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Revista Archivo Vermelho
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dez. de 1920 ver ano



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ARCHIVO VERMELHOArchivo Vermelho : Revista Quinzenal (RJ) - 1918 a 1921A identidade da victima de Pão AltoO marido de Sinhasinha Junqueira

Confirmadas as previsões da logica, a identidade da victima do crime de Cravinhos, a monstruosa tragedia que foi a mais intensa nota criminal do anno, está restabelecida. Desde os primeiros momentos que muitas foram as suspeitas de que o individuo barbaramente trucidado em Pão Alto, á noite, outro não fosse que o marido de Sinhazinha Junqueira, que se casára e divorciára em França, sendo o seu esposo aqui completamente desconhecido. Essas suspeitas tinham por si a logica natural, por isso que explicavam as causas do crime. Admittida a hypothese de se tratar do ex-marido de Sinhazinha Junqueira, que se apresentasse inesperadamente em Pão Alto, a reclamar direitos, a luz inundava os antecedentes do crime barbaro, provado ficando o empenho da rainha do café em commetter e occultar o crime, nas sombras do maior mysterio possivel. Por outro lado, desapparecem as duvidas causadas pela falta absoluta de vestigios da victima, antes do crime.

COMO A VERDADE SURGE

Em a noite de 17 do corrente, em um “bar” da capital paulista, em companhia dos srs. Boucher Filho e dr. Edmundo Burle, cavalheiros muito conhecidos, bebia o engenheiro australiano Carlos Leman, que trabalhava nas obras da Light, em Sorocaba.

Excitado pelo alcool, Leman começou a fazer curiosas declarações sobre a identidade do crime de Cravinhos, dando a perceber que a conhecia. Extraordinariamente surprehendidos, seus dois companheiros não perderam tempo e nem permittiram que Leman continuasse a beber.

Conduziram-no á Chefatura de Policia, onde se achava de dia o dr. Bandeira de Mello e alli declararam abruptamente que Leman conhecia a identidade mysteriosa da victima de Pão Alto.

Foi um reboliço enorme. Passado o primeiro momento, os telephones trabalharam mobilisando pessoal, sendo chamado, em primeiro logar, o dr. Accacio Nogueira, director do Gabinete de Investigações e Capturas. Todos estavam ansiosos pela interrogação da inesperada testemunha, que vinha rasgar véos que haviam affrontado impunemente as garras e a argucia de todos os “sherlocks” paulistas, açulados pela régia recompensa de um premio de 250:000$000.

DUAS HORAS DE ANCIEDADE

Leman, porém, estava completamente alcoolisado e mister foi, primeiro, que lhe curassem a formidavel carraspana, o que foi feito com todo o carinho, apesar da anciedade horrivel que estimulava todos. Cerca de duas horas decorreram antes que o australiano pudesse responder coherentemente ás indagações. Dissipados, porém, os effeitos do alcool, falou:

“Declaro chamar-se Carlos Leman, australiano e engenheiro. Durante a guerra servia no exercito inglez. Teve, então, ensejo de conhecer um official francez, de nome Affonso Deport, de quem se tornou amigo.

Certa vez, em conversa, Deport lhe dissera ter se casado, em Paris, com uma brazileira, da qual, mais tarde, se separara. Ambos falavam em vir ao Brazil, mas o assumpto dessas conversas, no momento, não podia fixar-se na attenção de um e de outro.

Terminada a guerra, Carlos veiu para S. Paulo, empregando-se na Companhia Armour, como engenheiro.

Pouco tempo depois, deixou este logar, indo trabalhar em Sorocaba, nas obras da Light, onde ainda está collocado.

Em fins do anno passado, ou, melhor, em outubro de 1919, Carlos recebeu uma carta de seu amigo. Pedia-lhe informações a respeito de uma familia Alves Ferreira, deste Estado, suas condições de fortuna, etc., ao mesmo tempo que annunciava a sua breve partida para cá.

