PROJETO DE PESQUISA “A ORIGEM INDIANA DO MITO DE SÃO TOMÉ NA LITERATURA COLONIAL BRASILEIRA” Prof. Dr. Eduardo de Almeida Navarro Departamento de Letras Clássicas e Vernáculas - Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas - Universidade de São Paulo Introdução Narram as Escrituras que Tomé (ou Thomás), o apóstolo, não estava presente no Cenáculo ao aparecer Cristo ressuscitado a seus discípulos, pela primeira vez. Ao lhe contarem da ressurreição do mestre, ele não acreditou nela, dizendo que não creria se não visse nas suas mãos a abertura dos cravos e não pusesse seu dedo no lugar deles e sua mão no seu lado (João XX, 24). Ao aparecer oito dias depois Jesus aos apóstolos, estando então Tomé entre eles, foi-lhe dado tocar as chagas de Cristo para que não tivesse dúvidas do que havia acontecido. Tomé, nome que, em aramaico, significa “gêmeo”, em grego é Dídymos, sendo assim também conhecido na sua época. Homem de cepa semítica, ele se torna na cultura ocidental o emblema do ceticismo humano, incapaz de crer sem o concurso dos sentidos. O próprio Cristo exprobrou sua incredulidade e disse-lhe que bem-aventurados são os que não viram e creram. Surgiu, assim, desde a Antigüidade, a idéia de que ao apóstolo seria deputada a missão de converter os povos mais incrédulos. Com efeito, remonta aos primeiros séculos do Cristianismo a idéia de que ele teria estado na Índia, a converter seus povos, em grande parte hinduístas ou budistas. Essa idéia é antiqüíssima, havendo dela registros em textos medievais. São Gregório de Tours, no século VI, falou disso. Na Idade Média a notícia dos cristãos de São Tomé chegou à Inglatera e o rei Alfredo lhes mandou um bispo em 833 em embaixada. Segundo Holanda (1992), fala-se de relíquias trazidas da Índia desde o século III e que chegariam à Itália. Martim Afonso teria pedido a Francisco Xavier que solicitasse ao Papa indulgências aos que comungassem no dia do santo. Pouco faltaria para que seu culto fosse igual ao de Santiago de Compostela (ibidem). Ao chegarem os portugueses à Índia, no final do século XV, puseram-se em contato com os cristãos de São Tomé, desmentindo-se ahistória que, desde o século XII, propalava-se pela Europa, a saber, a de que haveria um reino cristão na Índia, idéia essa expressa pela famosa Carta do Preste João, que desde aquela época circulava pelo continente. Tal carta seria a de um suposto rei asiático, de nome Preste João, que a teria escrito ao Basileus Manuel Comeno, imperador de Bizâncio. Apresentava-se como um rei cristão, poderosíssimo, senhor de um reino muito rico e que buscava aliança com o Ocidente cristão para combater o Islão, conquistando a Terra Santa. Mas a terra do Preste João, depois dos contatos dos portugueses com a Índia, passou a ser a Etiópia. O mito migraria por conta das tristes constatações feitas pelos primeiros colonizadores ali aportados: os cristãos da Índia eram nestorianos, asseclas de uma heresia que aceitava somente a natureza divina de Cristo, rejeitando a idéia de sua natureza humana. Numa pequena cidade ao norte do Negapatão, com efeito, reside até hoje um grupo de cristãos que, aceitando tal tradição nestoriana, intitulam-se guardiões do sepulcro de São Tomé. Trata-se da cidade de Meliapor, que recebe, desde tempos imemoriais, muitas peregrinações daqueles que acreditavam ter sido esse o apóstolo que converteu seus maiores. Tal foi o prestígio desfrutado pelo apóstolo incrédulo no Oriente, que até mesmo a autoria de um evangelho lhe é atribuída. Com efeito, foi descoberto na década de quarenta, em Nag Hamadi, no Egito, o evangelho apócrifo de Tomé, em língua copta. Isto é, a Antigüidade cristã admitia que o apóstolo de Cristo migrara para outras terras. O mito de São Tomé foi o grande mito dos séculos XVI e XVII no império lusitano. O que surpreendeu os portugueses foi a extensão do culto a São Tomé: de Bombaim até o Mar da China, assim como a devoção a suas relíquias, até mesmo da parte de mouros e gentios. Suas pegadas já eram vistas em várias partes do Oriente e depois no Brasil. Também fontes brotavam no Oriente e no Brasil e também nalgumas partes da América Espanhola, associadas à passagem do apóstolo. Simão de Vasconcelos (1977) fala da fonte de Toqué Toqué, na Bahia, cujas águas faziam curas miraculosas e nunca secavam. O mito, assim, alcançou o Brasil e difundiu-se também pela América espanhola na mesma época. Montoya atribuiu ao apóstolo a própria abertura do caminho do Peabiru que, saindo da costa do Brasil, estende-se para o interior na direção do Paraguai. Segundo ele, muitos lhe chamariam o caminho de São Tomé. Outros testemunhos sobre o caminho de São Tomé foram dados