HISTÓRIA DA COLONIZAÇÃO PORTUGUESA DO BRASILmanuscritos, ao ciclo de viagens iniciais, tornou possível o ascendente de Vespúcio nesta página obscura dos descobrimentos do litoral da América do Sul.De Aires do Casal não eram ignorados nenhuns dos textos impressos em que há referências às primeiras expedições, desde Gabriel Soares de Sousa (Tratado descriptivo do Brasil) até Frei Gaspar da Madre de Deus (Memorias para a Historia da Capitania de S. Vicente).
O primeiro historiador do Brasil, Pero de Magalhães Gandavo, nada nos diz de útil àcêrca dêstes primeiros navegadores dos litorais brasileiros. Perdidos até hoje os manuscritos da Provincia de Santa Cruz, de João de Barros; da America Portuguesa, de Manuel de Faria; do Roteiro da Costa do Brasil, de Diogo de Castro; sumidos os relatórios dos capitães das armadas; desconhecido o destino que levaram as pesadas arcas atochadas de documentos, que correu terem sido transportadas da Tôrre do Tombo para Castela no reinado de Filipe II,—Vespúcio reina, solitário e glorioso, nos domínios dêste período histórico.
Gabriel Soares de Sousa, em 1587, parece desconhecer a expedição de 1501, ou confunde-a com a de 1503. É êle o mais antigo dos depoentes neste processo, depois de Damião de Góis. Aires do Casal prestou-lhe, por isso mesmo, especial atenção. Ora, o autor do Tratado descriptivo, citando a expedição de Gonçalo Coelho, diz que ela foi composta de três navios (148): precisamente o número de velas da flotilha de 1501. Dêste facto deduz Aires do Casal que Gonçalo foi, realmente, o seu comandante (149). Esta sanção abrange a versão de Gabriel Soares sôbre a segunda expedição, que o Tratado informa haver sido capitaneada por Cristóvão Jacques, o qual só anos depois navegou nos mares americanos.
Pedro de Mariz, nos Dialogos de Varia Historia, consigna apenas a armada de seis navios, sob o comando de Gonçalo Coelho, no que está de acôrdo com Damião de Góis.Jaboatão, no Novo Orbe Serafico, e o padre Simão de Vasconcelos, na Chronica da Companhia de Jesus do Estado do Brasil (150), entregaram discricionàriamente a Vespúcio a vara do comando da expedição de 1501 e reconheceram em Gonçalo Coelho o capitão da armada trágica de 1503—mas invertem os itinerários, atribuíndo à segunda frota exploração mais extensa que à de 1501: versão que melhor se ajusta à prova cartográfica do planisfério de Cantino.
Foi d´Avezac o primeiro historiador que lançou a candidatura de D. Nuno Manuel ao comando da expedição de 1501 (151).
Porque D. Nuno Manuel? O filho de D. João, Bispo da Guarda, e de Justa Rodrigues, irmão de leite do rei D. Manuel e irmão consanguíneo de D. João Manuel, camareiro-mór do soberano, exercia na côrte os altos cargos de guarda-mór e almotacé-mór. Uma personagem desta proeminência não comandaria uma expedição sem que a memória dela ficasse celebrada, nem se atreveria a petulância de Vespúcio a referir-se ao valido do monarca, se fôra êle o seu comandante, em têrmos que pudessem parecer de menos respeito. Com D. Nuno Manuel no comando, a scena canibalesca de 24 de Agosto teria sido provàvelmente vingada.
Só o imperfeito conhecimento dos homens e da época explica a indicação do irmão colaço do soberano para comandante de expedição em que tam pouco podia luzir um cavaleiro daquela jerarquia, quando não faltavam outros palcos, na África e na Ásia, onde a nobreza melhor pudesse ornar os nobiliários com novas proezas.D. Nuno Manuel cooperou na epopeia marítima armando navios por sua conta, como D. Álvaro de Bragança, Fernão de Loronha, o conde de Pôrto Alegre (D. Diogo da Silva de Menezes) e Fernão Lourenço, feitor da Casa da Mina, "hum dos magnificos homens daquelle tempo" no dizer de Damião de Góis, e cuja opulência se infere de ter sido êle o edificador dos paços de Santos o velho,
(148) "A estas partes foi depois mandado por S. A. Gonçalo Coelho com tres caravellas de armada, para que descobrisse esta costa, com as quaes andou por ella muitos meses buscando-lhe os portos e rios, em muitos dos quaes entrou, e assentou marcos dos quaes para este descobrimento levara; no que passou grandes trabalhos pela pouca experiencia e informação que se até então tinha de como a costa corria, e do curso dos ventos com que se navegava..." Cap. I do Roteiro Geral, a pág. 4 da 2.ª edição de 1879 do Tratado Descriptivo do Brasil (1587).
(149) "Sendo Gonçalo Coelho o Almirante da primeira esquadra espedida a continuar o Descobrimento de Pedralvez; e indubitavel que a primeira Armada, que sahiu de Lisboa com este intuito, foi a de tres caravellas em quinhentos e um, segue-se ter elle sido o seu Commandante, e não o das seis, que sahiram em quinhentos e tres". Corografia Brasilica. Introdução, a pág. 44, nota.
