por parte dos romanos e tem seu ápice no ataque implementado contra os judeus em 38,durante o governo de Calígula (37-41).Com Calígula, a situação dos judeus de Alexandria se tornou instável, sobretudo noque diz respeito à observância do culto imperial, devoção estimulada pelo imperador e queenfrentava relutância por parte dos judeus. Tal fato não passou despercebido às comunidadesgrega e egípcia da cidade, que logo o exploraram em seu benefício, fomentando acusaçõescontra os judeus junto ao prefeito da cidade e ataques violentos aos judeus e suas instituições.Tais embates ficaram preservados nas obras de Filo de Alexandria. Escassas são asinformações a respeito da vida de Filo, pois, apesar de sua extensa obra, o autor falou poucosobre si em seus escritos. Flávio Josefo, um autor judeu contemporâneo, faz uma brevedescrição de Filo como um homem notável, experiente em filosofia e irmão de Alexandre, oalabarca, termo que designava o responsável pela cobrança de impostos e importações.2Contudo, por meio do contexto histórico em que Filo viveu e das informações sobre suafamília, podemos recuperar alguns dados da sua biografia.Gaio Júlio Filo foi um erudito judeu que viveu em Alexandria no início do século I.Nascido por volta de 13 a.C., era oriundo de uma família de alta posição social e financeiraque possuía ligações com a casa imperial. Seu irmão, Alexandre, foi procurador de Antônia,mãe do imperador Cláudio. Já seu sobrinho, Tibério Júlio Alexandre, governou a Judeia, foiprefeito do Egito sob o principado de Nero, comandante de Tito e prefeito do pretório. Seu paiera cidadão romano e desde a infância Filo foi instruído na cultura grega, fato que secomprova no uso competente da língua, no estilo das suas obras e nas menções que faz adiversos autores gregos, como Aristóteles, Eurípedes, Homero, Platão entre outros. Filofrequentava os teatros e provavelmente não falava o hebraico.3Filo deixou mais de cinquenta tratados, nos quais trabalhou os mais variados temas,como legislação, teologia, filosofia e história. Neste último domínio, dispensou uma atençãoparticular aos eventos do Império Romano em que teve uma participação pessoal (o conflitoentre gregos, egípcios e judeus no ano de 38 e as embaixadas enviadas a Calígula, nas quaisatuou como delegado dos judeus). Legatio ad Gaium e In Flaccun ocupam um lugar especialno corpus filoniano, visto que a maioria das obras do autor é de natureza filosófica e exegética. Embora estas duas obras possam ser classificadas como históricas, devem seranalisadas com cuidado. Apesar de Filo ter a intenção de escrever a história, ele não faz issopor razões de interesse histórico. Sua principal preocupação não era historiográfica, mas simde cunho teológico e pastoral.4Em In Flaccum, obra escrita sob forma díptica (§ 1-96 e § 97-191) e carregada deimagens retóricas e dramáticas, Filo trata diretamente do conflito de 38, dos atores sociaisenvolvidos e de suas ações, que repercutem no espaço urbano de Alexandria. A obra foipublicada em 41 e tal proximidade com o evento é considerada um condicionante positivo,pois, a despeito dos recursos retóricos empregados, o autor não poderia se desviar em demasiados fatos, conservados na memória do público. Tal desvio poderia expor o autor ao ridículo.5A contribuição histórica da primeira parte do tratado é visível, uma vez que nela são relatadosos pormenores do conflito. A segunda parte é destinada a narrar as desgraças que caíramsobre Flaco, prefeito romano da cidade, como punição divina devido à “má” conduta emrelação aos judeus. Grande parte do que Filo aborda na segunda parte da obra não possuiembasamento histórico, visto que reconstitui pensamentos de Flaco no exílio, mas algunsdetalhes, como sua prisão, condenação e exílio, são históricos.Filo na obra Legatio ad Gaium relata o envio de duas embaixadas (grega e judaica) aoimperador Calígula no ano de 39/40. A obra é uma invectiva contra o imperador e ilustravários exemplos de seu comportamento “escandaloso”, responsável, segundo Filo, porsuscitar a hostilidade dos alexandrinos contra os judeus. O autor enfatiza a “insanidade” deCalígula, suas pretensões divinas e os ataques aos judeus de Alexandria e de Jerusalém.6 Nãosabemos precisar a data da publicação da obra, mas acreditamos que tenha ocorrido um poucodepois do envio das embaixadas ao imperador. Não sabemos se o autor teria tido coragem osuficiente para publicá-la antes da morte de Calígula (41), mas, como a morte de Filo se situapor volta do ano 50, a obra foi publicada entre estes dois acontecimentos. Da mesma formaque In Flaccum, Legatio possui partes fictícias, como quando Filo recria diálogos inteiros dealguns personagens com o qual não tivera contato.7[p. 155, 156]