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1 de jan. de 1911, domingo ver ano


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Segue a transcrição fiel do texto da imagem:O IDOLO ANTHROPOMORPHO DE IGUAPE (1)A singular figura de pedra, descoberta no Sul do Estado de São Paulo e reconhecida como idolo anthropomorpho, tem uma alta importancia para a archeologia brazileira e parece destinada a muito auxiliar a desvendar o grande mysterio da origem dos primitivos habitantes das nossas paragens.Já dei noticia do precioso achado e sua reproducção graphica nas minhas « Informações Ethnographicas do Valle do Rio Ribeira » (2), apresentadas em tempo ao Primeiro Congresso Geographico Brazileiro, onde prometti voltar ao assumpto, depois de inspeccionar pessoalmente o logar de onde foi tirado. Cumprindo agora com esta promessa devo declarar, que das investigações ha pouco effectuadas, unicamente resultou saber-se, que em direcção SW e a um kilometro distante do respectivo logar, que é no vargedo entre o Rio das Pedras e o Rio Comprido, se acha o Sambaqui do Morro Grande; e, pesquizas realisadas neste casqueiro provaram ser elle relativamente moderno, o que, aliás, já se podia prever pela sua posição topographica.Quanto á procedencia deste idolo, deve ser ella a mesma dos artefactos zoomorphos e ornithomorphos, aos quaes se assemelha, não só pelo feito artistico e o alto cuidado do acabamento, como pela natureza do material empregado. Cabe-lhe tambem, ao meu ver, o que eu já disse no alludido trabalho anterior (p. 29) a respeito dos zoolithos:« Em differentes casqueiros tenho observado a occurrencia frequentissima de estilhaços, lascas de pedra e de pontas de flecha e machados, principiados e rejeitados por qualquer defeito; evidentemente são estes os logares onde os aborigenes fabricavam as suas armas. Como explicar que nunca(1) Communicação ao 2º Congresso Brazileiro de Geographia reunido em São Paulo em 1910.(2) Exploração do Rio Ribeira de Iguape Commissão Geographica e Geologica de São Paulo, 1908.Se quiser, posso modernizar a ortografia ou continuar a transcrição das próximas páginas.tenha encontrado nesses logares de fabrico um artefacto zoomorpho principiadio ou arruinado? — E’ porque os sambaquieiros não os faziam! — Como estes objectos de verdadeira arte vieram então parar nas mãos d’elles? E’ porque os herdaram dos seus antepassados, que tinham maior habilidade e possuíam uma cultura, que os sambaquieiros, em viagens de duração de seculos, perderam. Creio serem objectos do culto. »Para elucidar esta questão, procedendo a estudos comparativos deante de objectos de fórmas semelhantes em collecções ethnographico-archeologicas, feitas em outros paizes, escreve o erudito Prof. Dr. H. von Ihering (1): « em Buenos Aires, em varias collecções publicas, vi almozarizes em fórma de aves voando, isto é ornithomorphos, bem semelhantes aos dos sambaquis. Eis pela primeira vez achados archeologicos, que admitem, ou antes provocam uma comparação da cultura dos sambaquis com outra, que é a dos Calchaquis. »Tambem o illustrado Dr. João Coelho Gomes Ribeiro, na sua « Historia de São Paulo » presta a devida attenção a este assumpto e relata que no Perú, de onde procedia, em parte, a cultura calchaqui, foram encontradas estatuetas e cabeças de homem de pedra, bem semelhantes ao idolo de Iguape. No mesmo estudo se acham tambem historiadas as particularidades da descoberta do idolo e sua descripção geral.Uma vez reconhecida a possibilidade de uma comparação dos zoolithos dos sambaquis com artefactos de origem calchaquiana, impõe-se-nos, immediatamente, a supposição de uma emigração d’aquelle povo andino para as nossas plagas; e, indaguemos, qual terá sido a causa que levou todo um povo a abandonar a sua patria, qual a mola secreta que lhe guiou os passos, e em que epoca do immensuravel espaço da nossa prehistoria pode ter tido logar uma migração tão importante.Conhecemos ser os Calchaquis do tempo da conquista um povo guerreiro por excellencia, que porem estava, ha seculos, em dependencia da poderosa nação dos Incas e devemos julgar que a reconhecida tolerancia, usada pelas Incas em suas façanhas bellicosas, para com os povos submettidos ao seu jugo, tinha talvez o fim especial de evitar uma emigração, porque assim cobrariam com facilidade os seus tributos, emquanto de nada lhes serviriam terras longinquas despovoadas. Por isto, certamente, não foi o choque que os Calchaquis em tempo remoto tiveram com os Incas, que causou a sua emigração.Informa-nos o Dr. von Ihering (2) que pelas observações do « Fr. P. Moreno » deve suppor-se ter existido já antes dos Calchaquis uma cultura superior, que presumivelmente pertencia a outro povo expulso pelos Calchaquis. — Ahi temos(1) Revista do Museu Paulista, v. VII, pag. 246 (1904).