
21 de dezembro de 2023, quinta-feira
A2aa Halogroup
18 de janeiro de 2018, quinta-feira
“Ana Camacho, descendente de João Ramalho, Décio Martins de Medeiros”, 18.01.2018
1980, terça-feira
Padre Hélio Abranches Viotti
1969, quarta-feira
“História da siderúrgica de São paulo, seus personagens, seus feitos”. Jesuíno Felicís...
1952, terça-feira
Os Povoadores do Campo de Piratininga. Américo de Moura
22 de agosto de 1942, sábado
Caminho do Anhembi, Américo de Moura, Correio Paulistano, 22.08.1942, página 4
15 de agosto de 1942, sábado
“Domingos Luiz Grou”. Américo de Moura (1881-1953), Jornal Correio Paulistano, página 4
25 de julho de 1942, sábado
“A primeira guerra de Jerônimo Leitão”. Américo de Moura (1881-1953), Jornal Correio Pa...
18 de julho de 1942, sábado
Correio Paulistano, 18.07.1942, página 4. Capitão Jerônimo Leitão, Américo de Moura
7 de dezembro de 1589, quinta-feira
“Manoel Fernandes falecido (...) requerimento do procurador do conselho Gonçalo Madeira...
1580, terça-feira
Nascimento de Balthazar Fernandes no Ibirapuera, filho de Manuel Fernandes Ramos (portu...
19 de junho de 1578, segunda-feira
Intimou-se o único ferreiro da vila de São Paulo, para que, sob pena de dez cruzados, a...
25 de julho de 1942, sábado
“A primeira guerra de Jerônimo Leitão”. Américo de Moura (1881-1953), Jornal Correio Pa...
27 de fevereiro de 1979, terça-feira
Sobre o carnaval em Sorocaba, juiz faz apelo: "Vistam as mulatas"
21 de maio de 1822, terça-feira
Exéquias na igreja de São Francisco de Paula, do Rio de Janeiro
30 de julho de 1642, quarta-feira
11739.jpg
8 de novembro de 1889, sexta-feira
Coronel Custódio Fernandes da Silva se hospeda num hotel no Rio de Janeiro
1768, sexta-feira
Documentos
1 de fevereiro de 1936, sábado
Prisão de pagu Patrícia Rehder Galvão
3 de janeiro de 1889, quinta-feira
Falecimento de D. Gertrudes Januaria da Silva
12 de abril de 1867, sexta-feira
Falece no Rio Grande do Sul o brigadeiro honorário Davi Canabarro (ver 22 de agosto de ...
8 de setembro de 1813, quarta-feira
Inaugurado o primeiro chafariz de Fortaleza
1899
Decreto nº 5.390 de 10/09/1873