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Manuel Aires de Casal
Corografia Brazilica ou Relação Histórico-geográfica do Reino do Brasil. Composta e dedicada a Sua Majestade Fidelíssima, tomo I, 1817
1817, quarta-feira ver ano




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A Armada, depois de ter reconhecido o Cabo de Santo Agostinho, e navegado ao longo da costa, apostou na Bahia de Todos os Santos, onde encontrando dois navios franceses, fez preza nele: do que Martim Afonso deu logo notícia ao Soberano por João de Souza, capitão de um dos navios da Armada, com a qual ficou alí até chegar a monção de poder continuar a viagem para o Sul. Depois de ter refrescado em Porto Seguro, foi entrar na bahia de Santa Luzia, á qual trocou o nome pelo de Rio de Janeiro, por ser no primeiro dia do ano de 1532. [Página 51]

(...) Onde meses gastou Martim Afonso por estas paragens em diversas operações, e em acabar de correr a Costa até o Rio da Prata, onde se achava, quando o Sol chegou ao trópico de capricórnio em 1533, segundo a dúvida que propôs ao Doutor Pedro Nunes, quando voltou ao reino.

Não encontrando estabelecimento algum Castelhano em toda a Costa, tornou á colonia estabelecida sobre a entrada meridional da bahia de Santos, e aumentou-a consideravelmente, dando terrenos e todos os que quiseram estabelecer-se, segundo a ordem que levava.

Não sabemos se foi antes de ir ao Rio da Prata, se depois da chegada, quando os Carijós lhe assassinaram oitenta portugueses, que expedira a descobrir, ou conquistas as minas de Cananéa. [Página 52]

Rio dos Patos lhe chamaram os primeiros descobridores, porque servia de limite entre os nativos deste nome, que se estendiam até o de São Pedro, e os Carijós para o Norte até Cananéa. [Página 187]

A maior parte da população desta Província é oriunda das Ilhas dos Açores: os negros não são numerosos, e os mestiços ainda menos. Dos aborígenes os Patos entranharam-se pelo continente; os Carijós, por serem afáveis, foram os primeiros apreendidos pelos Vicentistas: e daqui procedeu fazerem-lhes o nome comum a todos os domesticados de qualquer nação que fossem. [Página 192]

Montes. Este país não é montuoso, se excetuarmos a parte oriental, onde em todo o seu comprimento, ao longo do mar tem a cordilheira geral, a que ás vezes dão o nome de Cubatão. Esta serra não é em toda a parte de uma mesma altura, nem corre sempre em igual distância da praia. Tem muitas quebradas, por algumas das quais descem torrentes para o Oceano, e curvidades para o interior, deixando alguns pedaços de terreno médio; e é em toda a parte coberta de mato. Sendo quase geralmente alta para a bana do mar, tem pouco declívio para o Poente; e é o terreno mais alto da Província, depois de excetuarmos alguns montes dispersos no interior; pois que os mais caudalosos rios, que a regam, tem nela suas origens, e correm para o Poente.

A serra Araassoiava, por corrupção Guarassoiava, que significa cobertura do sol, aludindo á grande extensão de terreno, que fia debaixo da sua sombra muito tempo antes que o Planeta se aproxime ao horizonte. Esta montanha, que tem três léguas de comprimento, e largura proporcionada, toda é um um puro mineral de ferro; e está no distrito da Vila de Sorocaba. [Página 203]

Junto á cabeceira do Jaguariquatú está o alto Monte Pirapirapuan, que se avista de muito longe, e tem ouro. O Monte Thahó, sobranceiro ao Rio Thajahi, também é alto, e tem o mesmo metal. A Serra Dourada fica no campo de Guarapuaba ao Poente do Tibagí. [Página 204]

O Rio Iguassú, que na língua brasílica significa água grande, e cuja principal cabeceira é a Ribeira de São José, quando atravessa a estrada real das Lages para Sorocaba, já é de canoa, e corre com o nome de Curytiba. Seu curso é sempre ao Poente, formando muitas cachoeiras, que interrompem a navegação, engrossando sensivelmente com os que lhe juntam por um e outro lado, principalmente pelo meridional; e limitando pelo Sul os vastos campso de Guarapuába, habitados de Gentio.

A primeira cachoeira grande, denominada Cayacanga, fica quatro ou cinco léguas abaixo da mencionada estrada, e a maior dez milhas acima da sua embocadura, onde tem cento e treze braças de largo. Esta catadupa tem duzentos pés de altura perpendicular. As margens do rio neste lugar são de rocha a prumo; e a corrente furiosa.

Um sertanista, que desceu por este rio, diz que ele é navegável sem embaraço desde Cayacanga até o salto da Victoria; mas não declara a extensão deste intervalo, nem os nomes, e situações de sete grande cachoeiras, que encontrou até a sua confluência com o Paraná.