(2) Revista do Museu Paulista, vol. I, pag. 139 (1895). [p. 228]talvez uma pista valiosa e futuras pesquisas argentinas podem muito bem trazer mais luz a este respeito. As conchas do Oceano Pacifico, encontradas em urnas funerarias calchaquis, indicam, quiçá, a procedencia dos Calchaquis de hoje, representando o povo rechaçado os avoengos dos Sambaquieiros.Ainda em favor desta indicação accresce a circumstancia do povo dos sambaquis não ter sabido fazer louça de barro, habilidade que um povo não perde, visto ainda hoje ser uso de muitos aborigenes do Brazil abandonar a sua louça em occasião de mudanças e substituil-a depois por nova.Sabemos que o principal culto dos povos da região andina da Argentina tinha por objecto o Sol e por isso não nos deve surpreender, que foi contra o nascente, que, em qualquer tempo remotissimo, se dirigiram lotes d’aquelles indios, expulsos do seu paiz, em procura de terras onde estivessem socegados.Provavelmente seguiram-se muitas gerações durante esta migração e quando, depois de numerosos seculos, o Oceano Atlantico impoz um paradeiro a este movimento, após um percurso de mais de 1500 kilometros, já se tinha modificado a indole e provavelmente tambem o aspecto geral d’estes aborigenes, que de sessis que eram, se tornaram nomadas.Certamente passaram de pae para filho os preceitos da sua primitiva religião; e, cautelosamente, procuraram guardar os idolos e outros objectos cultuaes, trazidos da sua patria. As armas, sendo objectos de uso diario, foram gastas e finalmente inutilisadas, mas substituidas por outras feitas de novo, mais ou menos pelos antigos modelos, porém cada vez menos bem acabadas, até que, para uma ponta de flecha se serviram de uma simples lasca de pedra, ou mal acabaram um corte de machado, contentando-se em dar-lhe um gume, sem tratar de alisar o resto. São estas as armas encontradas nos primitivos sambaquis (Est. nº 4), distantes dezenas de kilometros da costa actual, e no fundo de um d’estes sambaquis tive a fortuna de achar um ornitholitho (Est. nº 3) de feito primoroso.Aquelle grande espaço de tempo que abrange a « migração » dos indios errantes, expulsos do paiz da sua origem, até sua chegada á costa oriental do continente, deve ser considerado um dos periodos prehistoricos, em referencia aos indios do littoral do Brazil meridional, e futuras descobertas archeologicas no interior do nosso paiz, acharão assim uma satisfactoria explicação.Para evitar deducções erroneas, torna-se necessario tomar em conta a grande antiguidade dos primeiros sambaquis. [p. 229][...] quis indica uma antiga linha da costa marinha (1) e todo o espaço comprehendido dentro da grande curva por elles demarcada, era uma larga bahia, cuja superficie passava de mil e duzentos kilometros quadrados (Est. n.º 5).Esta bahia encheu-se depois, durante o tempo quaternario, por detritos trazidos pelo Rio Ribeira e, á medida que a linha da costa avançava, em seguimento á lenta consolidação do terreno, eram os indios forçados a abandonar os seus sambaquis, por falta de viveres na vizinhança e estabelecer-se successivamente de novo, ate a costa adquirir mais ou menos a sua forma actual. O facto de augmentar os casqueiros na proximidade da costa, tanto em numero como em volume, se acha detalhadamente explicado nas « Informações. »Observando a differença que existe entre os objectos encontrados nos antigos e nos modernos sambaquis, notamos uma sensivel modificação de aperfeiçoamento, mostrando armas e utensilios de procedencia mais recente, crescido gosto de formas e maior dedicação no seu acabamento. Resulta d’ahi a conclusão que os aborigenes andinos, embrutecidos durante a longa migração, se tornaram novamente