(150) Novo Orbe Serafico Brasilico, ou Chronica dos Frades Menores da Provincia do Brasil, por frei António de Santa Maria Jaboatão, Estância II, pág. 6 da 2.ª edição de 1858. Rio de Janeiro.Chronica da Companhia de Jesus do Estado do Brasil, pelo padre Simão de Vasconcelos. Introdução do Livro Primeiro, pág. 14 e seg. da 2.ª edição de 1867. Rio de Janeiro.(151) Considerations sur l´histoire géographique du Brésil, a págs. 17, 81, 174 e seg. [p.214]HISTÓRIA DA COLONIZAÇÃO PORTUGUESA DO BRASILNa armada do ano de 1519 foi também um navio de D. Nuno Manuel, a quem o rei deu licença para armar uma náu para a Índia e China, a carregar mercadorias. Chamava-se Madanela, de que era capitão Diogo Calvo, criado de D. Nuno Manuel. Na Índia, embarcaram nesta náu também os capitães Rafael Perestrelo e Rafael Catanho, e foram ao pôrto de Bintão carregar mercadorias (29).Das notícias, precedentemente dadas em resumo, sabe-se que D. Nuno Manuel, com licença régia, armou dois navios para ir aos pontos da Índia e China. Parece que àlém da armação dêstes dois navios D. Nuno Manuel também teve parte na armação de outros que fizeram uma viagem à terra do Brasil. Álvaro Mendes de Vasconcelos, embaixador de Portugal em Castela, em carta dirigida a D. João III, datada de Medina do Campo, a 14 de Dezembro de 1531, diz (30): «A sustancia do que lhe respondi [á Imperatriz D. Isabel, mulher de Carlos V de Castela] foi que lhe beijava as mãos por começar a entender estes do seu conselho, e o modo de negocear que sempre buscavam, e pois que já asy entrava nisto que de todo os devia apartar de cousa tão herrada, como herão estes requerimentos por qualquer maneira que fossem. porque pera boa reposta e justa de tudo o que me dizia e lhe dizião, dous soos pontos notase por principaes, afora outros muitos que todos muitas vezes lhe tinha dito. o primeiro que V. Alteza no regimento de Martim Affonso lhe mandava e encomendava toda a amizade com castelhanos, que lhe não tomasse nem contendesse sobe cousa que possuissem segundo em que se arrematão todos ho que conforme aas capitulações dos Reis passados, V. Alteza lhe mandou por my dizer, que ela por parte do Imperador e sua mandasse averiguar em que tempo descobriram o Solis [o Rio da Prata], e que V. Alteza mandaria muy brevemente saber em que tempo descobriram hûa armada de D. Nuno Manuel, que por mandado del Rey vosso pay que está em gloria, foi descobrir ao dito Rio. e que quem achasse por verdade que primeiro descobrira, estivesse em posse até se lançar a linha, etc.»Era costume designar as armadas, despachadas para a Índia, pelo ano e pelo nome do capitão-mór; e posto que na carta do embaixador Álvaro Mendes de Vasconcelos se diga uma armada de D. Nuno Manuel, é improvável que D. Nuno Manuel fôsse o capitão-mór dela, ou ainda o capitão de um navio. Com efeito, nenhuma notícia há de que D. Nuno Manuel seguisse a carreira dos navegadores; e como foi sempre adstrito, desde a sua juventude, à pessoa de D. Manuel, não só quando duque de Beja, mas depois quando rei, não é de crer que o soberano permitisse que D. Nuno se afastasse dêle e por tanto tempo como era a viagem à terra do Brasil. E' pois de crer que a ingerência de D. Nuno Manuel naquela armada, a que se refere a carta do embaixador Álvaro Mendes de Vasconcelos se limitasse à armação de um navio.D. Nuno Manuel gosava não só de muita confiança do monarca, mas também era de grande autoridade na côrte. Quando o rei foi acometido da doença de que faleceu em Lisboa, a 13 de Dezembro de 1521, foi assistido por D. Nuno Manuel. Damião de Góis (Chronica de El-Rei D. Manuel, parte quarta, cap. 83) conta que «a Rainha D. Leonor sua mulher, e a infante D. Isabel sua filha, e o princepe D. João seu filho (que neste tempo estava em Salvaterra, donde sabendo da doença del Rei seu pay se veio logo pera elle) o acompanharam ate o septeno dia da sua doença; no qual vendo D. Nuno Manuel, seu guarda mor, que desesperavam os physicos de sua vida, fez recolher a Rainha e a infanta pera hûa camara junto da donde el Rei jazia, e ho mesmo fez ao princepe que fezesse, pelo que logo se foi pera hum aposento que vai sobelo
. Isto mostra não só o zêlo e amor com que D. Nuno Manuel serviu o seu rei, mas também a grande autoridade que tinha junto das pessoas da família real.Depois do falecimento do monarca, D. Nuno continuou a exercer os cargos de almotacé-mór e de guarda-mór durante os primeiros anos do reinado de D. João III.D. Nuno Manuel foi casado duas vezes: a primeira com D. Leonor de Milá, filha de D. Jaime de Milá, conde de Albayde e da condessa D. Leonor de Aragão, de quem teve sete filhos.___________________(29) Lendas da Índia, tômo II, págs. 574 e 678. João de Barros, Dec. III, liv. VI, cap. 11.(30) Arquivo Nacional, Corpo Chronologico, parte 1.ª, Maço 48, N.º 8.[p.356]