por missionários espanhóis. (Apud Holanda, 1992). Pegadas também eram vistas no Paraguai. Lá os índios o haviam o haviam maltratado, tendo sido castigados por ele. Também no Peru houve referências da presença, ali, do apóstolo. (ibidem). Com efeito, a idéia de que São Tomé esteve na América nos primórdios do Cristianismo foi repetida à exaustão por grandes espíritos do Quinhentos e do Seiscentos em muitas partes do mundo. Para os europeus do século XVI, a descoberta da existência de seres humanos na América colocava uma séria questão: como incluir os índios nos esquemas de compreensão do homem e do mundo daquela época, em que a Bíblia era tomada em sua literalidade? Como ligar os índios à história da humanidade em geral, já que desde Santo Agostinho afirmava-se a unidade do gênero humano? Por outro lado, se a Bíblia dizia que a palavra dos apóstolos correria toda a Terra, teria a doutrina cristã chegado até os índios da América?Segundo Holanda (1992), Com efeito, segundo uma opinião apoiada nas melhores interpretações dos textos sagrados, deveria estar fora de dúvida a pregação universal do Evangelho em eras mais ou menos remotas. Pois já não dissera o salmista e não o reiterara São Paulo aos romanos que por toda a terra correu o som da voz divina e que suas palavras chegaram aos confins do mundo: “et in fines orbis terrae verba eorum”? “Sim, a doutrina cristã foi transmitida aos índios na Antigüidade pelo apóstolo São Tomé.” Isso foi afirmado por Manuel da Nóbrega, pelo Padre Vieira, foi idéia plenamente acolhida nos séculos XVI e XVII. No Brasil, o que se fez foi intepretar-se o mito de Sumé, herói civilizador a quem os Tupis da costa e outros grupos atribuíam, principalmente, o conhecimento que eles tinham da agricultura e de sua organização social, como uma narrativa da vinda do apóstolo São Tomé para a América. O dominicano Gregório Garcia escrevia, em 1607, em sua Origen de los Indios del Nuevo Mundo, que há menções ao continente americano na própria Sagrada Escritura. O nome de Colombo e de seus companheiros estariam subentendidos em Isaías 60,8:“Quem são estes que como nuvens voam e como pombas para seus pombais? Esperam-me as ilhas e as naus do mar estão há muito preparadas para que tragam seus filhos delonge e o ouro e a prata delas consigo.” [p. 3]Assim, enlaçando o passado indígena com a história da salvação da humanidade, a percepção do mundo índio se tornaria coerente, a verdade bíblica estaria a salvo do relativismo geográfico, estaria garantida a universalidade da revelação e os esquemas de compreensão do homem e do mundo, fundados na Bíblia, não seriam subvertidos. Se se enlaçava, assim, o passado dos povos exóticos ao passado do homem europeu, para que a revelação bíblica não se relativizasse, surgia a idéia da comunidade de origem das línguas e da preeminência do hebraico, que deveria ser a língua primitiva a partir da qual todas as outras deveriam ser explicadas, já que essa deveria ser a língua de Adão. Essa idéia se coaduna com a da vinda do apóstolo S. Tomé para a América: ainda no seu tempo a língua dos patriarcas bíblicos era falada e o hebraico era uma das línguas faladas por ele. Tal idéia encontrava guarida em São Jerônimo, em Santo Izidoro de Sevilha e seria sustentada por numerosos eruditos do Renascimento. Postel, em 1538, publicou De originibus seu de Hebraicae linguae et gentis antiquitate, deque variarum linguarum affinitate”, cujas idéias foram bem acolhidas por dois séculos. Quer se filiassem os povos exóticos diretamente aos hebreus quer a outros povos da Antigüidade, o certo é que a Teologia e a Antropologia do século XVI postulava tal filiação se se deveria dar crédito à idéia da unidade da criação do homem, ensinada pela Bíblia. Busca-se, pelos menos, estabelecer parentescos entre as línguas da Antigüidade e as línguas exóticas. Jean de Léry (194l), por exemplo, no final do capítulo XIX de sua obra Viagem à Terra do Brasil, acerca de um texto em língua brasílica que incluiu nela, diria que ele foi composto “com a ajuda de intérprete muito senhor da língua do país, não só por ali ter estado sete ou oito anos mas ainda por tê-la estudado e confrontado com o idioma grego do qual os tupinambás tiraram algumas palavras, como poderão observar os que a entendem.” (p.248) O mesmo fez Gregório Garcia (op. cit.) em sua Origen de los Índios del Nuevo Mundo, em que apresenta similitudes entre o quêchua do Peru e o hebraico. O mito de São Tomé nos textos coloniais brasileiros Inúmeras são as referências à vinda de São Tomé para o Brasil nos textos dos séculos XVI e XVII. Uma delas é a que se acha no Catec
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