A dois quilômetros de Sorocaba, Agua Vermelha é mais um arraial do que propriamente um bairro.E ahi, sob João de Camargo com o seu estado-maior, ha varios annos se instalou creando em torno de si e de sua seita, uma aureola de mysterio que tem chegado até às mais populares como o de Antonio Francisco Gaspar sob o titulo “o mysterio da Agua vermelha”.
Formando um conjunto irregular de casas à margem da estrada, o arraial de nhô Camargo não teve um plano de desenvolvimento uniforme e parece reflectir no seu arcabouço geral, a confusão dos dogmas do velho beato cuja classificação no indice religioso constitue verdadeiro problema por isso que, o famoso macumbeiro, ora se apresenta como medium espirita fazedor de milagres, ora como apostolo de uma crença nova, ora como illuminado creador de um culto especial, ora envolto na penumbra do mysterio como esse padre de Santos, onde uma voz desconhecida lhe ordenou dedicar sua egreja ao padroeiro N. S. Bom Jesus da Agua Vermelha.
Ao mesmo tempo, pasma saber que a igreja mysteriosa de Agua Vermelha tem estatutos e que estes se acham registrados sob os ns. 1 e 40 de ordem no Registro Geral da Comarca por despacho do Exmo. Sr. Dr. Juiz de Direito.Os estatutos da Associação Espirita e Beneficente Capella Senhor do Bomfim, consoante o nome official da seita camarguense, nos quaes se encontram alguns preceitos bem razoaveis estabelecem entre outras cousas o seguinte:
Art. 1.º — A associação espirita “Capella do Senhor do Bomfim” é uma associação religiosa fundada de conformidade com as “Constituições politicas da Republica dos Estados Unidos do Brasil e do Estado de São Paulo, com observancia das leis em vigor.
Art. 27.º — Será prohibido todo e qualquer jogo na associação e festividades; não sendo igualmente permittido leilões, kermesses, casas de tavolagem e botequins ou restaurantes em que se vendam ou forneçam bebidas alcoolicas ou fermentadas.É justo convir que, neste particular, a igreja de João de Camargo andou bem orientada.
Art. 32.º — Os socios são obrigados a respeitar os outros cultos religiosos e seus ministros, evitando quaesquer attritos e dando sempre exemplos de cordura, tolerancia e urbanidade para com os seus adversarios.
(legenda da imagem superior)Nicho do docel da nave central da capella do Senhor do Bomfim, onde repousa a imagem de Pio X.e para abrigar as levas de proselytos que o procuram, Agua Vermelha é accessivel a qualquer mortal e alli, à beira da estrada, parece offerecer os seus prestimos como tocada da mals consoladora piedade christã.Nada de portas trancadas, ou baluartes de machinas nessa villazinha de casas caiadas construidas.
O tabernaculo, situado na nave central, à guisa de altar-mór. A Santa que está no oratorio central é Santa Therezinha. Embaixo, o gradil, dentro do qual dizem existir o telephone directo... com D. Pedro.
(legenda da imagem inferior)Um aspecto parcial de Agua Vermelha.João de Camargo,(Especial para O MALHO)PORPLINIO CAVALCANTInhô Theodoro, e Bahiano seu intimo secretario, ou exercendo qualquer outra funcção no cabido da ordem, é personagem graduado e de absoluta confiança do organ sorocabano.Segundo me informaram, nhô Theodoro é secretario geral da seita e tem a seu cargo a venda dos oleos milagrosos e a administração dos hoteis e das estalagens.Nhô Theodoro, porém, se mostrou algo reservado às minhas perguntas, apenas declarando ser compadre e amigo de João de Camargo. Solícito e gestoso, sem deixar escapar pela fala qualquer cousa que me servisse de visada ou ponto de referencia, o bahiano com elle convivendo, apenas me respondia em monosyllabos vagos.Quando indaguei para que servia a grade existente ao fundo da nave central, abaixo do altar mór, atlas unica peça que me pareceu guardar o celebre telephone ligado ao céu, nhô Theodoro mui naturalmente me respondeu: é alli que elle trabalha...Tambem neste dispositivo evidencia-se uma superioridade e um liberalismo, que muito dogma sobre não soube apprehender e que, não deixa de surprehender, em face da mixordia que forma a estrutura basica da seita em vista.Dotado das instalações indispensaveis ao seu “metier”Página 26