No ângulo da sua confluênci existiu por alguns anos a Aldeia de Santa Maria de Iguassú. Uma fome a fez desaparecer.

O que neste rio se encontra de mais provável além da derradeira catadupa, é o chamado Funil no centro do país, onde corre rapidamente apertado por entre ribanceiras de rocha talhada a pique com forma de uma rua de mediana largura. Na sua vizinhança vive uma horda de nativos Purys, e outra de Guayanhás com alguns homens alvos, e espadaúdos. [Páginas 207 e 208]

O Rio Paranapanêma tem princípio na cordilheira do mar ao Poente de Itanhaém; e quando atravessa a estrada real de Sorocaba já não dá vau. Seus primeiros tributários consideráveis são o Itapitininga, que se lhe une pela direita, e o Apiahy pela esquerda, com cujas águas fica caudaloso, e largo. [Página 209]

O Rio Tieté, em outro tempo Anhemby, nome que lhe deu uma tribo nativa, tem sua nascença obra de vinte léguas a Leste da Cidade de São Paulo, da qual passa não muito arredado, e obra de quatro milhas abaixo recolhe pela margem esquerda o Rio dos Pinheiros, que vem do Sudeste com seis léguas de curso. Depois de treze léguas recebe pela direita o Jundiahy, quje passa pela villa de seu nome. Junto desta confluência forma o Tieté uma grande cadadupa, que impede a subida aos peixes: e quinze léguas adiante se lhe junta o Capibary por uma boca de seis braças de largura, depois de ter atravessado um extenso bosque de majestoso arvoredo. Duas léguas abaixo, desagua na margem esquerda com oito, ou nove braças de largura o Rio Sorocába, que nasce na serra do Cubatão ao Poente de São Vicente, e passa pela Vila, que lhe toma o nome.

Obra de quinze léguas adiante do precedente sai na margem direita, e por uma boca de quatorze braças o considerável Pirassicaba, que é formado pelo Tybaia, e Juaguary, cujas cabeceiras ficam no Nordeste de São Paulo, e atravessa vastíssima mata de corpulentas árvores, de cujos troncos, assim como das que se criam nas beiradas do mencionado Capibary, se fazem ali mesmo as grandes canoas de oitenta palmos de comprimento, sete e meio de largura, e cinco de alto, em que se navega para o Cuiabá, e carregam quatrocentas arrobas, afora o mantimento necessário para oito homens de tripulação; e ás vezes passageiros. [Página 210]

No intervalo, que medêa do Rio Jaguariquatú até o mencionado Apiahy, encontram os viajantes da Vila do Príncipe para Sorocaba, entre outros menores o Tereré, o Verde, e o Taquary, correndo também para o Poente a engrossas o Tibagy, ou o Paranapanema. O primeiro e meridional, quando cruza a estrada, passa escondido por baixo de uma Ponte alta de rochedo, obra da natureza, e uma das raridades da Província. [Página 213]

A parte oriental desta Província era possuída por duas nações aborígenes: Carijós, e Guayanás era os seus nomes: estes ficavam ao Norte daqueles. Toda a ocidental ainda está em poder do gentio bárbaro. Os paulistas tinham o nome de Bugres aos que dominam o terreno, que se estende do Rio Tieté até o Uruguay. A setentrional é ainda ás vezes visitada pelos Cayapós, cujos alojamentos estão da outra banda do Paraná. [Página 220]

Sorocaba, situada na paragem, onde o rio do seu nome atravessa a estrada real da Curytiba para a Capital, da qual dista dezoito léguas para o Poente, é uma vila considerável, e florescente, ornada com uma Igreja Paroquial da Invocação de Nossa Senhora da Ponte, um recolhimento de mulheres, um Hospício de Bentos, uma ermida de Santo Antônio: os Pretos continuam na fatura de outra para colocar Nossa Senhora do Rosário.

A sua atual população compõe-se de 1.777 vizinhos, dos quais dois terços são brancos: uns criam gado vacum, e cavalar; outros cultivam algodoeiros, canas-de-açúcar, milho com os mais víveres comuns do país; mas assuas riquezas provêm-lhes das negociações do gado, que vem do sul, e cujos direitos aqui se cobram.

Nos seus contornos há pedra calcárea, e boas pederneiras. O que há de fazer esta vila mui grande, célebre e famosa, é a Real Fábrica de Ipanema, que em distância de duas léguas, ou pouco mais, se está levantando junto à ribeira deste nome, para aproveitar as riquíssimas minas de ferro da Serra Guarassoiava.

No distrito de Birassoiava descobriu-se há largo tempo uma mina de prata,que foi abandonada em razão da sua pobreza, e difícil extração. [Páginas 243 e 244]





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