De facto, em principios do corrente anno, pouco antes de ser encontrado o cadaver do Espraiado, o official francez chegava a S. Paulo e procurava o seu amigo. Já de posse das informações que pedira e que lhe haviam sido dadas por carta, sobre a familia de d. Iria Alves Ferreira, Deport, sem explicar o motivo de sua viagem, convidou Carlos a acompanhal-o á Villa Bonfim, no municipio de Ribeirão Preto. Carlos, porém, nesse tempo, ainda empregado na Armour, não pode attender ao convite, tendo-lhe Deport communicado que seguiria no dia seguinte para o referido logar. Desde essa data, que coincide com a do crime, os dois amigos nunca se viram, nem Carlos Leman teve qualquer noticia de Deport.

Com as noticias sobre a tragedia de Pão Alto, o australiano começou a estabelecer ligações entre os factos.Guardou, desde os primeiros dias, os jornaes e revistas que trataram do caso. E á medida que as hypotheses, successivamente aventadas, iam sendo postas de lado, ia-se formando em seu espirito a convicção de que a victima é Affonso Deport. Custára a chegar a este resultado, pois eram muito vagas as suspeitas que a principio tinha. Mas, adoptando o processo da exclusão, ficou de pé a sua hypothese.Com o intuito de revelar as suas suspeitas á policia, e aos jornaes, viera, ha dias, de Sorocaba e hospedára-se na Pensão Allemã, á rua José Bonifacio. Alli, nas condições a que já alludimos, falou a respeito com os srs. Boucher e Burle. Estes o levaram, então, á presença da autoridade.”

Tomadas por termo e testemunhadas, taes declarações causaram profunda impressão, levando mesmo a convicção no espirito de todos. Novamente interrogado no dia seguinte, depois de ter dormido regularmente e em completo jejum alcoolico, Leman confirmou tudo quanto dissera na vespera, dando, tambem, pro-

vas incontestaveis da sua propria identidade e de muitas de suas affirmações.

UMA PHOTOGRAPHIA DA VICTIMA

A policia entregou uma photographia de Affonso Deport, a victima, photographia essa que lhe fôra offerecida pelo official francez e que vae prestar um grande serviço na elucidação da horrivel tragedia.UMA ATTITUDE EXTRANHAA solicitude com que as autoridades paulistas se promptificaram a ouvir as declarações de Leman não correspondem, absolutamente, as medidas em seguida tomadas pelas mesmas autoridades. Absoluto segredo foi mandado observar sobre o caso. Um trabalho activo foi immediatamente iniciado, para que Leman seja considerado como um intrujão, que cobiça o premio offerecido a quem restabelecer a identidade da victima de Pão Alto.Um jornal, porém, conseguiu apurar o facto, tornando-se o mesmo do dominio publico.

A RECONSTITUIÇÃO DA TRAGEDIA

Comprovadas as declarações de Leman, a reconstituição do crime se impõe: de posse das informações obtidas do antigo Deport, escreverá á sua esposa, ou á sua sogra, noticiando a sua chegada e, talvez, fazendo exigencias. Essas cartas deram o alarma e Sinhazinha Junqueira, juntamente com sua mãe, planejou o crime, respondendo ás cartas e attrahindo a victima para a fazenda de Pão Alto. Affonso Deport era discreto, como se deduz das poucas declarações que, sobre o seu casamento, em Paris, fizera a Leman. Sinhazinha não devia ignorar tal circunstancia e facil lhe era, respondendo ás cartas, pedir a maxima reserva, para evitar escandalos, sendo attendida. Deport, porém, quiz que Leman o acompanhasse, caso esse em que, talvez, duas fossem as victimas.Leman não pode ir e o infeliz official francez foi só, ao encontro da morte, em dia préviamente marcado.E assim se explica facilmente como d. Iria pode preparar antecipadamente o crime, com uma segurança que lhe garantiria absoluta impunidade, si seus capangas, á ultima hora, por preguiça, não houvessem deixado de executar a derradeira e importantissima das instrucções recebidas: attirar o cadaver ao rio.

