*Relatório apresentado ao Excm. Sr. Presidente da Província de S. Paulo pela Comissão Central de Estatística composta dos senhores Dr. Elias Antônio Pacheco e Chaves (Presidente); Dr. Domingos José Nogueira Jaguaribe Filho, Dr. Joaquim José Vieira de Carvalho e Abílio Aurélio da Silva Marques
Comissão Central de Estatística 1888, domingo
— 200 —As aguas do Parahyba correm com bastante velocidade, á excepção do trecho comprehendido entre a freguezia da Escada e a villa da Bocaina, parte em que o rio se presta á navegação.Ha n´elle abundancia de peixes e os terrenos marginaes são ferteis e produzem quasi todos os generos cultivados no paiz.Em seu curso pela provincia banha o Parahyba os municipios de Parahybuna, Santa Branca, Mogy das Cruzes, Jacarehy, S. José dos Campos, Caçapava, Taubaté, Pindamonhangaba, Guaratinguetá, Lorena, Bocaina, Cruzeiro, Queluz e Pinheiros.Conta numerosos pequenos affluentes, de que fazemos menção na descripção dos municipios por elles sulcados.
Tieté.—Primitivamente denominado Anhemby é dos rios da provincia o que tem o medicamento de ser genuinamente paulista. Nasce na Serra do Mar, em territorio do municipio de Parahybuna, passa junto á capital, percorre a provincia sem competidor em toda a sua extensão de sudoeste a noroeste, dividindo-a em duas partes sensivelmente iguaes, e vae desemboccar no Paraná, após um curso de cerca de 1.300 kilometros.De alveo tortuosissimo, o Tieté não me permitte a navegação que comportam suas aguas, pelo grande numero de cachoeiras, corredeiras e outros obstaculos que a formação granitica de seu leito a cada passo levanta. Não obstante, era este antigamente o caminho por onde seguiam, em canôas, as expedições com destino a Matto Grosso, as quaes partiam de Porto Feliz, pelas difficuldades oppostas pelo grande salto que faz o rio perto de Ytú ; e ainda hoje é do mesmo modo e pela mesma via que se fazem as communicações com a colonia militar do Itapura, situada na barra do Tieté, á margem esquerda do Paraná.As margens do rio abundam de alterosa vegetação, e em suas aguas se encontram muitas variedades de peixes, entre os quaes : dourados, piracanjubas, surubys, jahús, bagres e outros muitos de excellente qualidade.O Tieté banha os municipios de Mogy das Cruzes, capital, Parnahyba, Araçariguama, Ytú. Porto-Feliz, Capivary, Tieté, Piracicaba, Botucatú, Jahú e Lençóes.
Seus principaes affluentes são : o Tamanduatehy, que desembocca-lhe pela margem esquerda, uns 3 kilometros a noroeste da cidade S. Paulo ; o rio dos Pinheiros, que vem de sueste, e desembocca pela mesma margem, cerca de 12 kilometros abaixo da capital; o Juquery, pequeno affluente da margem direita ; todos tres com um curso de uns 60 kilometros. A uma legua da cidade de Ytú e cerca de um kilometro acima do salto do mesmo nome, recebe o Tieté, pela margem direita, o rio Jundiahy ; cerca de 100 kilometros abaixo, se lhe junta o piscoso Capivary, affluente da margem direita ; approximadamente á distancia de 13 kilometros d´esta confluencia, recebe o Tieté, pela margem esquerda, o rio Sorocaba, que nasce junto á Serra do Mar, banha o municipio de seu nome, e, depois de juntar-se ao Ypanema, passa entre os municipios de Tieté e Tatuhy, seguindo até á desemboccadura o rumo de norte. Mais ou menos 100 kilometros abaixo desagua no Tieté, pela margem direita, o rio Piracicaba, formado pelos rios Atibaia e Jaguary, os quaes têm suas cabeceiras na Mantiqueira. O Piracicaba é navegavel desde a cidade a que deu o nome, onde se nota uma bellissima quéda, até á sua fóz. [p. 200]
(...) Viação - Como a circulação do sangue é a primeira condição da vida animal, as estradas em geral, facilitando a comunicação entre os povos, estimulando e desenvolvimento as suas relações comerciais, representam importantíssima função na economia social. Assim sendo, bem é de ver que o serviço da viação na província é contemporaneo da fundação da capitania.
De feito, logo depois de ter Martim Afonso de Sousa escolhido o local em que se devia fundar a povoação de São Vicente, a mais antiga d´esta parte da Terra de Santa Cruz, foi seu primeiro cuidado mandar abrir uma estrada que, começando no sítio onde posteriormente se levantou o forte da Estacada, quase defronte o rio de Santo Amaro, junto ao lugar que então servia de ancoradouro ás embarcações, seguia pela praia de Embaré, continuava pela de Itararé e ia finalizar em São Vicente. Tal foi o primeiro caminho que o homem civilizado abriu na província de São Paulo.
No ano de 1560, o governador geral Mem de Sá, visitando a capitania e indo a São Vicente e Paratininga, tomou a picada que, através da serra de Paranapiacaba, era a mais trilhada pelos nativos em seu trajeto para o litoral. Principiava o caminho na raiz da serra, no porto de Santa Cruz do rio Cubatão, denominado primitivamente porto das Armadias, e em terras de Ruy Pinto, e no lanço da serra que atravessava as ingremidades e alcantis de mui difícil acesso.
Compreendeu logo o governador que outro caminho convinha abrir, afim de facilitar a comunicação de beira mar para o interior. Neste intuito dispôs que se abrisse o novo caminho por melhores localidades, encarregando desta tarefa ao padre Anchieta, que de bom grado a desempenhou, aproveitando-se de um trilho feito também pelos nativos, e por ele conhecido, o qual veio a se chamar - caminho do padre José. [Página 265]