um povo sessil nos sambaquis.O vastissimo espaço de tempo, que abrange a solidificação da bahia da Ribeira e com ella a construcção dos sambaquis, representa um segundo periodo prehistorico local.Procurando reconstruir o seguimento chronologico dos acontecimentos prehistoricos na região do littoral, devemos prestar attenção ao achado dos primeiros estilhaços de louça grosseira, descobertos na camada superior de alguns dos modernos sambaquis, assim como no encontro de dois esqueletos entrelaçados, achados no cume do « Casqueiro Grande » do Boguassú.Se, como parece, o povo que supplantou na costa a raça sambaquieira, sabia fazer louça de barro, não era elle conchyliophago, visto não existir um casqueiro que tivesse cacos de louça promiscuamente no seu conteúdo.Quem eram estes indios, de onde vinham; ainda não sabemos. Só conhecemos d’elles urnas funerarias, feitas por enroscamento e munidas de tampa grande.Fóra destas urnas, de feitio o mais rustico possivel, encontramos mais dois typos distinctos, que revelam, da parte dos seus fabricantes, maior pericia na arte ceramica, mas a exiguidade das ossadas n’ellas encontradas ainda não autorisa a formar uma opinião decisiva; — se cada typo representa a passagem de um outro povo, ou se os primitivos oleiros da costa, com o tempo, por iniciativa propria ou por espirito de imitação de costumes alheios, progrediram n’esta arte, a ponto de produzir vasilhas de formas um pouco mais esthe-(1) « Contribuições para a Ethnologia Paulista » (mihi). Revista do Instituto Historico e Geographico de São Paulo, vol. VII, 1902. [p. 230]ticas, para não dizer artisticas, porque as encontradas ainda não mostram a menor ornamentação. Mas seja como fôr, para taes substituições ou mesmo para um desenvolvimento material desta ordem, era necessaria a passagem de um lapso de tempo grande e só depois de mais este terceiro periodo, que se caracterisa pela occupação de urnas funerarias é que apparecem os Carijós na costa de São Paulo.O erudito Dr. Gomes Ribeiro disse: « Os Carijós, Guaranys de origem, habitantes da zona na epoca da conquista procederam em tempos remotos, dos territorios do Paraguay e da Argentina actual, e é provavel, senão certo, que d’ahi trouxessem artefactos calchaquis, como machados de cobre, chapas de ouro e o singular idolo de pedra de que nos occupamos. »O mesmo presume tambem, que podia ser divulgadora da cultura peruana, ou calchaqui, a expedição de Aleixo Garcia ao Perú, authenticada pelo testemunho de Cabeza de Vacca e de Ruy Dias de Gusman.Não ponho duvida n’isto em quanto aos machados de cobre, porque o unico, descoberto na nossa região, foi achado em um barranco do Rio Ribeira no logar denominado « Primeira Ilha », isto é, perto da cidade de Xiririca, e fóra da zona dos sambaquis; porem para os zoolithos, até agora encontrados em São Paulo, as seguintes informações induzirão á convicção, que existe entre elles e os sambaquis uma relação reciproca:O 1.º morteiro por mim encontrado, tem a forma de uma canôa e foi achado no « Sambaqui do Cambicho » no Rio de Una da Aldeia. Existe actualmente no Museu de Dresden na Saxonia.O 2.º, em fôrma de tartaruga, achei-o proximo ao « Sambaqui do Rocio », perto de Iguape e está no Museu de Vienna d’Austria.O 3.º, em fôrma de passaro de azas abertas, é o Nº 3 das estampas, foi encontrado por mim nas camadas inferiores do « Sambaqui do Pinheiro » do Rio Cordeiro.O 4.º, em fôrma de passaro de azas fechadas (Nº 4 das estampas), foi encontrado poucos metros distante do « Sambaqui do Saripóca », no Rio Pariquera-mirim, na occasião de fazer-se uma excavação para fincar um dos esteios de uma casa.Finalmente, o nosso idolo anthropomorpho, foi achado distante um kilometro do « Sambaqui do Morro Grande » e em uma região riquissima em casqueiros de todos os tamanhos.Facilmente podia ter-se extraviado um machado de cobre que a equipagem de algum bandeirante trouxesse das regiões andinas, porém, o caso do ornitholitho Nº 3, em combinação com as conclusões que resultam de um estudo cuidadoso dos sambaquis, permite fixar uma opinião certa e segura sobre a procedencia dos zoolithos e sua origem ultra remota. [p. 231]





LUCIA01/01/1911
ANO:58
  


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