29 de janeiro de 2009, quinta-feira 05/12/2025 04:46:01
O Padre Manoel de Jesus Maria e o Capitão Francisco Pires Farinhoincursionaram nas terras da freguesia para destruição de quilombos. Nestasentradas e expedições empregaram-se os índios aldeados. Em uma das exploraçõesnos sertões do Rio Xopotó, na Serra Negra, um grupo de índios, o Vigário de RioPomba e Manoel Rodrigues da Costa191 rondaram os matos para captura de negrosfugidos. Após verificação de uma fumaça no horizonte e de plantações, certificouse da existência de um quilombo naquelas paragens. Neste sentido, o Vigárioretornou a Igreja de São Manoel, e nomeou trinta homens brancos e índios paralocalização dos quilombolas. Os expedicionários conseguiram capturar um negronaquelas paragens, e o encaminharam ao aldeamento para que o Vigário ointerrogasse.192 O negro capturado declarou-se Angola, por ser “mais boçal queladino”; utilizaram um escravo do aldeamento para compreendê-lo. O quilombolaafirmou que: “Há verdade, é certo ser o quilombo muito grande, e muito antigo edistância grande e sempre”. O negro argumentou que foi introduzido nestacomunidade por quatro parceiros. O cativo fugido afirmou que em sua povoaçãopossuíam “inúmeras roças com plantações de cana de açúcar, bananas, laranjas,muito algodão e também descaroçadores”.193 Embasados no depoimento doquilombola a tropa da aldeia resolveu devassar a região para descobrir o tamanhoda povoação dos aquilombados.Na paragem do Rio Pomba e Peixe existiram inúmeros quilombos quepromoviam “insultos” nos distritos circunvizinhos. Os distritos de São José da BarraLonga, Furquim, São Caetano, Sumidouro, São Sebastião e Inficionado solicitaramao Governador providências para conter os constantes assaltos dos quilombolas.Os distritos colocaram seus soldados e esquadras nas “bocas dos matos” paraformação de um “poderoso cerco” aos escravos fugidos. Os negros apreendidos seriam encaminhados as cadeias e os Capitães do mato receberiam 20 oitavaspelas capturas.194O Vigário Manoel de Jesus Maria acompanhava os expedicionários nadestruição de quilombos, nos descimentos dos índios e nas explorações em buscade ouro. Todavia, os eclesiásticos participavam das investidas de conquistas dossertões através da administração dos sacramentos.195 Outrossim, um Vigárioparoquial não deveria se ocupar destas atribuições, mas o nosso personagemcomandou inúmeras destas entradas de conquista dos sertões. O sacerdoteencaminhava ao governo da Capitania informações sobre os descobertos auríferos,explorações nos sertões e indicava medidas para sua distribuição.196 O Vigário e oDiretor dos índios deveriam observar a exploração das terras sertanejas, a fim deque não causassem prejuízo aos índios aldeados. Estas autoridades eramresponsáveis pela aplicação do Diretório, especialmente no tocante a liberdadeindígena e na propriedade de suas terras. 197 O Diretor dos índios e o Vigárioaveriguavam se as terras requeridas em sesmaria eram “incultas, devolutas,localizadas em áreas proibidas minerais ou na passagem do rio navegável quedividem o Rio de Janeiro, São Paulo e Espírito Santo”.198 Estas atribuições de [p. 69, 70]
defensores das terras dos aldeamentos indígenas e de responsáveis por certificar apossibilidade de doação das mesmas desencadearam conflitos na localidade. OPadre Manoel de Jesus Maria escreveu constantemente a Coroa pedindoprovidências para manutenção da propriedade das terras indígenas.199 O poder doVigário e do Capitão Francisco Pires Farinho chocavam-se com a ação dospotentados locais estabelecidos. O Padre necessitava de um caminho para conduzirmantimentos às Aldeias tomando atalhos em alguns morros. Ignácio de Andrade200impediu esta diligência, porque as estradas perpassavam suas propriedades. Ocolono desejava que a picada fosse efetuada pelos “morros ingrimes” para as tropase passageiros não percorrerem suas terras. O Vigário de Rio Pomba solicitouprovidências