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Novo experimento reacende enigma sobre a "bateria de Bagdá"
31 de jan. de 2026, sábado ver ano


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Há quase um século, nos arredores de Bagdá, surgiu um dos enigmas arqueológicos mais controversos da história moderna. A descoberta do que pareciam simples vasos de argila passou a dividir a comunidade científica: seriam um dispositivo elétrico milenar – talvez as primeiras baterias da história – ou simples recipientes usados em rituais?

A descoberta do que hoje se conhece como a "bateria de Bagdá" remonta a 1936, quando trabalhadores ferroviários iraquianos desenterraram acidentalmente várias tumbas antigas em Khujut Rabu, perto das ruínas de Ctesifonte, cidade que foi capital dos impérios Parta e Sassânida.

Localizada em um ponto histórico crucial do Oriente Próximo, a região esteve sob domínio parto entre aproximadamente 150 a.C. e 223 d.C., passando depois ao Império Sassânida até meados do século 7 d.C. Esse intervalo amplo dificulta uma datação precisa dos objetos encontrados.

O aspecto mais intrigante dos vasos de terracota encontrados nessas tumbas não era seu tamanho, cerca de 14 centímetros de altura, mas a combinação de materiais escondida em seu interior: uma haste de ferro encaixada dentro de um cilindro de cobre, tudo isolado do exterior por um selamento de betume.

Foi Wilhelm König, então diretor do Museu Nacional do Iraque, quem, em 1938, lançou a hipótese que incendiaria décadas de debate. Ele sugeriu que esses artefatos poderiam ter funcionado como baterias primitivas, talvez usadas para eletroterapia ou até para galvanoplastia, séculos antes de Alessandro Volta criar a primeira bateria elétrica conhecida no século 19.

Experimentos com réplicasSegundo a revista especializada La Brújula Verde, a ideia ganhou notoriedade quando König usou uma réplica para reproduzir o experimento: ao adicionar um eletrólito, conseguiu gerar uma fraca corrente elétrica. A partir daí, relacionou o achado aos objetos semelhantes encontrados na região de Bagdá, sugerindo que vários vasos conectados em série poderiam produzir um voltagem utilizável. A pergunta inevitável permanece: os antigos partos ou sassânidas tinham algum conhecimento prático ainda que empírico de eletroquímica?

Desde então, a teoria de König foi testada inúmeras vezes. Após a Segunda Guerra Mundial, o engenheiro Willard Gray, da General Electric, construiu uma réplica, preencheu-a com sulfato de cobre e, segundo seus relatos, conseguiu gerar até dois volts.

Décadas depois, em 2005, o programa americano Caçadores de Mitos testou a hipótese na TV. Usando dez réplicas conectadas em série e suco de limão como eletrólito, os apresentadores produziram cerca de 4,5 volts, classificando o mito como "plausível".

Neste ano, um estudo publicado pela revista Sino-Platonic Papers reacendeu o debate. Seu autor, Alexander Bazes, afirma que muitos experimentos anteriores subestimaram o potencial do dispositivo ao ignorar um detalhe crucial: o vaso poderia funcionar como "duas baterias em uma".

Bazes é um pesquisador independente e a revista, embora ligada à Universidade de Pensilvânia, se propõe a publicar o resultado de pesquisas que, "por conta de sua natureza controversa, poderiam não ser publicadas".

Bazes também destaca o resultado de sua análise na revista especializada Chemistry World. Segundo seus testes, o próprio recipiente de argila atuaria como separador entre um eletrólito externo e o ar, gerando uma segunda fonte de voltagem que, combinada com a célula interna de cobre e ferro, produziria cerca de 1,4 volt por unidade – valor comparável ao de uma pilha AA moderna.

Hipóteses de uso: galvanoplastia, eletroterapia e rituais religiosos

As teorias sobre o possível uso desses supostos dispositivos variam bastante. Algumas sugerem aplicações práticas, como a galvanoplastia de metais preciosos (revestir um objeto metálico com outro metal) ou tratamentos médicos rudimentares semelhantes a formas iniciais de eletroterapia.

Outras hipóteses são mais imaginativas. Uma das mais curiosas – embora pouco provável – propõe um uso teatral em rituais religiosos: a encenação de "truques elétricos" em templos. Como explicou o arqueometalurgista Paul Craddock à BBC em 2003, especulou-se que uma estátua conectada aos vasos poderia dar um leve choque a quem respondesse incorretamente a um sacerdote – um "efeito divino" para reforçar a autoridade religiosa. A ideia carece de evidências.

Já Bazes propõe um uso ritual menos espetacular: a chamada "corrosão cerimonial". Nessa hipótese, orações escritas seriam colocadas em contato com o dispositivo, e o processo de corrosão visível seria interpretado como manifestação de uma energia atuando sobre as preces. Em seu artigo, ele reconhece que sua sugestão não é unanimidade entre especialistas.

Arqueologistas permanecem céticosApesar das especulações, o consenso arqueológico permanece amplamente cético. William Hafford, da Universidade da Pensilvânia, que estudou o artefato em profundidade, afirma que se tratava simplesmente de frascos rituais destinados a conter orações ou oferendas, segundo declarou à Chemistry World.

Essa interpretação é reforçada por achados semelhantes na região, incluindo um vaso de argila contendo até dez tubos de cobre – uma configuração claramente impraticável como bateria. Nessa visão, as hastes de ferro não seriam eletrodos, mas pregos rituais. O procedimento consistiria em inserir preces escritas pelo gargalo do recipiente, selá-lo com betume e enterrá-lo como oferenda a divindades do submundo.

O próprio contexto da descoberta aumenta as dúvidas: o achado foi acidental, durante a construção de uma ferrovia, sem documentação arqueológica sistemática. Soma-se a isso uma perda irreparável: o artefato original desapareceu durante o saque ao Museu Nacional do Iraque, em 2003. Desde então, as pesquisas dependem apenas de fotos antigas em preto e branco e descrições incompletas.

Além disso, como destaca o químico Gerhard Eggert em artigo para a revista Skeptical Inquirer, os experimentos modernos apenas demonstram que uma tecnologia antiga poderia ser tecnicamente possível, não que tenha sido realmente usada. Eggert, cita, por exemplo, que na antiguidade não se conheciam líquidos ácidos capazes de uso como eletrólitos.

A ausência total de objetos galvanizados da época, a falta de dispositivos comparáveis e a inexistência de evidências de conhecimento sistemático de eletroquímica na antiga Mesopotâmia reforçam o ceticismo em relação à chamada "bateria de Bagdá".





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