Um dos argumentos sionistas mais comuns em relação a deslegitimação da ‘’Palestina’’ é de natureza etimológica. Segundo atestam alguns, o termo teria sido cunhado pelo imperador romano Adriano para punir os judeus da província romana da Judéia após a Revolta de Bar Kokhba e sua expulsão, mudando seu nome para o relacionado à uma nação inimiga que vivia ali, a dos filisteus. Mas seria isto verdade? Em curta palavra, não.
Por volta de 135 d.C, a Síria Palestina era uma província romana que foi estabelecida pela fusão da Síria Romana e da Judéia Romana, pouco antes ou depois da Revolta de Bar Kokhba, e da diáspora judaica. Existem apenas evidências circunstanciais que ligam Adriano à mudança de nome e a data precisa não é certa. A visão comum de que a mudança de nome pretendia "cortar a ligação dos judeus com a sua pátria histórica" é contestada. O historiador Zachary Foster em sua dissertação de doutorado afirma que "a maioria dos estudiosos acredita que o imperador romano Adriano mudou o nome administrativo provincial da Judéia para Palestina para apagar a presença judaica na terra", e opina que "é igualmente provável que a mudança de nome tenha pouco a ver com o ódio aos judeus e mais a ver com o caso de amor de Adriano com a Grécia antiga’’, pois, a região já era assim conhecida pelos gregos.
Heródoto, por exemplo, no século quinto antes de Cristo, nomeia a região de Palaistinê. Foster acrescenta que há “poucas evidências diretas sobre quem fez a mudança, quando e em que circunstâncias”, e que pode ser que Adriano não tenha “renomeado” o país, mas simplesmente “chamado o lugar como era chamado antes” (pelos gregos clássicos). Louis Feldman argumenta que antes da mudança do nome da província, o termo era usado para se referir à região costeira associada aos filisteus e que os autores do primeiro século diferenciavam a Judéia da Palestina. Ou seja, não foi um termo criador por Adriano, já sendo conhecido por Heródoto.
Quando os árabes vão conquistar a região mais tarde, em 638, aquela região será nomeada como Jund Filstin ou "Distrito da Palestina", dando continuidade a tradição greco-romana. A população local, descendente de todos os povos que um dia ali habitaram, judeus incluso, irá se arabizar ao longo dos séculos e adquirir uma cultura híbrida com mais elementos árabes advindos da Península mesclado aos elementos levantinos, como a língua e a culinária, porém, aquela terra continuará sendo conhecida como Palestina desde Heródoto até os dias de hoje, mesmo com os intervalos de Judeia e Israel.
Bibliografia:
- Foster, Zachary (November 2017). The Invention of Palestine (thesis). Princeton University.
- Avni, Gideon (2014). "Shifting Paradigms for the Byzantine–Islamic Transition". The Byzantine-Islamic Transition in Palestine: An Archaeological Approach. Oxford: Oxford University Press.
- Jacobson, David (1999). "Palestine and Israel". Bulletin of the American Schools of Oriental Research. 313 (313): 65–74.
- Lehmann, Clayton Miles (Summer 1998). "Palestine: History: 135–337: Syria Palaestina and the Tetrarchy". The On-line Encyclopedia of the Roman Provinces. University of South Dakota.