O crime de Cravinhos

Em todos os tempos, em todas as épocas, desde que o Mundo principiou a ter uma Historia, isto é, desde que se principiou a registrar, catalogando, chronologicamente, os factos succedidos na biographia do genero humano, de quando em vez, abala a humanidade, convulsionando-a até a base, um terremoto immenso, maior do que aquelle que amortalhou Pompéa e destruiu Herculano. E’ a explosão da besta, é o raivar da féra, é a expansão franca, sem peias, livre, dos sentimentos primitivos que o homem traz, raça maldita, dentro de si, como um cancro original.

Um criminalista da Escola Lombrosiana, classificou “a guerra de crime collectivo, e o crime de guerra individual”.

Por isso é que ambos são eternos, como o bronze e o granito, porque a ambição e a maldade humana são infinitas — o que vale dizer eterna. E, em a nossa Patria, só os visionarios phantasmagoricos, os poetas eternos que vivem dentro de um sonho, e os loucos divinos, acalentam uma illusão doidevaneadora, não lhe deixando ver a realidade das cousas, a positividade dos factos. O nosso sertão, os seus habitantes, o tão fallado Géca-Tatu, não passa — aquelle — “de um vasto hospital”: este, de um bronco sanguinario, mordido pela molestia de Chagas, roido pela syphilis, decomposto pela lepra, pela morphéa, bestialisado pelo analphabetismo e pelo alcool. Devanece, por certo, a leitura amena e optimista do “Porque me ufano de meu paiz”. Quem o escreveu é um poeta, e, quasi que o dizia, um mystico, e, isto basta. Mas, a verdade é tão outra...

E’ tão facil escrever-se paginas a pingar doçuras, a destilar pieguices, quando se vive, desfructa e goza a civilisação de uma grande cidade como a do Rio, e, na mesma, se tem uma posição de destaque...

E, todavia, mão grado isto, quem negar ousa que vivem, aspiram o mesmo ar do que nós outros, verdadeiras féras humanas aqui nesta soberba urbs?

Ninguem, por certo.

Estas desconchavadas idéas, sem nexo e sem ordem, surgem-me, tumultuosamente ao espirito, após as varias leituras que fiz de descripções, telegrammas, de movimentos, denuncias e defesa do “crime de Cravinhos”.Atravessar uma existencia inteira, longa, placida e christã, doce como um sorriso de bondade, meiga como uma caricia branda, vida de quasi setenta annos, rodeada de considerações e de bençãos, e, ao cabo della, como um marco final, uma nodoa a destruir num opprobrio todo este passado é um caso que demanda acurado estudo, cuidadosa analyse. A duvida — já alguem a chamou a unica cousa certa que temos na vida — perpassa e domina o meu espirito.E agora, que finalisei a leitura da “Defesa de D. Iria Alves Ferreira e do Capitão Alexandre Silva”, ella mais do que nunca, se arraiga no meu cerebro. E’, não ha duvida, uma peça que honra os nomes daquelles que a subscreveram. As tres versões do crime, tão bem e sabiamente estudadas e expostas pelos advogados de d. Iria, levam-me a crer, mais do que nunca, no aphorismo latino, que ensina “In dubio pro réo”. A segunda versão, aquella em que os depoimentos de Antonio Sant’Anna, Praxedes José da Silva, José Leme de Sant’Anna e Romualdo Serapião, são unanimes, uniformes, coherentes e regulares, parece-me ser a verdadeira, maxime quando ellas são corroboradas “in totum” pelo exame cadaverico.Seja-me permittido, agora, abrir um parenthesis, afim de explicar todas estas minhas allegações, “se se pode chamar ao




O Crime de Cravinhos
01/01/1920
16/05/2026 05:52:42
Arquivo Vermelho/RJ
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Dn. Iria Alves Ferreira Junqueira*
01/01/1902
18/02/2026 01:17:09
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