do governador para solução desta contenda, porque Inácio Andradenão possuía título de suas terras. O Conde de Valadares despachou em favor doVigário, argumentando que Andrade deveria se empenhar na confecção da estradaque somente seria impedida se promovesse o extravio de ouro. 201Os víveres para as aldeias nos vales do Rio Pomba eram atravessados portropas eqüinas, escravos e canoas. O Vigário comprou alguns cavalos paratransporte de víveres e sal, pois nenhum tropeiro queria se aventurar a penetrarsertões ainda pouco explorados.202 As picadas se desfaziam rapidamente pela faltade reparos e pelas intempéries. O Vigário argumentou que os caminhos próximosao Rio Xopotó e Turvo estavam destruídos em decorrência da “desunião de seus moradores”. O Vigário sugeriu a construção de um “caminho para cavalos emgrande distância” para a Igreja de São Manoel. 203A construção destes caminhos sinalizava as dificuldades da atuaçãosacerdotal do Padre Manoel de Jesus Maria, que para seu trabalho pastoral deveriapercorrer longas distâncias até as aldeias indígenas. O Vigário não possuíasubsídios para pagamento da confecção dos caminhos. Para tanto, solicitou aogovernador que assegurasse a posse das terras aos colonos empenhados nacatequese dos índios e na construção das estradas. Os colonos estabelecidos naregião afirmaram que os indígenas não possuíam “disposição para o trabalho” eeram “pessoas inimigas” do Vigário, porque eram “criados sem preceito”.204 Nesteperíodo demarcou-se quadras de terras destinadas às aldeias indígenas do RioTurvo e Xopotó, com o objetivo que não fossem ameaçadas pela invasão desesmeiros após o término da construção do caminho.205Os caminhos nos vales do Rio Turvo e Xopotó eram considerados essenciaispara a administração dos sacramentos aos índios.206 O Vigário entravaconstantemente pelas picadas administrando a catequese aos nativos. 207 O Condede Valadares ressaltou os benefícios das expedições nos domínios dos índiosCropós e da necessidade de congregá-los para defesa de suas terras. O Governadorsalientou a necessidade de reunir os índios na aldeia do Padre Manoel de JesusMaria.208 Organizaram-se inúmeras expedições para descimento de índios aoaldeamento de Rio Pomba.209 Para os colonizadores, a redução dos índios constituía a forma eficaz de promover o povoamento da região, ou seja, a conquistados domínios indígenas. Os Corpos de Ordenanças da localidade fiscalizariam oextravio de gêneros e principalmente de ouro. O Marquês de Pombal ordenou acontenção dos contrabandos de ouro e diamantes nos sertões do “Cuieté, Rio Doce epartes vizinhas”; proibiu que “pessoas transcorressem este sítio sobre o qualquerpretexto”.210 O Capitão Francisco Pires Farinho e José de Abreu Soares foram osencarregados pela verificação no descaminho de diamantes nos Vales do RioPomba e Xopotó.211Os ataques de bandos armados nas serras da Mantiqueira212 aos viajantesnas estradas do Rio de Janeiro para Vila Rica, “caminho de Garcia Rodrigues”213,potencializaram os projetos de confecção de uma estrada entre Campos dosGoitacazes e o Rio Xopotó. O Caminho Novo ou “de Garcia Rodrigues” erapercorrido em três semanas ou em um mês, com “subidas e descidas de montesmuito empinados”. Percorriam-se sessenta léguas e gastava-se muito com asjornadas pagas aos comboios. Os caminhos do Xopotó aos Campos de Goitacazesapresentavam-se como solução para as atribulações e gastos com as viagens no“Caminho de Garcia Rodrigues”. Vila Rica distanciava-se do Xopotó em treze léguas,e da povoação para Campos dos Goitacazes, pelos caminhos dos índios, somavamse mais treze léguas. O emprego das veredas indígenas para o Rio de Janeirorepresentava uma economia nos recursos e comodidade para as viagens, pois nãose percorreria um relevo acidentado como o encontrado no Caminho Novo. Asviagens transcorreriam por planícies ou pela navegação nos Rios Pomba eParaíba.21 [p. 71, 72, 73]