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Apóstolo Tomé Judas Dídimo
Hélène Clastres
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1º fonte - 2 de fev. de 2016, terça-feira
Universidade de São Paulo
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As mesmas marcas de pés nas pedras que já haviam sido referidas em Meliapor foram vistas também no Brasil por Manuel da Nóbrega. Como vemos, certos motivos edênicos de nossa colonização são arquetípicos. Por outro lado, um personagem mítico indígena, Sumé, foi identificado ao apóstolo São Tomé. Contribuiria para isso a semelhança sonora entre os nomes Sumé e Tomé. Segundo Clastres (1978, pp. 30-32),
“Sabemos como se propagou entre os brancos a lenda segundo a qual o apóstolo São Tomé teria vindo evangelizar as Índias Ocidentais. Os guaranis, diz Montoya, sabem por tradição ancestral que São Tomé, a quem eles chamam Zumé, viveu outrora em suas terras. A mesma crença é atribuída aos tupis. (...) Sumé é o herói civilizador a quem os tupis atribuem, em especial, o conhecimento que têm da agricultura e sua organização social. Sumé, por conseguinte, ensinou outrora aos homens as artes da civilização: certas pegadas impressas em rochedos constituíam, para os tupis, a prova ainda visível da sua passagem. (...) Essa história de pegadas miraculosas viria a conhecer um sucesso inesperado entre os cristãos, contribuindo, sem dúvida, em grande parte, para a formação da lenda. Para eles, finalmente, o mito podia ser compreendido assim: a essas terras recentemente descobertas viera, outrora, uma personagem, a quem os índios deviam tudo o que de civilização possuíam. Acrescentemos a isso a semelhança dos dois nomes Sumé e Tomé e a fé nas Sagradas Escrituras que afirmavam que a palavra dos apóstolos correria toda a terra: já bastava isso para que a lenda ganhasse consistência. Graças a isso, a percepção do mundo índio setornará coerente: será possível atribuir à pregação do apóstolo as parcelas de verdade que se crê identificar cá e lá no discurso indígena. (...) Desde os primeiros tempos da conquista, os brancos apreenderam e relataram as crenças tupis-guaranis: delas retendo apenas os motivos que, nos termos da sua própria religião, eles podiam reinterpretar.
LUCIA01/01/1978
ANO:111
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